Tatuagem em japonês: o que conferir antes de tatuar

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Existe um gênero inteiro de piada na internet japonesa: fotos de estrangeiros tatuados com ideogramas que não querem dizer o que o dono pensa. Algumas são engraçadas. Outras são tristes, porque a pessoa claramente se importava com o significado e foi mal servida por quem consultou.

A tatuagem é permanente e o kanji errado também. O que segue é uma lista de verificações que leva vinte minutos e evita quase tudo o que costuma dar errado.

Por que erra tanto

Não é falta de cuidado. É que a escrita japonesa tem quatro camadas de coisa que pode dar errado, e três delas são invisíveis para quem não lê a língua.

  1. O sentido pode estar errado — o ideograma não significa o que disseram.
  2. A leitura pode estar errada — significa aquilo, mas se lê diferente do esperado, e o mesmo caractere muda de sentido conforme a leitura, como se explica em por que um kanji tem várias leituras.
  3. O traço pode estar errado — o desenho tem um risco a mais, a menos, ou na direção errada.
  4. A fonte pode estar errada — o caractere é chinês simplificado, ou está numa tipografia que japonês nenhum usaria naquele contexto.

As três últimas só aparecem para quem lê. E é sempre alguém que lê que vai comentar a sua tatuagem.

As quatro camadas de erro possíveis numa tatuagem em japonês
Sentido, leitura, traço e fonte — e só a primeira é visível para quem não lê japonês.

As sete verificações

1. Confirme o sentido em dicionário japonês, não em site de tatuagem

Sites de “kanji para tatuagem” reciclam listas uns dos outros, e erros se propagam por anos. Um dicionário japonês-inglês sério mostra todas as acepções do caractere, incluindo as que ninguém menciona. Vale conferir se a que você quer é a principal ou a quarta.

2. Cheque se é kanji japonês ou chinês simplificado

A China simplificou a escrita nos anos 1950; o Japão fez uma reforma própria, menor e diferente. O resultado é que muitos caracteres existem em duas formas.

Sentido Japão China simplificada
amor
dragão 竜 / 龍
país 国 (igual)
ampliar 广

Uma busca por imagem devolve as duas formas misturadas. Se a intenção é japonês, a forma japonesa é a que interessa — e um japonês reconhece a chinesa de imediato, do mesmo jeito que a gente reconhece um “ñ” espanhol num texto em português.

3. Peça o arquivo em vetor, não em imagem de busca

Imagem baixada de resultado de busca costuma ser pequena e comprimida. Ampliada para o tamanho da pele, os traços viram borrões, e o tatuador acaba interpretando o que vê. É assim que aparece traço a mais.

O melhor caminho é digitar o caractere você mesmo — em um documento, numa fonte japonesa de verdade — e exportar em vetor. Como instalar o teclado está em como digitar em japonês.

4. Escolha a fonte com intenção

Fonte não é detalhe estético aqui. Cada família comunica uma coisa:

  • Mincho (明朝) — serifada, formal, de livro. Sóbria e neutra.
  • Gothic (ゴシック) — sem serifa, moderna, de placa e tela.
  • Kaisho (楷書) — caligrafia regular, traço a traço. É a que a maioria das pessoas quer quando pensa em “japonês bonito”.
  • Gyōsho (行書) e sōsho (草書) — semicursiva e cursiva. Lindas, e ilegíveis para quem não estudou.

Um ideograma em fonte de sistema, tipo o padrão do computador, fica com cara de documento impresso. É opção legítima, mas convém que seja escolha, não acidente. O assunto está em caligrafia japonesa.

5. Confira a orientação e a ordem

Japonês se escreve na horizontal, da esquerda para a direita, ou na vertical, de cima para baixo. Na vertical, começa em cima. Parece elementar e ainda assim aparece tatuagem com a coluna invertida, quase sempre porque a referência era uma foto espelhada.

E ideograma não se espelha. Uma tatuagem no braço direito com o caractere espelhado para “ficar simétrica” com o esquerdo produz um desenho que não é escrita nenhuma.

6. Mostre para duas pessoas diferentes que leiam japonês

Duas, não uma, e não a mesma fonte duas vezes. Se você não conhece ninguém, procure um centro cultural nipo-brasileiro, uma escola de japonês ou uma associação de província — no Brasil existem em quase toda capital, e a pergunta é rápida.

Pergunte especificamente três coisas: o que está escrito, como se lê e se tem algum traço estranho. A terceira é a que pega o problema que o Google não pega.

7. Repense se for frase

Palavra solta é relativamente segura. Frase é onde mora o desastre, porque frase tem gramática, e gramática mal montada não é “sotaque” — é ininteligível.

Provérbio japonês existe aos milhares e vem pronto, sem risco de montagem. Já a frase traduzida por máquina do português para o japonês costuma sair com partícula errada e nível de formalidade impossível de identificar. É um bom lugar para desconfiar do tradutor automático.

Palavra solta erra o sentido. Frase erra a gramática. E gramática errada em ideograma não parece charmosa nem exótica: parece um texto que não fecha, do mesmo jeito que um português mal montado tatuado num estrangeiro.

Sobre por que provérbio pronto é mais seguro que frase traduzida

Sete verificações antes de fazer uma tatuagem em japonês
Vinte minutos de conferência contra uma decisão que dura a vida toda.

Nome próprio: katakana ou kanji?

As duas opções servem, e são bem diferentes uma da outra.

Katakana é a resposta correta e a segura. Escreve o som do nome, um japonês lê e reconhece, não há risco de sentido oculto. A desvantagem é estética: os traços do katakana são retos e simples, e nem todo mundo acha que ficam bem na pele.

Kanji por ateji é mais bonito e mais arriscado. Os ideogramas são escolhidos pelo som, não pelo sentido, e o resultado não é a tradução do seu nome — é um nome estrangeiro escrito de um jeito curioso. Vale ler ateji antes de decidir, sobretudo a parte dos erros de escolha.

A ferramenta em nome em japonês devolve as duas formas, com a divisão silábica e o significado de cada ideograma do ateji — o que dá pelo menos com o que ir conversar com quem lê.

Um assunto que quase ninguém menciona

Vale saber, e é informação prática de viagem: tatuagem no Japão ainda carrega associação com o crime organizado, e por causa disso muito estabelecimento com banho coletivo — onsen, sentō, algumas academias e piscinas — recusa a entrada de pessoas tatuadas.

A regra está afrouxando, sobretudo em regiões turísticas, e há casas que aceitam ou que oferecem banho privativo. Mas é comum que a placa na entrada seja explícita, e não adianta argumentar que a sua tatuagem é pequena ou que você é estrangeiro.

Quem vai ao Japão com tatuagem visível costuma levar um adesivo de cobertura, do tipo vendido em farmácia japonesa, e checar a política de cada casa antes. Não é um veto ao país inteiro — é uma inconveniência específica que dá para planejar.

Resumindo

  1. Dicionário japonês, não site de tatuagem.
  2. Forma japonesa, não chinesa simplificada.
  3. Vetor, não imagem de busca.
  4. Fonte escolhida de propósito.
  5. Orientação certa, nunca espelhada.
  6. Duas pessoas que leiam japonês.
  7. Palavra ou provérbio pronto; frase traduzida, não.

Se você chegou aqui pensando no próprio nome, o começo da conversa é seu nome em japonês, que explica a diferença entre escrever o som e escolher um sentido. Se o nome for sobrenome de família japonesa, o ideograma já existe e não se inventa: sobrenome nikkei. E para entender por que os traços são o que são, katakana e hiragana mostra de onde vieram os dois silabários.

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