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  • Omamori e omikuji: amuletos e sortes no santuário

    Omamori e omikuji: amuletos e sortes no santuário

    Você entra num santuário japonês e há um balcão vendendo saquinhos de tecido bordado, uma caixa de onde se tira um papelzinho, e uma parede de tabuletas de madeira cobertas de letra manuscrita.

    Cada uma dessas três coisas tem regra própria, e nenhuma é souvenir.

    Omamori: o amuleto

    Omamori (御守) vem de mamoru, proteger. É um saquinho de tecido, geralmente de brocado, fechado com cordão, e dentro dele há um papel ou uma lasca de madeira com uma inscrição.

    E ele não se abre. Esta é a única regra realmente firme: abrir o omamori dispersa a proteção. Todo japonês sabe disso, e a curiosidade de estrangeiro já estragou muitos.

    Os tipos

    Cada um tem uma função declarada, escrita no próprio saquinho:

    Nome Para quê
    Kōtsū anzen 交通安全 segurança no trânsito — o mais vendido do Japão
    Gakugyō jōju 学業成就 sucesso nos estudos, sobretudo em vestibular
    En-musubi 縁結び laços e relacionamentos — não só românticos
    Anzan 安産 parto seguro
    Shōbai hanjō 商売繁盛 prosperidade nos negócios
    Kenkō 健康 saúde
    Yaku-yoke 厄除け afastar o infortúnio, sobretudo nos anos de azar
    Kaiun 開運 abrir a sorte, genérico

    O yaku-yoke liga-se diretamente aos anos perigosos da contagem japonesa, explicados em o ano do seu próprio signo.

    As regras práticas

    1. Vale um ano. Não é prazo de validade de produto: a ideia é que ele acumula a impureza que desviou de você. Passado o ano, devolve-se.
    2. Devolve-se ao santuário, de preferência ao mesmo onde foi obtido, num balcão específico para isso. Ali eles são queimados em cerimônia. Não se joga no lixo.
    3. Anda-se com ele. Na bolsa, na mochila, na carteira. O de trânsito vai no carro; o de estudos, no estojo.
    4. Não se acumula sem critério. Existe a crença de que muitos kami no mesmo lugar podem brigar — o que na prática funciona como “escolha um ou dois”.
    5. Não se compra: recebe-se. A palavra usada é ukeru, receber, e o dinheiro é oferenda. É uma distinção formal, mas eles fazem questão dela.
    6. Dar de presente é comum e bem-visto, ao contrário do que se costuma dizer. Mãe dá de estudos ao filho, avó dá de saúde ao neto.
    Os tipos de amuleto japonês e para que serve cada um
    A função vem escrita no próprio saquinho — e não se abre para conferir.

    Omikuji: o papel da sorte

    Omikuji (おみくじ) é a tira de papel com a previsão. Tira-se uma moeda de cem ienes, sacode-se uma caixa hexagonal de metal até sair um palito com um número, e recebe-se o papel correspondente. Em muitos santuários hoje há máquina, e em alguns há versão em inglês.

    Os níveis

    A escala varia de santuário para santuário — nem todos usam todos os níveis —, mas a estrutura geral é esta:

    • 大吉 daikichi — grande sorte
    • 中吉 chūkichi — sorte média
    • 小吉 shōkichi — pequena sorte
    • kichi — sorte
    • 末吉 suekichi — sorte que vem depois
    • kyō — azar
    • 大凶 daikyō — grande azar

    Note a pegadinha: 末吉 é pior que 小吉, ainda que “sorte” apareça nos dois. E a ordem entre 吉 e 中吉 muda conforme o santuário — não há padrão nacional.

    Abaixo do nível vem a parte que interessa de verdade: previsões separadas por assunto — saúde, estudos, negócios, viagem, amor, coisa perdida, pessoa esperada. É aí que está o texto, muitas vezes em japonês clássico, e ele costuma ser bem mais interessante que o rótulo do topo.

    O que fazer com o resultado

    Se for bom: leva-se para casa, na carteira.

    Se for ruim: amarra-se num varal de cordas ou num galho de pinheiro reservado para isso, no próprio santuário. A ideia é deixar o azar preso ali em vez de levá-lo embora.

    Há um trocadilho por trás, e é bonito: matsu (松) é pinheiro e matsu (待つ) é esperar. Amarrar no pinheiro é fazer o azar ficar esperando ali.

    Duas notas práticas: tirar 大凶 não é considerado desastre — muita gente acha até divertido, porque é raro; e pode-se tirar de novo, ainda que a graça se perca.

    O sistema tem uma saída elegante embutida: a sorte boa você leva, a ruim você deixa amarrada. É uma adivinhação em que o consulente decide o que faz com a resposta — e todo mundo sabe disso.

    Sobre por que ninguém sai triste de um omikuji

    Ema: a tabuleta do pedido

    Ema (絵馬) são tabuletas de madeira, geralmente pentagonais, penduradas às centenas em armações no santuário. Escreve-se o pedido de um lado, o nome do outro, e pendura-se.

    O nome significa “cavalo pintado”, e a etimologia conta a história inteira: originalmente, oferecia-se um cavalo de verdade ao santuário — animal considerado montaria dos kami. Cavalo é caro. Passou-se a oferecer uma imagem de cavalo em madeira, e daí a tabuleta com desenho, e daí a tabuleta com qualquer desenho.

    Hoje o desenho costuma ser o animal do zodíaco do ano, o que faz a parede de ema mudar de bicho a cada janeiro — os doze estão em os doze signos, um a um.

    Vale ler as tabuletas: os pedidos são pessoais, escritos à mão, e muitos são comoventes. Perto de universidades, quase todos são de vestibular; perto de maternidades, de parto. E em santuários muito turísticos há ema em todos os idiomas.

    O que se faz com o omikuji conforme o resultado
    Sorte boa vai na carteira; sorte ruim fica amarrada no santuário.

    As outras coisas do balcão

    • Ofuda (御札) — tabuleta maior, para a casa inteira, colocada no kamidana, a prateleira de altar. É o irmão grande do omamori.
    • Hamaya (破魔矢) — flecha decorativa “que rompe o mal”, vendida no Ano-Novo.
    • Daruma — o boneco redondo vermelho, sem pupilas. Pinta-se um olho ao fazer o pedido e o outro quando ele se realiza. Não é xintoísta: é budista, ligado à figura de Bodhidharma.
    • Goshuin (御朱印) — o carimbo caligrafado, feito à mão na hora num caderno próprio, o goshuinchō. É registro de visita, não amuleto, e virou um hobby popular. Custa uns poucos trezentos ienes e é feito com pincel na sua frente — provavelmente a coisa mais bonita que se leva de um santuário.

    Estrangeiro pode?

    Pode, e é bem-vindo. Não há qualquer noção de exclusividade — o xintoísmo não tem conversão nem membresia, e o santuário está aberto a quem entrar.

    O que se espera é discrição: seguir o rito da entrada (lavar as mãos, não andar no meio do caminho), não fotografar dentro do prédio principal quando houver aviso, e não tratar o lugar como cenário. Casamentos e ritos acontecem ali enquanto turistas circulam, e a diferença entre visitar e atrapalhar é visível.

    Se a pergunta é se “conta” para quem não é xintoísta — a resposta japonesa seria que a pergunta não faz sentido, pelos motivos explicados em xintoísmo e budismo.

    Para a data em que tudo isso acontece em massa, oshōgatsu. Para o santuário em movimento, matsuri. E para o resto do protocolo, etiqueta japonesa.

  • Xintoísmo e budismo: como duas religiões dividem um país

    Há uma frase que os próprios japoneses usam para descrever a própria vida religiosa: nasce-se xintoísta, casa-se cristão e morre-se budista.

    É meio piada e é literalmente verdade. O bebê é levado ao santuário xintoísta, o casamento acontece numa capela de estilo ocidental com um pastor que às vezes é ator contratado, e o funeral é budista. A mesma pessoa, três tradições, nenhuma contradição percebida.

    Para quem vem de um país onde religião é escolha exclusiva, isso parece incoerência. Não é. É divisão de trabalho, e tem mil e quatrocentos anos.

    Xintoísmo: o que já estava aqui

    Shintō (神道) significa “o caminho dos kami”. Não tem fundador, não tem escritura sagrada central, não tem dogma e não tem noção de pecado no sentido cristão. É a religião nativa do arquipélago, e ganhou nome só quando o budismo chegou e foi preciso distinguir uma coisa da outra.

    O conceito central é kami (神), que se traduz por “deus” e não é bem isso. Kami é o que provoca reverência: uma montanha, uma cachoeira, uma árvore muito antiga, uma pedra estranha, um ancestral, um imperador, um artesão excepcional. São incontáveis — a expressão tradicional fala em yaoyorozu no kami, “oito milhões de kami”, que quer dizer “inumeráveis”.

    A preocupação central não é o bem contra o mal: é pureza contra impureza. Impureza (kegare) se acumula com contato com morte, doença, sangue, sujeira — e se resolve com purificação (harae), não com perdão. Isso explica muita coisa: a bacia de água na entrada do santuário, o sal que o lutador de sumô joga no ringue, a limpeza do Ano-Novo.

    Como reconhecer um santuário

    • Torii (鳥居) — o portal, quase sempre vermelho ou de madeira crua. Marca a passagem do mundo comum para o espaço sagrado. Onde há torii, é santuário.
    • Temizuya — a bacia de purificação: lava-se a mão esquerda, depois a direita, depois enxagua-se a boca com a mão (nunca encostando a boca na concha).
    • Komainu — o par de leões-cães guardiões, um de boca aberta e outro fechada.
    • Shimenawa — a corda grossa de palha com tiras de papel, marcando o que é sagrado.
    • Nomes terminados em -jinja (神社), -jingū ou -taisha.

    Como se reza: joga-se uma moeda na caixa, toca-se o sino se houver, e então duas reverências, duas palmas, um pedido em silêncio, uma reverência. O ritmo é fácil de decorar e vale para quase todo santuário do país.

    E há um detalhe que quase ninguém sabe: não se anda pelo centro do caminho sob o torii. O meio é a passagem do kami.

    Diferenças entre santuário xintoísta e templo budista
    Torii e leões guardiões de um lado; portão de madeira, incenso e imagens do outro.

    Budismo: o que chegou

    O budismo entrou no Japão pela península coreana no século VI, e não entrou sozinho: veio junto com a escrita chinesa, a arquitetura, a medicina e a burocracia. Era um pacote de civilização, e o Estado o adotou por razões que eram tanto espirituais quanto políticas.

    Houve conflito no começo — clãs a favor e contra — mas ele foi resolvido de um jeito muito japonês: não se escolheu.

    Como reconhecer um templo

    • Portão de madeira monumental (sanmon), às vezes com estátuas de guardiões musculosos e furiosos.
    • Incenso queimando num caldeirão. Costuma-se puxar a fumaça com a mão para a parte do corpo que se quer curar.
    • Imagens — Budas e bodisatvas, em madeira ou bronze. O xintoísmo tradicionalmente não representa seus kami em imagem.
    • Cemitério ao lado. Santuário xintoísta não tem: morte é impureza.
    • Pagode de vários andares, quando é grande.
    • Nomes terminados em -ji (寺), -dera ou -in.

    Como se reza: não se bate palma. Junta-se as mãos em silêncio e inclina-se a cabeça. Bater palma em templo budista é o erro de estrangeiro mais frequente do Japão religioso.

    Mil e quatrocentos anos de convivência

    A síntese tem nome: shinbutsu-shūgō (神仏習合), “fusão de kami e Budas”. Durante a maior parte da história japonesa as duas religiões estavam fisicamente misturadas — templos budistas dentro de santuários, monges cuidando de kami, e a teoria teológica de que os kami japoneses eram manifestações locais de Budas.

    Isso durou até 1868, quando o governo Meiji decretou a separação — o shinbutsu bunri — para construir um xintoísmo de Estado ligado à figura do imperador. Foi uma cirurgia violenta: templos foram demolidos, imagens destruídas, monges obrigados a escolher.

    O xintoísmo de Estado durou até 1945 e foi desmontado na ocupação. O que sobrou é o arranjo atual: duas instituições separadas e um único público que frequenta as duas sem ver problema.

    As duas religiões passaram mais de mil anos misturadas e cento e cinquenta separadas por decreto. A convivência é a norma histórica; a separação é a exceção recente — e mesmo assim ela nunca chegou à cabeça das pessoas.

    Sobre por que ninguém no Japão precisa escolher

    A divisão de trabalho

    Momento da vida Onde se resolve
    Nascimento, apresentação do bebê santuário xintoísta
    Shichi-go-san, aos 3, 5 e 7 anos santuário xintoísta
    Maioridade, aos 20 santuário xintoísta
    Casamento capela de estilo ocidental — ou santuário xintoísta
    Ano-Novo, primeira visita santuário (ou templo)
    Purificação de carro novo, obra, empresa santuário xintoísta
    Anos de azar, yakudoshi santuário xintoísta
    Funeral e aniversário de morte templo budista
    Obon, o retorno dos mortos templo budista e casa
    Altar dos ancestrais em casa budista (butsudan)

    O padrão é limpo: o xintoísmo cuida da vida, o budismo cuida da morte. Faz sentido dado que impureza xintoísta inclui a morte — o santuário simplesmente não é o lugar para isso.

    Muitas casas japonesas têm os dois altares: o kamidana, prateleira alta com oferendas aos kami, e o butsudan, armário com as tábuas com os nomes dos mortos da família. Convivem no mesmo cômodo.

    “O Japão é ateu”?

    Aparece muito, e é uma leitura errada de um dado real.

    Em pesquisa, a maioria dos japoneses declara não ter religião. E a mesma maioria vai ao santuário no Ano-Novo, compra amuleto, faz funeral budista, visita o túmulo da família no Obon e leva o carro novo para ser purificado.

    A explicação está na palavra. Shūkyō (宗教), “religião”, é um termo criado no século XIX para traduzir o conceito ocidental, e carrega a ideia de fé exclusiva, doutrina e conversão. É isso que o japonês nega ter — corretamente. O que ele faz é outra categoria: costume, pertencimento, rito.

    Perguntar a um japonês “qual é a sua religião” é mais ou menos como perguntar a um brasileiro qual é a religião dele por causa do “Deus te abençoe” que ele diz sem pensar.

    A divisão de funções entre xintoísmo e budismo ao longo da vida
    Nascimento, casamento e prosperidade de um lado; morte e ancestrais do outro.

    No Brasil

    Ambas atravessaram com a imigração e continuam funcionando.

    Existem templos budistas japoneses em várias cidades brasileiras, de escolas diferentes, e eles fazem o que fariam no Japão: funeral, aniversário de morte, Obon. Há também santuários xintoístas, bem mais raros.

    E há um detalhe interessante: parte considerável da comunidade nikkei brasileira é católica, resultado de gerações no Brasil — mantendo, ao mesmo tempo, o altar dos ancestrais em casa e a visita ao túmulo no Obon. O arranjo japonês de somar em vez de escolher atravessou o oceano e se adaptou a um terceiro elemento.

    A história dessa comunidade está em a imigração japonesa no Brasil, e a festa dos mortos em obon. Para o que se compra e se faz dentro do santuário, omamori e omikuji; para o ritual anual mais frequentado, oshōgatsu; e para o convívio de que tudo isso faz parte, etiqueta japonesa.

  • Matsuri: o que é um festival japonês de verdade

    Matsuri: o que é um festival japonês de verdade

    Todo mundo já viu imagens: lanternas de papel, barracas de comida, gente de yukata, uma estrutura dourada balançando sobre os ombros de dezenas de pessoas que gritam em uníssono.

    O que quase nenhuma legenda explica é o que está acontecendo ali. E o que está acontecendo é: um deus saiu do santuário para dar uma volta pelo bairro.

    O que é um matsuri

    Matsuri (祭り) vem do verbo matsuru, que significa consagrar, prestar culto a uma divindade. Não é “festa” — é rito, e a festa se formou em volta dele.

    A estrutura básica é a mesma em todo o país:

    1. O kami é convidado a sair. A divindade do santuário local é transferida ritualmente para uma liteira portátil.
    2. A liteira percorre o bairro. Carregada nos ombros, ela passa pelas ruas que estão sob a proteção daquele santuário.
    3. O kami volta. A divindade retorna ao santuário e o rito se encerra.

    Tudo o mais — barracas, música, dança, bebida — é o que cresceu ao redor. Importante e real, mas periférico.

    O mikoshi

    A liteira chama-se mikoshi (神輿), literalmente “veículo do deus”. É um santuário em miniatura, pesado, geralmente dourado e laqueado, com um telhado e às vezes uma fênix no alto.

    Três coisas valem saber:

    Ela é sacudida de propósito. Balançar e sacolejar o mikoshi não é falta de coordenação — acredita-se que a agitação fortalece o kami e espalha sua energia pelo bairro. Quanto mais violento o balanço, melhor.

    Carregar é privilégio e é pesado. Um mikoshi grande passa facilmente de uma tonelada e exige dezenas de pessoas em revezamento. O direito de carregar pertence ao bairro, e a organização é feita pela associação de moradores.

    O grito tem função. “Wasshoi!”, “Soiya!”, “Essa!” — variam por região e servem para sincronizar o passo de gente que não consegue ver os pés.

    Há também os dashi (山車), carros alegóricos com rodas, altos, decorados, às vezes com músicos em cima. Onde o mikoshi é carregado, o dashi é puxado.

    A estrutura de um festival japonês
    O deus sai, percorre o bairro e volta. O resto cresceu em volta disso.

    As barracas

    Os yatai são a parte que todo turista lembra, e o cardápio é bastante fixo em todo o país:

    • Takoyaki — bolinhos de massa com polvo, virados com um palito na chapa de meias-esferas.
    • Yakisoba — macarrão frito na chapa grande, o cheiro que se sente de longe.
    • Okonomiyaki — a panqueca salgada, com molho e katsuobushi por cima.
    • Ikayaki — lula inteira grelhada no espeto.
    • Kakigōri — raspadinha de gelo com xarope colorido.
    • Ringo-ame — maçã do amor, igual à nossa.
    • Choco-banana — banana no palito coberta de chocolate.

    E as brincadeiras: kingyo-sukui, pescar peixinho dourado com uma pá de papel que se rompe (a pá se rompe de propósito), tiro ao alvo com rolha e yo-yo tsuri, pescar balõezinhos d’água num tanque.

    O calendário

    Há milhares de matsuri por ano no Japão — praticamente todo santuário tem o seu. Alguns são conhecidos no país inteiro:

    Festival Onde Quando O que tem de particular
    Gion Matsuri Quioto julho, o mês inteiro os yamahoko, carros enormes de várias toneladas
    Tenjin Matsuri Osaka fim de julho procissão de barcos e fogos sobre o rio
    Kanda Matsuri Tóquio maio, anos ímpares dezenas de mikoshi de bairro ao mesmo tempo
    Nebuta Matsuri Aomori começo de agosto bonecos gigantes iluminados por dentro
    Awa Odori Tokushima agosto, no Obon dança coletiva de rua com dezenas de milhares
    Sapporo Yuki Matsuri Sapporo fevereiro esculturas de neve; é moderno, não religioso

    Repare na concentração em julho e agosto. Não é acaso: o verão é a estação dos matsuri porque historicamente era quando se pedia proteção contra doença e praga — o Gion Matsuri nasceu no século IX exatamente como rito contra uma epidemia — e porque a colheita ainda não tinha chegado.

    O maior festival de Quioto começou como pedido de proteção contra uma peste. Mil e cem anos depois ele continua acontecendo todo julho, com os mesmos carros e o mesmo percurso, e quase ninguém que assiste lembra do motivo.

    Sobre o que sobrevive quando a razão original é esquecida

    Como se comportar

    Matsuri é a situação japonesa menos formal que existe, e isso surpreende quem chega esperando rigidez.

    • Pode comer andando. É a exceção à regra: no recinto do festival isso é normal.
    • Pode fazer barulho. É literalmente o objetivo.
    • Yukata é bem-vindo, inclusive em estrangeiro. Ninguém acha apropriação; acham simpático.
    • Não atrapalhe o mikoshi. Ele vem rápido, pesa toneladas e não desvia. Saia da frente.
    • Não toque no mikoshi sem ser convidado — mas convites acontecem, e aceitar é uma ótima ideia.
    • Leve dinheiro em espécie. Barraca de matsuri raramente aceita cartão.
    • Leve o lixo. A regra volta a valer assim que você sai do recinto.
    Onde acontecem os maiores festivais japoneses
    Onde e quando acontecem os maiores — com a concentração no verão bem visível.

    O matsuri que existe no Brasil

    A comunidade nikkei brasileira trouxe a estrutura junto, e ela funciona aqui há décadas.

    O Bon Odori acontece em dezenas de cidades brasileiras entre julho e setembro, organizado por associações de bairro exatamente como no Japão — com dança em roda em volta de uma torre, tambor no alto e comida em barracas. É um matsuri de Obon, e o que está por trás dele está em obon e os mortos.

    E há o Festival do Japão, em São Paulo, que é outra coisa — grande, em pavilhão, organizado por província de origem. Não é um matsuri de santuário; é uma feira cultural que nasceu no Brasil e não tem equivalente exato no Japão.

    Vale a distinção porque as duas coisas costumam ser confundidas: uma é rito transplantado, a outra é criação nipo-brasileira.

    Se você for a um no Japão

    1. Chegue cedo. Os grandes lotam de um jeito que só se entende estando lá.
    2. Confira a data com antecedência. Muitos são em fim de semana fixo, outros em data fixa — e alguns, como o Kanda, só em anos alternados.
    3. Espere calor. Julho e agosto no Japão são úmidos e pesados. Leve água.
    4. Procure o pequeno. O matsuri de bairro, sem turista, é onde a coisa é mais real — e onde alguém provavelmente vai puxar conversa com você.

    Para entender o santuário de onde o mikoshi sai, xintoísmo e budismo. Para o que se compra lá dentro, omamori e omikuji. E para o resto do protocolo de convívio, etiqueta japonesa.