Tag: kunyomi

  • Por que um kanji tem várias leituras

    Pegue o ideograma . Ele se lê sei, shou, i, u, o, ha, ki, nama, na, mu, fu — e isso sem contar as leituras que só aparecem em nomes próprios. É o campeão, mas não é caso isolado: a maioria dos kanji tem pelo menos duas leituras, e várias têm cinco ou seis.

    Isso soa como um defeito de projeto. Não é. É o registro fóssil de mil e quinhentos anos de importação de vocabulário, e uma vez entendida a lógica, a coisa fica bem menos assustadora do que parece.

    Como o problema começou

    O japonês já era uma língua falada, completa e antiga, quando a escrita chinesa chegou pela península coreana, por volta do século V. E as duas línguas não têm parentesco nenhum — a gramática é diferente, os sons são diferentes, a estrutura da palavra é diferente.

    Diante de um ideograma chinês que significava “água” e se pronunciava algo como shui, o escriba japonês tinha duas saídas. Podia guardar a pronúncia chinesa, adaptada ao que a boca japonesa dava conta. Ou podia dizer: isto significa água, e água em japonês é mizu, então leio mizu.

    Ele fez as duas coisas. E aí está a origem de tudo.

    A origem das duas famílias de leitura dos ideogramas japoneses
    Uma leitura veio da China com o desenho; a outra já existia em japonês antes dele.

    On’yomi e kun’yomi

    On’yomi 音読み Kun’yomi 訓読み
    Literalmente “leitura de som” “leitura de sentido”
    Vem de Pronúncia chinesa adaptada Palavra japonesa que já existia
    Aparece em Compostos de dois ou mais kanji Kanji sozinho, ou com hiragana grudado
    Forma Curta, uma ou duas sílabas Costuma ser mais longa
    sui mizu
    san yama
    jin, nin hito

    A analogia que funciona bem em português: pense em água e hidro-. São a mesma coisa, mas uma é a palavra do dia a dia e a outra só aparece grudada em composto erudito — hidrelétrica, hidratação, hidrografia. Ninguém diz “vou beber um copo de hidro”. O kun’yomi é a água; o on’yomi é o hidro.

    E a comparação vale mais fundo do que parece, porque a origem é a mesma nos dois casos: uma língua de prestígio emprestando vocabulário técnico a outra. O que o grego e o latim fizeram com o português, o chinês fez com o japonês — só que em muito maior escala.

    Por que existem várias leituras on

    Porque o vocabulário chinês não chegou de uma vez. Chegou em ondas separadas por séculos, vindo de regiões diferentes da China, em momentos em que a própria pronúncia chinesa havia mudado. Cada onda trouxe sua camada, e as camadas anteriores não foram apagadas.

    1. Go-on (呉音) — a mais antiga, entrada pela península coreana. Sobrevive sobretudo no vocabulário budista.
    2. Kan-on (漢音) — trazida por estudantes enviados à China da dinastia Tang, nos séculos VII a IX. Virou o padrão do vocabulário erudito e é a mais comum hoje.
    3. Tō-on (唐音) — bem mais tarde, dos séculos XII em diante, ligada ao zen e ao comércio. Poucas palavras.

    O ideograma 行 é o exemplo clássico: gyō em go-on, em kan-on, an em tō-on. Todas as três continuam em uso, em palavras diferentes, e nenhuma delas é mais correta que as outras.

    Nenhuma das leituras foi escolhida. Todas foram acumuladas. O kanji japonês é uma língua com o histórico de versões visível na superfície — e a lentidão em aprendê-lo é o preço de nunca ter havido uma reforma que jogasse fora o que veio antes.

    Sobre por que ninguém simplificou isso

    Como se sabe qual usar

    Existe uma regra prática que resolve a grande maioria dos casos:

    • Kanji grudado em outro kanji → provavelmente on’yomi. 水曜日 suiyōbi (quarta-feira), 火山 kazan (vulcão).
    • Kanji sozinho, ou seguido de hiragana → provavelmente kun’yomi. 水 mizu, 食べる taberu (comer).

    O hiragana que aparece grudado tem nome — okurigana — e faz um trabalho preciso: mostra a terminação flexionada e, de quebra, desfaz ambiguidade. 生きる é ikiru (viver) e 生まれる é umareru (nascer). O ideograma é o mesmo; o hiragana diz qual leitura vale.

    A regra falha em alguns casos, e os japoneses convivem com isso normalmente:

    • Jūbako-yomi (重箱読み) — composto que mistura on na frente e kun atrás.
    • Yutō-yomi (湯桶読み) — o inverso, kun na frente e on atrás.
    • Rendaku (連濁) — a consoante inicial da segunda palavra sonoriza no composto: hito + hito vira hitobito, não hitohito.
    Pistas para identificar qual leitura de um kanji usar
    Composto puxa on; kanji solto ou com hiragana puxa kun — com as exceções de sempre.

    Os nomes próprios, que é onde tudo desaba

    Aqui está a parte que interessa diretamente a quem chegou por causa de nomes.

    Nomes de pessoa usam leituras que não valem em mais lugar nenhum. Elas têm até nome próprio: nanori (名乗り), “leituras de nomear”. O ideograma 和, que se lê wa ou kazu no vocabulário comum, aparece em nomes como nogi, yori, tomo, hitoshi.

    A consequência prática é dura: ver um nome japonês escrito não garante saber lê-lo. Não é ignorância de estrangeiro — japonês também não sabe. Por isso todo formulário oficial no Japão tem um campo extra, o furigana, onde a pessoa escreve como o próprio nome se pronuncia. Sem ele, o cartório não teria como cadastrar ninguém.

    É exatamente essa a razão de nossa base de sobrenomes japoneses guardar a leitura junto com o ideograma, em vez de tentar deduzi-la. Deduzir não funciona nem para quem nasceu lá.

    Quantos kanji, e quantas leituras cada um

    A lista oficial de uso corrente, o jōyō kanji, tem 2.136 ideogramas. É o que se ensina na escola e o que jornal e livro podem usar sem furigana. Um dicionário grande passa de cinquenta mil, mas isso é o mesmo que dizer que o português tem meio milhão de palavras.

    Quanto às leituras, a distribuição é mais amigável do que a fama sugere:

    • Boa parte tem uma on e uma kun, e pronto.
    • Um grupo grande tem duas ou três ao todo.
    • Uma minoria pequena e famosa — 生, 行, 上, 下 — tem mais de dez.
    • Alguns têm só on, por serem conceitos importados sem palavra japonesa correspondente.
    • E há os kokuji (国字), inventados no Japão e portanto sem leitura chinesa nenhuma. 峠 (tōge, passo de montanha) e 働 (hatara-ku, trabalhar) são os mais conhecidos.

    O que fazer com isso na prática

    1. Não decore leituras soltas. Aprenda palavras inteiras. A leitura vem junto, em contexto, e fica.
    2. Aprenda a on’yomi primeiro nos compostos. É a que mais se repete e a que mais rende vocabulário novo.
    3. Trate o okurigana como parte da palavra. Ele não é enfeite: é a informação que diz qual leitura vale.
    4. Aceite que nome é caso à parte. Não é falha sua não conseguir ler um sobrenome. Ninguém consegue com segurança.
    5. Desconfie de tradutor automático com ideograma solto. Sem contexto ele chuta a leitura mais frequente, e em nome próprio isso erra quase sempre.

    Esse último ponto vale muito para quem pensa em tatuar: o mesmo ideograma com leitura diferente pode mudar bastante de sentido, e a verificação recomendada está em tatuagem em japonês. Se o interesse for escrever um nome estrangeiro com ideogramas escolhidos pelo som, o texto é ateji. Para o quadro geral das três escritas, seu nome em japonês; e para os dois silabários que não têm esse problema, katakana e hiragana.