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  • Como ler mangá: a ordem das páginas e o resto

    Como ler mangá: a ordem das páginas e o resto

    Quem abre um mangá pela primeira vez costuma tropeçar duas vezes: a capa parece estar no fim do volume, e dentro da página os balões não fazem sentido na ordem em que o olho procura.

    Não é caprichoso. É a direção de leitura do japonês, e uma vez entendida ela vira automática em uma tarde.

    A regra, em uma frase

    Da direita para a esquerda, de cima para baixo. Vale para os volumes, para as páginas dentro do volume, para os quadros dentro da página e para os balões dentro do quadro.

    1. O volume começa pelo que, num livro ocidental, seria a contracapa.
    2. Na página dupla, você lê a página da direita primeiro.
    3. Dentro da página, o primeiro quadro é o do canto superior direito.
    4. Dentro do quadro, o primeiro balão é o mais à direita e mais acima.
    5. O último quadro é o do canto inferior esquerdo — e é ele que costuma carregar o gancho.
    Ordem de leitura dos quadros numa página de mangá
    Superior direito para inferior esquerdo — o oposto exato do quadrinho ocidental.

    Por que não se inverte a imagem

    Nos anos 1990 e 2000, boa parte do mangá publicado no Ocidente era espelhado — a arte inteira invertida horizontalmente para caber na leitura da esquerda para a direita. Hoje isso praticamente acabou, e por bons motivos.

    • Personagem canhoto virava destro. Detalhe que às vezes era trama.
    • Texto dentro da arte ficava ao contrário. Placa, jornal, camiseta, tudo espelhado.
    • Cicatriz e marca trocavam de lado. Em obra longa, isso gera inconsistência visível.
    • A composição quebrava. O autor desenha o movimento na direção da leitura; espelhar inverte a dinâmica de toda cena de ação.
    • Os autores passaram a exigir. A partir dos anos 2000, contratos de licenciamento começaram a proibir a inversão.

    O leitor ocidental se adaptou. Foi mais fácil do que a indústria supunha.

    O que mais é diferente

    O quadro não tem regra fixa de moldura

    Mangá usa quadro sem borda, quadro sangrando na margem e quadro invadindo outro com muito mais liberdade que o quadrinho americano. Um quadro sem moldura costuma significar lembrança, sonho ou pensamento — é convenção, não descuido.

    O balão diz o tom pela forma

    Forma do balão O que significa
    Contorno liso Fala normal
    Contorno tracejado ou fino Sussurro, fala fraca
    Contorno pontiagudo, explodido Grito
    Balão de nuvem, com bolhas Pensamento
    Sem balão, texto solto na arte Comentário do narrador ou do próprio autor
    Balão retangular Voz de rádio, telefone, alto-falante

    A trama de meio-tom

    Mangá é impresso em preto e branco, e a “cor” vem de folhas adesivas de retícula — o screentone. Elas dão o cinza, o degradê, o padrão de fundo, o brilho no cabelo. Aplicar e recortar tudo isso à mão era, até a digitalização, uma das tarefas mais demoradas do estúdio — e é por isso que existem assistentes, como se conta em como se faz um mangá.

    As linhas de fundo

    • Linhas de velocidade retas — movimento rápido.
    • Linhas radiais, convergindo num ponto — impacto, choque, revelação.
    • Fundo escuro com textura — tensão, ameaça.
    • Fundo florido — atração romântica. É convenção de shōjo tão firme que virou piada em outras categorias.
    • Fundo branco vazio — foco absoluto na fala ou na expressão.

    O fundo do quadro em mangá quase nunca é cenário. É emoção desenhada — e o leitor japonês lê isso tão rápido quanto lê o texto.

    Sobre por que a página parece “vazia” para quem não conhece a convenção

    O que está desenhado e não é balão

    Uma parte importante do som em mangá não está em balão nenhum: está desenhada na arte, em kana, integrada à composição. São as onomatopeias, e elas são um mundo à parte — inclusive porque o japonês tem palavras para o som do silêncio e para a textura de um olhar.

    Como elas são desenhadas à mão e não digitadas, traduzi-las significa apagar e redesenhar arte. É o assunto de onomatopeias do mangá, e uma das decisões mais visíveis de qualquer edição brasileira.

    O furigana, e por que ele existe

    Nos kanji difíceis aparecem letrinhas em kana acima ou ao lado — o furigana. Ele serve para o leitor jovem saber a leitura de um ideograma que ainda não aprendeu, e por isso é obrigatório em revista shōnen e shōjo.

    Mas ele também é ferramenta narrativa: o autor pode escrever um kanji e colocar acima uma leitura diferente, dizendo duas coisas ao mesmo tempo. Em edição brasileira isso simplesmente não cabe, como se explica em trocadilhos intraduzíveis.

    Os elementos visuais de uma página de mangá e o que cada um significa
    Balão, moldura, retícula, linhas de fundo e onomatopeia — cinco camadas de informação simultâneas.

    A escrita como informação visual

    Uma página de mangá usa três sistemas de escrita ao mesmo tempo, e a escolha entre eles é significado, não acaso.

    • Kanji — os ideogramas. Carregam sentido além do som, e por isso um nome escrito em kanji já diz algo sobre o personagem.
    • Hiragana — o silabário curvo. Gramática, partículas, e fala de criança ou de personagem que ainda não domina a escrita.
    • Katakana — o silabário anguloso. Estrangeirismo, onomatopeia, nome de robô ou de criatura, e ênfase — o equivalente japonês do itálico.

    Quando um autor escreve o nome de um personagem em katakana em vez de kanji, isso é decisão de caracterização: marca alguém de fora do sistema japonês normal. O mecanismo inteiro está em nome de personagem de anime em japonês, e some por completo quando o nome é transliterado para o alfabeto latino, onde tudo vira a mesma coisa.

    Há ainda um uso que só a página impressa permite: escrever uma palavra em kanji e imprimir acima dela, em kana, uma leitura diferente. O leitor recebe as duas ao mesmo tempo. Nenhuma edição em alfabeto consegue reproduzir isso.

    Formatos e vocabulário editorial

    • Tankōbon (単行本) — o volume encadernado, com 8 a 12 capítulos. É o formato que chega ao Brasil.
    • Capítulo — a unidade publicada na revista, cerca de 19 páginas no semanal.
    • Revista de antologia — o calhamaço barato em papel reciclado onde os capítulos saem primeiro, com dezenas de séries misturadas.
    • Colorido de abertura — as primeiras páginas em cor, prêmio para série bem colocada na pesquisa de leitores.
    • Omake (おまけ) — o extra no fim do volume: rascunhos, piada do autor, tira bônus.
    • One-shot — história fechada, frequentemente o teste antes de virar série.

    Cinco dicas para quem está começando

    1. Não force a ordem. Leia dois volumes e o olho se reeduca sozinho. Tentar racionalizar quadro a quadro atrapalha.
    2. Se perdeu o fio, volte ao canto superior direito. Noventa por cento das confusões são isso.
    3. Olhe o último quadro da página ímpar. É onde mora o gancho, e o autor o desenhou sabendo que você vai virar a folha.
    4. Repare no fundo. Ele está dizendo o que a personagem sente, e a legenda não vai contar.
    5. Confira se a edição é espelhada. Edições antigas ainda circulam. Se a arte tem texto invertido, é espelhada.

    Depois disso, o que costuma mais interessar é o que está por trás da página: prazo, assistentes, pesquisa de leitor e cancelamento — tudo em como se faz um mangá. E se a sua entrada foi pelo anime e não pelo papel, vale entender por que as duas versões divergem, em filler e final original.

  • Por que um kanji tem várias leituras

    Pegue o ideograma . Ele se lê sei, shou, i, u, o, ha, ki, nama, na, mu, fu — e isso sem contar as leituras que só aparecem em nomes próprios. É o campeão, mas não é caso isolado: a maioria dos kanji tem pelo menos duas leituras, e várias têm cinco ou seis.

    Isso soa como um defeito de projeto. Não é. É o registro fóssil de mil e quinhentos anos de importação de vocabulário, e uma vez entendida a lógica, a coisa fica bem menos assustadora do que parece.

    Como o problema começou

    O japonês já era uma língua falada, completa e antiga, quando a escrita chinesa chegou pela península coreana, por volta do século V. E as duas línguas não têm parentesco nenhum — a gramática é diferente, os sons são diferentes, a estrutura da palavra é diferente.

    Diante de um ideograma chinês que significava “água” e se pronunciava algo como shui, o escriba japonês tinha duas saídas. Podia guardar a pronúncia chinesa, adaptada ao que a boca japonesa dava conta. Ou podia dizer: isto significa água, e água em japonês é mizu, então leio mizu.

    Ele fez as duas coisas. E aí está a origem de tudo.

    A origem das duas famílias de leitura dos ideogramas japoneses
    Uma leitura veio da China com o desenho; a outra já existia em japonês antes dele.

    On’yomi e kun’yomi

    On’yomi 音読み Kun’yomi 訓読み
    Literalmente “leitura de som” “leitura de sentido”
    Vem de Pronúncia chinesa adaptada Palavra japonesa que já existia
    Aparece em Compostos de dois ou mais kanji Kanji sozinho, ou com hiragana grudado
    Forma Curta, uma ou duas sílabas Costuma ser mais longa
    sui mizu
    san yama
    jin, nin hito

    A analogia que funciona bem em português: pense em água e hidro-. São a mesma coisa, mas uma é a palavra do dia a dia e a outra só aparece grudada em composto erudito — hidrelétrica, hidratação, hidrografia. Ninguém diz “vou beber um copo de hidro”. O kun’yomi é a água; o on’yomi é o hidro.

    E a comparação vale mais fundo do que parece, porque a origem é a mesma nos dois casos: uma língua de prestígio emprestando vocabulário técnico a outra. O que o grego e o latim fizeram com o português, o chinês fez com o japonês — só que em muito maior escala.

    Por que existem várias leituras on

    Porque o vocabulário chinês não chegou de uma vez. Chegou em ondas separadas por séculos, vindo de regiões diferentes da China, em momentos em que a própria pronúncia chinesa havia mudado. Cada onda trouxe sua camada, e as camadas anteriores não foram apagadas.

    1. Go-on (呉音) — a mais antiga, entrada pela península coreana. Sobrevive sobretudo no vocabulário budista.
    2. Kan-on (漢音) — trazida por estudantes enviados à China da dinastia Tang, nos séculos VII a IX. Virou o padrão do vocabulário erudito e é a mais comum hoje.
    3. Tō-on (唐音) — bem mais tarde, dos séculos XII em diante, ligada ao zen e ao comércio. Poucas palavras.

    O ideograma 行 é o exemplo clássico: gyō em go-on, em kan-on, an em tō-on. Todas as três continuam em uso, em palavras diferentes, e nenhuma delas é mais correta que as outras.

    Nenhuma das leituras foi escolhida. Todas foram acumuladas. O kanji japonês é uma língua com o histórico de versões visível na superfície — e a lentidão em aprendê-lo é o preço de nunca ter havido uma reforma que jogasse fora o que veio antes.

    Sobre por que ninguém simplificou isso

    Como se sabe qual usar

    Existe uma regra prática que resolve a grande maioria dos casos:

    • Kanji grudado em outro kanji → provavelmente on’yomi. 水曜日 suiyōbi (quarta-feira), 火山 kazan (vulcão).
    • Kanji sozinho, ou seguido de hiragana → provavelmente kun’yomi. 水 mizu, 食べる taberu (comer).

    O hiragana que aparece grudado tem nome — okurigana — e faz um trabalho preciso: mostra a terminação flexionada e, de quebra, desfaz ambiguidade. 生きる é ikiru (viver) e 生まれる é umareru (nascer). O ideograma é o mesmo; o hiragana diz qual leitura vale.

    A regra falha em alguns casos, e os japoneses convivem com isso normalmente:

    • Jūbako-yomi (重箱読み) — composto que mistura on na frente e kun atrás.
    • Yutō-yomi (湯桶読み) — o inverso, kun na frente e on atrás.
    • Rendaku (連濁) — a consoante inicial da segunda palavra sonoriza no composto: hito + hito vira hitobito, não hitohito.
    Pistas para identificar qual leitura de um kanji usar
    Composto puxa on; kanji solto ou com hiragana puxa kun — com as exceções de sempre.

    Os nomes próprios, que é onde tudo desaba

    Aqui está a parte que interessa diretamente a quem chegou por causa de nomes.

    Nomes de pessoa usam leituras que não valem em mais lugar nenhum. Elas têm até nome próprio: nanori (名乗り), “leituras de nomear”. O ideograma 和, que se lê wa ou kazu no vocabulário comum, aparece em nomes como nogi, yori, tomo, hitoshi.

    A consequência prática é dura: ver um nome japonês escrito não garante saber lê-lo. Não é ignorância de estrangeiro — japonês também não sabe. Por isso todo formulário oficial no Japão tem um campo extra, o furigana, onde a pessoa escreve como o próprio nome se pronuncia. Sem ele, o cartório não teria como cadastrar ninguém.

    É exatamente essa a razão de nossa base de sobrenomes japoneses guardar a leitura junto com o ideograma, em vez de tentar deduzi-la. Deduzir não funciona nem para quem nasceu lá.

    Quantos kanji, e quantas leituras cada um

    A lista oficial de uso corrente, o jōyō kanji, tem 2.136 ideogramas. É o que se ensina na escola e o que jornal e livro podem usar sem furigana. Um dicionário grande passa de cinquenta mil, mas isso é o mesmo que dizer que o português tem meio milhão de palavras.

    Quanto às leituras, a distribuição é mais amigável do que a fama sugere:

    • Boa parte tem uma on e uma kun, e pronto.
    • Um grupo grande tem duas ou três ao todo.
    • Uma minoria pequena e famosa — 生, 行, 上, 下 — tem mais de dez.
    • Alguns têm só on, por serem conceitos importados sem palavra japonesa correspondente.
    • E há os kokuji (国字), inventados no Japão e portanto sem leitura chinesa nenhuma. 峠 (tōge, passo de montanha) e 働 (hatara-ku, trabalhar) são os mais conhecidos.

    O que fazer com isso na prática

    1. Não decore leituras soltas. Aprenda palavras inteiras. A leitura vem junto, em contexto, e fica.
    2. Aprenda a on’yomi primeiro nos compostos. É a que mais se repete e a que mais rende vocabulário novo.
    3. Trate o okurigana como parte da palavra. Ele não é enfeite: é a informação que diz qual leitura vale.
    4. Aceite que nome é caso à parte. Não é falha sua não conseguir ler um sobrenome. Ninguém consegue com segurança.
    5. Desconfie de tradutor automático com ideograma solto. Sem contexto ele chuta a leitura mais frequente, e em nome próprio isso erra quase sempre.

    Esse último ponto vale muito para quem pensa em tatuar: o mesmo ideograma com leitura diferente pode mudar bastante de sentido, e a verificação recomendada está em tatuagem em japonês. Se o interesse for escrever um nome estrangeiro com ideogramas escolhidos pelo som, o texto é ateji. Para o quadro geral das três escritas, seu nome em japonês; e para os dois silabários que não têm esse problema, katakana e hiragana.