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  • Etō: o zodíaco japonês não é igual ao chinês

    Etō: o zodíaco japonês não é igual ao chinês

    Se você tem família japonesa e foi conferir o próprio signo chinês num site brasileiro, é bem possível que tenha recebido uma resposta que a sua avó contestaria. Não porque o site errou a conta — mas porque o Japão usa outro sistema.

    Chama-se etō (干支), e as diferenças são três. Nenhuma é grande; todas mudam a resposta para muita gente.

    Diferença 1: o ano vira em 1º de janeiro

    Esta é a que mais importa.

    Até 1872 o Japão usava um calendário lunissolar do mesmo tipo do chinês, e o animal do ano mudava com a lua nova. Em 1873, dentro das reformas da era Meiji, o país adotou o calendário gregoriano — e o zodíaco foi junto. Desde então, o animal japonês do ano troca à meia-noite de 31 de dezembro.

    A consequência é uma zona de discordância de até sete semanas todo ano:

    Nascimento Etō japonês Signo chinês
    20/01/2024 Dragão 辰 Coelho 卯
    05/02/2024 Dragão 辰 Coelho 卯
    15/02/1985 Boi 丑 Rato 子
    10/02/1996 Rato 子 Porco 亥
    25/12/2023 Coelho 卯 Coelho 卯

    As duas respostas estão certas. Não é um erro a corrigir: são dois calendários, e a pergunta “qual é o meu signo” precisa ser completada com “por qual contagem”. Para a chinesa, veja signo chinês: qual é o seu; para a data exata de cada ano lunar, Ano-Novo chinês.

    Diferenças entre o zodíaco japonês e o chinês
    Data de virada, dois animais trocados e um uso cotidiano que a China não tem.

    Diferença 2: dois animais são outros

    亥 é javali, não porco. Em chinês o ramo corresponde ao porco doméstico; em japonês, ao inoshishi, o javali selvagem. A diferença muda o caráter atribuído por inteiro: o porco chinês é tranquilo, generoso e um pouco preguiçoso; o javali japonês é o animal que corre em linha reta e não desvia, imagem tão cristalizada que virou palavra de dicionário — chototsu mōshin (猪突猛進), avançar de cabeça baixa sem olhar para os lados.

    未 é ovelha, não cabra. O caractere cobre cabra, ovelha e carneiro, e cada país escolheu o seu. O Japão diz hitsuji, ovelha.

    Há ainda uma diferença de peso simbólico no Coelho 卯. No Japão, usagi está ligado à Lua: onde o Ocidente vê um rosto na lua cheia, o Japão vê um coelho socando mochi. É um dos motivos mais reproduzidos da arte popular japonesa, e aparece em tudo, de doces de outono a personagem de anime.

    Diferença 3: o etō é usado, não consultado

    Esta é a mais interessante e a menos óbvia.

    Na China o zodíaco é, entre outras coisas, um sistema de leitura de destino. No Japão o etō é sobretudo uma marcação de calendário — presente no cotidiano, mas raramente como previsão.

    • Nengajō (年賀状), os cartões de Ano-Novo. Bilhões deles circulam pelo correio japonês todo dezembro para serem entregues no dia 1º, e quase todos trazem o animal do ano que começa. É a aparição mais visível do etō na vida japonesa.
    • Amuletos e estatuetas vendidos nos santuários na virada, com o bicho do ano.
    • Nomeação de anos históricos. A Guerra Boshin (戊辰戦争) de 1868 leva no nome o ano sexagenário em que começou. O estádio de beisebol Kōshien (甲子園) foi assim batizado por ter sido concluído em 1924, ano kinoe-ne, o primeiro do ciclo de sessenta.
    • Direções e horas. Os doze ramos nomeavam as direções da bússola e as horas do dia — resíduo que sobrevive no ushimitsu-doki, “a hora do boi”, madrugada alta, que em toda história de fantasma japonesa é quando as coisas acontecem.
    • O nordeste demoníaco. A direção entre o Boi 丑 e o Tigre 寅 é o kimon (鬼門), a “porta do demônio”, por onde entram as más influências. E é daí que vem a aparência do oni japonês: chifres de boi e tanga de pele de tigre. O demônio japonês tem a cara da direção de onde vem.

    O detalhe do oni resume o etō inteiro: um sistema de contagem que não ficou no calendário: virou geografia, virou hora do dia e acabou virando a cara de um monstro. É difícil achar exemplo melhor de um esqueleto abstrato ganhando carne cultural.

    Sobre como um sistema de contagem vira folclore

    Hinoeuma: quando a superstição mudou a demografia

    O caso mais notável do etō japonês está acontecendo agora.

    2026 é o ano do Cavalo de Fogo — 丙午, hinoeuma. Ele aparece uma vez a cada sessenta anos, e no Japão carrega uma crença específica: a de que mulheres nascidas nesse ano teriam temperamento indomável e trariam infortúnio ao marido.

    A crença teve efeito mensurável. Em 1966, o hinoeuma anterior, a taxa de natalidade japonesa caiu de forma abrupta e voltou ao patamar normal no ano seguinte — um vale isolado num gráfico que, fora dele, desce suavemente por décadas. Casais adiaram ou anteciparam gravidezes para não ter uma filha naquele ano.

    É o exemplo mais citado no Japão de uma crença sobre o calendário produzindo um efeito estatístico visível. Ninguém precisa achar que o zodíaco funciona para que isso aconteça: basta que muita gente aja como se funcionasse.

    O ciclo de sessenta que produz o Cavalo de Fogo está explicado em os cinco elementos e o ciclo de sessenta.

    Onde o etō aparece na vida japonesa
    Cartão de Ano-Novo, amuleto, nome de estádio, direção da bússola e hora de fantasma.

    O nome, e o que ele revela

    干支 se lê etō ou kanshi, e significa “troncos e ramos”: 干 são os dez troncos celestes, 支 são os doze ramos terrestres. O nome japonês, portanto, não é “zodíaco” nem “signo” — é o nome do sistema de contagem completo, o de sessenta.

    Isso diz algo sobre como o Japão o entende. Falar em “os doze animais” é usar a parte popular de um sistema maior, e a palavra japonesa preservou o todo. Quando um japonês diz etō no dia a dia costuma querer dizer só o bicho do ano — mas a palavra continua carregando a estrutura inteira.

    Se você é nikkei e quer a resposta da família

    1. Nasceu de março a dezembro? As duas contagens dão o mesmo animal. Não há o que decidir.
    2. Nasceu em janeiro ou fevereiro? Você tem dois signos legítimos, e vale conhecer os dois.
    3. Qual usar? Se o contexto é a família japonesa, o Ano-Novo japonês ou um cartão, use o etō. Se é o Ano-Novo lunar, um bairro chinês ou um site chinês, use a contagem lunar.
    4. Se o animal for porco, na família japonesa ele será javali — e não é correção de tradução, é outro bicho.

    Para a lista completa dos doze com ideograma e leitura japonesa, os doze signos, um a um. Para a origem do sistema antes dos animais, de onde vieram os doze animais. E para o ano perigoso da contagem japonesa, que não é o mesmo da chinesa, o ano do seu próprio signo.

  • Ano-Novo japonês: o oshōgatsu do dia 1º

    Ano-Novo japonês: o oshōgatsu do dia 1º

    Se você só puder conhecer uma data do calendário japonês, que seja esta. O oshōgatsu (お正月) é para o Japão o que o Natal é para o Brasil: a festa que para o país, junta a família e tem regra para tudo.

    E é uma festa de 1º de janeiro — o que confunde muita gente que espera o Ano-Novo lunar.

    Por que janeiro e não fevereiro

    Até 1872 o Japão usava um calendário lunissolar e comemorava junto com a China. Em 1873, dentro das reformas da era Meiji, o país adotou o calendário gregoriano de uma vez — e mudou o Ano-Novo para o dia 1º.

    Com ele mudou também o animal do zodíaco, que passou a virar na meia-noite de 31 de dezembro em vez de na lua nova. É por isso que uma mesma pessoa nascida em janeiro pode ter dois signos legítimos, assunto de etō, o zodíaco japonês.

    Algumas regiões e Okinawa mantêm celebrações na data lunar, mas o Japão continental está fora dela há mais de cento e cinquenta anos.

    Antes da virada

    Ōsōji, a grande limpeza

    Limpa-se a casa inteira no fim de dezembro — não faxina de rotina, mas a limpeza anual, com armário revirado e janela lavada. A ideia é não levar a sujeira do ano velho para o novo, e empresas e escolas fazem o mesmo.

    Nengajō, os cartões

    Cartões de Ano-Novo postados em dezembro para serem entregues todos no dia 1º. O correio japonês faz um esforço logístico enorme para isso, e o cartão traz quase sempre o animal do ano que começa.

    Detalhe que quase ninguém sabe: família enlutada no ano não envia nem recebe nengajō. Manda-se, em novembro, um aviso pedindo que não enviem — o mochū hagaki. É um costume delicado e levado a sério.

    Decoração

    • Kadomatsu (門松) — arranjo de pinheiro e bambu na entrada, para receber a divindade do ano.
    • Shimekazari — corda trançada de palha com papel, que marca o espaço purificado.
    • Kagami mochi (鏡餅) — dois bolinhos de arroz empilhados com uma laranja em cima, no altar da casa. Quebra-se e come-se dias depois.
    A sequência do Ano-Novo japonês, do fim de dezembro aos primeiros dias de janeiro
    Limpeza, cartões, macarrão da véspera, 108 badaladas e a primeira visita ao santuário.

    A véspera

    Toshikoshi soba — o “macarrão de atravessar o ano”, comido na noite de 31. O soba é longo e fino, e se corta com facilidade: as duas leituras convivem, vida longa e rompimento com o ano velho.

    Joya no kane (除夜の鐘) — os templos budistas badalam o sino 108 vezes à meia-noite. O número corresponde aos desejos mundanos que, na tradição budista, atormentam o ser humano; cada badalada afasta um. É transmitido pela televisão, e em muitos templos qualquer pessoa pode bater uma.

    E há o Kōhaku, o programa musical que divide os artistas em time vermelho e time branco e vai ao ar todo 31 de dezembro há décadas. Não é ritual, mas é hábito nacional: boa parte do país está com ele ligado enquanto o soba cozinha.

    Os primeiros dias

    Osechi ryōri

    A comida do Ano-Novo vem em caixas laqueadas empilhadas, e cada item tem um significado — quase sempre por trocadilho:

    • Kuromame, feijão preto doce — mame também significa “saudável, diligente”.
    • Kazunoko, ova de arenque — muitos ovos, muitos descendentes.
    • Tazukuri, sardinhas secas — eram usadas como adubo no arroz; pedido de boa colheita.
    • Kōhaku kamaboko, pasta de peixe vermelha e branca — as cores de festa.
    • Ebi, camarão — de costas curvadas, como um velho: vida longa.
    • Konbu, alga — de yorokobu, alegrar-se.

    A razão prática por trás de tudo isso: o osechi é preparado antes e conserva, temperado com bastante açúcar, sal e vinagre. Assim ninguém precisa cozinhar nos três primeiros dias do ano — inclusive porque tradicionalmente não se acendia o fogo, e porque a dona da casa também merecia descanso.

    Ozōni é a sopa com mochi que acompanha, e ela muda radicalmente de região: caldo claro e mochi grelhado quadrado no leste, caldo de missô branco e mochi redondo no oeste. Perguntar a um japonês como é o ozōni da casa dele é uma boa maneira de descobrir de onde a família vem.

    Quase todo item do osechi é um trocadilho comestível. A comida do Ano-Novo japonês é literalmente um jogo de palavras servido em caixa laqueada — e é o mesmo mecanismo que faz o 4 dar azar e o 42 ser o ano perigoso.

    Sobre a superstição japonesa ser, em boa parte, fonética

    Hatsumōde

    A primeira visita do ano ao santuário ou templo, feita nos primeiros dias de janeiro. É o evento de maior participação do calendário japonês: os grandes santuários recebem milhões de pessoas em três dias, com fila que dobra o quarteirão.

    Aproveita-se para comprar o omamori do ano novo e devolver o do ano velho, e para tirar o omikuji, o papel da sorte — assunto de omamori e omikuji.

    Otoshidama

    Envelopes com dinheiro dados às crianças da família por pais, avós, tios e padrinhos. É a razão de uma criança japonesa esperar o Ano-Novo com a mesma ansiedade com que uma brasileira espera o Natal — e o valor somado costuma ser considerável.

    Os primeiros de tudo

    O japonês nomeia a primeira ocorrência de qualquer coisa no ano, e a lista é longa: hatsuhinode é o primeiro nascer do sol, que muita gente vai assistir na praia ou na montanha; hatsuyume é o primeiro sonho; kakizome, a primeira caligrafia, feita com pincel e explicada em caligrafia japonesa; hatsuuri, a primeira venda, quando as lojas põem à venda as fukubukuro, sacolas-surpresa lacradas.

    Os itens do osechi ryori e o que cada um significa
    Cada item da caixa é um pedido — quase sempre construído por trocadilho.

    Quanto tempo dura

    Oficialmente, o feriado nacional é 1º de janeiro. Na prática o país para de 29 ou 30 de dezembro até 3 de janeiro: comércio fechado, empresas paradas, transporte lotado com quem volta para a cidade natal.

    Para quem viaja, isso é planejamento obrigatório. Muito restaurante e loja de bairro fecham por vários dias, e os grandes santuários ficam impraticáveis. Em compensação, é a única época em que se vê Tóquio quase vazia — e vale a pena.

    E o Natal?

    Existe, e é uma coisa completamente diferente: data romântica, de casal, mais parecida com o Dia dos Namorados brasileiro. Não é feriado, não é religiosa e não junta a família — a família se junta no Ano-Novo.

    Há ainda o costume, criado por uma campanha publicitária dos anos 1970 e hoje enraizado, de comer frango frito de rede na noite de Natal, com encomenda feita semanas antes. É genuinamente japonês pelo uso, ainda que a origem seja comercial.

    Para as outras grandes datas do calendário, matsuri e obon. E para o protocolo geral de convívio de que tudo isso faz parte, etiqueta japonesa.