Em 1990 o Japão mudou a lei de imigração e criou um visto de residência para descendentes de japoneses até a terceira geração. A economia japonesa estava no auge da bolha e faltava mão de obra industrial. O Brasil, no mesmo ano, vivia hiperinflação e acabava de ter as cadernetas de poupança confiscadas.
O resultado foi que a migração inverteu a direção. Netos e bisnetos dos que tinham vindo no Kasato Maru e nos navios seguintes começaram a embarcar de volta — não como japoneses voltando para casa, mas como trabalhadores estrangeiros num país que os via como estrangeiros.
A palavra
Dekasegi (出稼ぎ) é uma palavra japonesa antiga e sem nenhuma relação original com o Brasil. Ela descreve quem sai de casa para trabalhar fora por temporada e volta: o agricultor do norte do Japão que passava o inverno trabalhando em Tóquio, por exemplo.
No Brasil, a palavra grudou no fenômeno e virou substantivo próprio, com grafia aportuguesada — dekassegui. O detalhe interessante é que a palavra pressupõe a volta, e boa parte dessa história é sobre pessoas que planejaram voltar em dois anos e ficaram vinte.
Os números
| Ano | Brasileiros no Japão | O que estava acontecendo |
|---|---|---|
| Anos 1980 | cerca de 85 mil ao longo da década | Fluxo ainda informal, antes da lei |
| 1990 | — | Revisão da lei de imigração japonesa |
| 2000 | cerca de 250 mil | A população quintuplica em dez anos |
| 2007 | 313.770 | Pico histórico |
| 2014 | 177.953 | Queda após a crise de 2008 e o terremoto de 2011 |
| 2023 | 211.840 | Recuperação parcial e estabilização |
Para dimensionar: em 2023 viviam no Brasil cerca de 46,9 mil cidadãos japoneses. Ou seja, há hoje mais de quatro brasileiros no Japão para cada japonês no Brasil. A rota que se abriu em 1908 opera, há mais de trinta anos, majoritariamente no sentido inverso.

O que a lei de 1990 dizia — e o que ela não dizia
A revisão criou o visto de teijūsha, residente de longa duração, para nissei e sansei e seus cônjuges. É um visto sem restrição de atividade: quem o tem pode trabalhar em qualquer coisa.
O que a lei não fez foi tratar essas pessoas como retornados. Não houve programa de língua, não houve integração, não houve reconhecimento de diploma. O Japão importou trabalhadores e, por preferir laço de sangue a política de imigração aberta, escolheu os descendentes — mas montou o arranjo como solução de mão de obra temporária.
A ironia é que a lógica das gerações que a comunidade brasileira usa desde sempre, descrita em issei, nissei, sansei, virou de repente um critério jurídico com efeito prático imediato: ser sansei dava visto, ser yonsei não dava.
Onde eles foram parar
Não em Tóquio. A concentração é industrial, em cidades médias do cinturão manufatureiro:
- Hamamatsu e o restante de Shizuoka — a maior concentração; indústria automotiva e de instrumentos musicais
- Aichi — Toyota e cadeia de autopeças
- Gunma, sobretudo Ōizumi — a cidade com maior proporção de brasileiros do Japão, com comércio, igreja e escola em português
- Mie, Gifu, Shiga — eletrônicos e autopeças
O trabalho é o que a indústria japonesa chama de 3K: kitsui, kitanai, kiken — pesado, sujo, perigoso. Linha de montagem, turno noturno, contrato via empreiteira (haken) e não com a fábrica diretamente. Salário bem acima do brasileiro, estabilidade bem abaixo do japonês.
O que ninguém tinha previsto: as crianças
Esta é a parte mais séria da história e a que menos aparece.
Famílias que planejavam ficar dois anos levaram os filhos. Os dois anos viraram dez. As crianças cresceram num país onde a escolarização obrigatória não se aplica a estrangeiros — o Japão garante vaga a quem pede, mas não obriga a matrícula de quem não é cidadão.
Formaram-se três trajetórias:
- Escola japonesa. Integração maior, mas com dificuldade de língua no começo e, com frequência, perda do português.
- Escola brasileira no Japão. Currículo brasileiro, aulas em português, mensalidade cara. Preserva a opção de voltar, mas isola do país onde a criança vive.
- Nenhuma das duas. O grupo que preocupa. Adolescentes fora da escola, sem japonês suficiente para o mercado japonês e sem português suficiente para o brasileiro.
Os filhos que voltaram ao Brasil na adolescência enfrentaram o espelho do problema: chegavam a uma escola brasileira sem domínio do português escrito, tendo estudado matemática em japonês.
Sobre a geração que cresceu entre os dois sistemas
Há hoje uma geração inteira de brasileiros nascidos ou criados no Japão que não se encaixa confortavelmente em nenhuma das duas nacionalidades — e que produziu sua própria cultura, com música, gíria e referências próprias.
A crise de 2008 e o que veio depois
Quando a crise financeira global chegou à indústria japonesa, os contratos via empreiteira foram os primeiros a cair. Milhares de brasileiros ficaram desempregados em poucos meses.
Em 2009, o governo japonês ofereceu um auxílio de retorno: passagem paga para quem quisesse voltar ao Brasil. A condição inicial incluía a renúncia ao direito de reentrada com o mesmo visto — cláusula que gerou forte reação e foi depois flexibilizada. Cerca de vinte mil pessoas aceitaram.
O terremoto e o acidente nuclear de 2011 provocaram outra saída, menor e mais rápida. Depois disso o número se estabilizou, e o perfil mudou: menos gente indo pela primeira vez, mais gente que já está lá há décadas, com filhos japoneses e casa financiada.

O efeito do lado de cá
Cidades pequenas do interior de São Paulo e do Paraná perderam uma faixa etária inteira. Em algumas colônias, como se nota em as colônias japonesas do Paraná, restaram os avós e os netos, com a geração do meio no Japão.
Houve também efeito econômico direto: as remessas sustentaram famílias, pagaram casas e financiaram pequenos negócios. E houve efeito cultural de volta — parte do que hoje se come e se ouve nas comunidades nikkeis brasileiras chegou pela mala de quem voltou de Hamamatsu, e não pelos navios de 1930.
Como está em 2026
O fenômeno não acabou; virou permanência. Quem foi nos anos 1990 hoje tem trinta anos de Japão, filhos com escolaridade japonesa e, em muitos casos, residência permanente. Uma parte já se naturalizou.
O que mudou de verdade é o motivo: quase ninguém vai mais “ganhar dinheiro e voltar em dois anos”. Vai-se para ficar, ou não se vai. A palavra dekassegui, que significa sair para trabalhar e voltar, descreve cada vez menos a realidade que nomeia.
Para entender a comunidade que ficou no Brasil e o que ela preservou apesar dessa saída, o começo é a história da imigração japonesa no Brasil — e, se você quiser um fio concreto para puxar na sua própria família, o sobrenome é o mais curto: nossa ferramenta de sobrenome japonês em kanji mostra os ideogramas e a leitura original.















