Ano-Novo japonês: o oshōgatsu do dia 1º

Ano-Novo japonês: o oshōgatsu do dia 1º

Se você só puder conhecer uma data do calendário japonês, que seja esta. O oshōgatsu (お正月) é para o Japão o que o Natal é para o Brasil: a festa que para o país, junta a família e tem regra para tudo.

E é uma festa de 1º de janeiro — o que confunde muita gente que espera o Ano-Novo lunar.

Por que janeiro e não fevereiro

Até 1872 o Japão usava um calendário lunissolar e comemorava junto com a China. Em 1873, dentro das reformas da era Meiji, o país adotou o calendário gregoriano de uma vez — e mudou o Ano-Novo para o dia 1º.

Com ele mudou também o animal do zodíaco, que passou a virar na meia-noite de 31 de dezembro em vez de na lua nova. É por isso que uma mesma pessoa nascida em janeiro pode ter dois signos legítimos, assunto de etō, o zodíaco japonês.

Algumas regiões e Okinawa mantêm celebrações na data lunar, mas o Japão continental está fora dela há mais de cento e cinquenta anos.

Antes da virada

Ōsōji, a grande limpeza

Limpa-se a casa inteira no fim de dezembro — não faxina de rotina, mas a limpeza anual, com armário revirado e janela lavada. A ideia é não levar a sujeira do ano velho para o novo, e empresas e escolas fazem o mesmo.

Nengajō, os cartões

Cartões de Ano-Novo postados em dezembro para serem entregues todos no dia 1º. O correio japonês faz um esforço logístico enorme para isso, e o cartão traz quase sempre o animal do ano que começa.

Detalhe que quase ninguém sabe: família enlutada no ano não envia nem recebe nengajō. Manda-se, em novembro, um aviso pedindo que não enviem — o mochū hagaki. É um costume delicado e levado a sério.

Decoração

  • Kadomatsu (門松) — arranjo de pinheiro e bambu na entrada, para receber a divindade do ano.
  • Shimekazari — corda trançada de palha com papel, que marca o espaço purificado.
  • Kagami mochi (鏡餅) — dois bolinhos de arroz empilhados com uma laranja em cima, no altar da casa. Quebra-se e come-se dias depois.
A sequência do Ano-Novo japonês, do fim de dezembro aos primeiros dias de janeiro
Limpeza, cartões, macarrão da véspera, 108 badaladas e a primeira visita ao santuário.

A véspera

Toshikoshi soba — o “macarrão de atravessar o ano”, comido na noite de 31. O soba é longo e fino, e se corta com facilidade: as duas leituras convivem, vida longa e rompimento com o ano velho.

Joya no kane (除夜の鐘) — os templos budistas badalam o sino 108 vezes à meia-noite. O número corresponde aos desejos mundanos que, na tradição budista, atormentam o ser humano; cada badalada afasta um. É transmitido pela televisão, e em muitos templos qualquer pessoa pode bater uma.

E há o Kōhaku, o programa musical que divide os artistas em time vermelho e time branco e vai ao ar todo 31 de dezembro há décadas. Não é ritual, mas é hábito nacional: boa parte do país está com ele ligado enquanto o soba cozinha.

Os primeiros dias

Osechi ryōri

A comida do Ano-Novo vem em caixas laqueadas empilhadas, e cada item tem um significado — quase sempre por trocadilho:

  • Kuromame, feijão preto doce — mame também significa “saudável, diligente”.
  • Kazunoko, ova de arenque — muitos ovos, muitos descendentes.
  • Tazukuri, sardinhas secas — eram usadas como adubo no arroz; pedido de boa colheita.
  • Kōhaku kamaboko, pasta de peixe vermelha e branca — as cores de festa.
  • Ebi, camarão — de costas curvadas, como um velho: vida longa.
  • Konbu, alga — de yorokobu, alegrar-se.

A razão prática por trás de tudo isso: o osechi é preparado antes e conserva, temperado com bastante açúcar, sal e vinagre. Assim ninguém precisa cozinhar nos três primeiros dias do ano — inclusive porque tradicionalmente não se acendia o fogo, e porque a dona da casa também merecia descanso.

Ozōni é a sopa com mochi que acompanha, e ela muda radicalmente de região: caldo claro e mochi grelhado quadrado no leste, caldo de missô branco e mochi redondo no oeste. Perguntar a um japonês como é o ozōni da casa dele é uma boa maneira de descobrir de onde a família vem.

Quase todo item do osechi é um trocadilho comestível. A comida do Ano-Novo japonês é literalmente um jogo de palavras servido em caixa laqueada — e é o mesmo mecanismo que faz o 4 dar azar e o 42 ser o ano perigoso.

Sobre a superstição japonesa ser, em boa parte, fonética

Hatsumōde

A primeira visita do ano ao santuário ou templo, feita nos primeiros dias de janeiro. É o evento de maior participação do calendário japonês: os grandes santuários recebem milhões de pessoas em três dias, com fila que dobra o quarteirão.

Aproveita-se para comprar o omamori do ano novo e devolver o do ano velho, e para tirar o omikuji, o papel da sorte — assunto de omamori e omikuji.

Otoshidama

Envelopes com dinheiro dados às crianças da família por pais, avós, tios e padrinhos. É a razão de uma criança japonesa esperar o Ano-Novo com a mesma ansiedade com que uma brasileira espera o Natal — e o valor somado costuma ser considerável.

Os primeiros de tudo

O japonês nomeia a primeira ocorrência de qualquer coisa no ano, e a lista é longa: hatsuhinode é o primeiro nascer do sol, que muita gente vai assistir na praia ou na montanha; hatsuyume é o primeiro sonho; kakizome, a primeira caligrafia, feita com pincel e explicada em caligrafia japonesa; hatsuuri, a primeira venda, quando as lojas põem à venda as fukubukuro, sacolas-surpresa lacradas.

Os itens do osechi ryori e o que cada um significa
Cada item da caixa é um pedido — quase sempre construído por trocadilho.

Quanto tempo dura

Oficialmente, o feriado nacional é 1º de janeiro. Na prática o país para de 29 ou 30 de dezembro até 3 de janeiro: comércio fechado, empresas paradas, transporte lotado com quem volta para a cidade natal.

Para quem viaja, isso é planejamento obrigatório. Muito restaurante e loja de bairro fecham por vários dias, e os grandes santuários ficam impraticáveis. Em compensação, é a única época em que se vê Tóquio quase vazia — e vale a pena.

E o Natal?

Existe, e é uma coisa completamente diferente: data romântica, de casal, mais parecida com o Dia dos Namorados brasileiro. Não é feriado, não é religiosa e não junta a família — a família se junta no Ano-Novo.

Há ainda o costume, criado por uma campanha publicitária dos anos 1970 e hoje enraizado, de comer frango frito de rede na noite de Natal, com encomenda feita semanas antes. É genuinamente japonês pelo uso, ainda que a origem seja comercial.

Para as outras grandes datas do calendário, matsuri e obon. E para o protocolo geral de convívio de que tudo isso faz parte, etiqueta japonesa.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *