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  • Do português brasileiro para o katakana: as regras

    Quase todas as tabelas de “português para katakana” que circulam na internet são tradução de tabelas em inglês ou espanhol. Dá para perceber sem muito esforço: elas mandam escrever João como ジョアオ e Thiago como ティアゴ, e nenhuma das duas coisas corresponde ao que sai da boca de um brasileiro.

    Esta aqui parte do outro lado. Primeiro o som do português brasileiro, depois o katakana que chega mais perto dele.

    O princípio, antes das regras

    A transcrição não parte da escrita. Parte da pronúncia.

    Parece óbvio e é justamente o que quase todo conversor faz errado. O h de “Thiago” não corresponde a som nenhum e não deve virar nada. O s de “José” soa z e não s. O e final de “Guilherme” soa i. Quem transcreve letra por letra produz um resultado que, lido por um japonês, não é reconhecível como o nome de ninguém.

    E há um segundo princípio, que resolve as discussões: o objetivo não é registrar o nome, é fazer com que um japonês lendo aquilo produza um som que você reconheça. Toda vez que as duas coisas entram em conflito, a segunda ganha.

    As etapas da conversão de um nome brasileiro para katakana
    Sílabas e tônica, depois sons brasileiros, e só então katakana.

    As vogais

    Som Katakana Exemplo
    a, á, â Ana → アナ
    e, é, ê tônico Renata → レナタ
    e final átono (soa i) Felipe → フェリピ
    i, í Ivan → イヴァン
    o, ó, ô Otávio → オタヴィオ
    u, ú Bruno → ブルーノ

    A linha do e final é a primeira que separa o Brasil de Portugal. O brasileiro diz “Felipi”, “Guilhermi”, “Vicenchi”. Escrever フェリペ não é errado historicamente, mas devolve uma pronúncia portuguesa.

    O o final é o caso oposto, e é uma exceção deliberada. Na fala brasileira ele também se fecha e soa u: “Marcu”, “Pedru”. Mas a tradição de escrever nomes com オ é firme demais para contrariar — マルコ, ペドロ. Aqui a convenção ganha da fonética, e é honesto dizer que essa escolha é convenção.

    As nasais — o caso mais brasileiro de todos

    O japonês tem um só sinal para nasalidade no fim de sílaba: . Não distingue m de n nessa posição, e não tem vogal nasal.

    Terminação Katakana Exemplo
    -ão アン João → ジョアン
    -ãe アイン Guimarães → ギマライン
    -õe オイン Simões → シモイン
    -am, -an アン Adriane → アドリアニ
    -em, -en エン Bento → ベント
    -im, -in イン Vinicius → ヴィニシウス
    -om, -on オン Ronaldo → ホナウド
    -um, -un ウン Bruna → ブルーナ

    O -ão é a marca registrada do português e não existe em nenhuma das línguas de onde as tabelas foram copiadas. Ele é um ditongo nasal: começa em a nasal e fecha em u nasal. A aproximação アン perde o fecho, mas é a que produz o som mais reconhecível — um japonês lendo ジョアン diz algo que qualquer João atende.

    As consoantes que o japonês não tem

    O nh e o lh

    Duas consoantes palatais que o japonês resolve com as séries em -ya, -yu, -yo:

    • nh → série ニャ ニュ ニョ. Sonia → ソニャ, Cunha → クニャ, Junior → ジュニオル.
    • lh → série リャ リュ リョ. Guilherme → ギリェルミ, Carvalho → カルヴァリョ, Filho → フィリョ.

    Repare em “Cunha”: o n ali não é nasal de fim de sílaba. Ele forma dígrafo com o h. Um conversor que trate todo n como candidato a ン devolve クンニャ, que é um nome que não existe. Foi exatamente o primeiro defeito que apareceu quando montamos o nosso.

    O ti e o di

    A palatalização brasileira, e a diferença mais visível em relação ao português europeu:

    • ti, te final → チ. Thiago → チアゴ, Vicente → ヴィセンチ, Beatriz → ベアトリス (aqui não, porque o ti está antes de consoante).
    • di, de final → ジ. Diego → ジエゴ, Andrade → アンドラジ, Denise → ジニジ.

    Existe variação regional — parte do Nordeste e do Sul não palataliza, ou palataliza menos. A escolha por チ e ジ segue a pronúncia majoritária, que é também a do eixo Rio-São Paulo e a da mídia.

    O r inicial e o rr

    O caso que mais surpreende, e o mais defensável de todos.

    O português brasileiro tem dois erres diferentes. O de “caro” é uma batidinha de língua no céu da boca — igual ao r japonês da série ラリルレロ. O de “carro”, de “rato” e de “Rodrigo” é uma fricativa de garganta, produzida bem mais atrás, e nada parecido.

    A série japonesa que chega perto dessa segunda é ハヒフヘホ:

    • Rodrigo → ドリゴ
    • Ricardo → カルド
    • Rafael → ファエル
    • Ferreira → フェイラ
    • Renata → ナタ

    Muita gente estranha na primeira vez. Mas o teste é simples: peça a um japonês para ler ロドリゴ. Vai sair “Rodrigo” com o r de “caro”, que é o som que o brasileiro usa no meio da palavra, não no começo.

    A regra parece exótica porque a escrita nos treinou a ver uma letra só. Mas o brasileiro que diz “Rodrigo” e “Marina” está produzindo dois sons que não têm nada em comum além do símbolo. O japonês só tem símbolo para um deles.

    Sobre o que a ortografia esconde da gente

    O s, o j, o ch e o x

    • s entre vogais soa z → série ザジズゼゾ. José → ジョゼ, Rosa → ホーザ.
    • s inicial ou dobrado soa s → série サシスセソ. Larissa → ラリッサ.
    • j e g antes de e, i → ジ. Jorge → ジョルジ, Gilberto → ジウベルト.
    • ch → シュ. Chagas → シャガス.
    • x varia com a posição: em “Xavier” soa ch (シャヴィエル); em “Alexandre” soa ks (アレシャンドレ na fala corrente, アレクサンドレ na forma cuidada); em “exame” soa z.

    O l no fim de sílaba

    Na fala brasileira ele não é l: é uma semivogal u. “Brasil” soa “Brasiu”, “Raul” soa “Rauu”. Isso dá duas transcrições defensáveis:

    • Fonética: Ronaldo → ホナド, seguindo o som.
    • Ortográfica: Ronaldo → ホナド, seguindo a letra.

    A imprensa japonesa usa as duas, às vezes para o mesmo nome. Nossa ferramenta mostra a forma fonética como principal e a ortográfica como variante, porque a primeira reproduz melhor o som e a segunda é a que a pessoa costuma reconhecer.

    Consoante sem vogal: o que fazer

    O japonês só tem sílabas abertas, mais o ン solto. Toda consoante encalhada precisa de uma vogal de apoio, e a escolha dela é convenção firme:

    Consoante Vogal de apoio Exemplo
    t, d o Robert → ロベルト
    k, g, b, p, f, v, m, s, z u Marcos → マルコス
    ch, j i March → マーチ
    l, r u Gabriel → ガブリエル

    O t e o d pegam o em vez de u porque トゥ e ドゥ não existiam no japonês tradicional — ト e ド são a solução histórica, e ficou.

    Os dois lugares onde a regra sozinha não basta

    Nossa checagem em 72 nomes brasileiros deu 78% de acerto só com regra. Os 22% restantes não são um problema, são dois problemas diferentes:

    Resultado da checagem das regras em 72 nomes brasileiros
    Setenta e dois nomes conferidos à mão: o que saiu só de regra e o que precisou de dicionário.

    Vogal longa que a escrita portuguesa não registra. “Vitória” tem uma sílaba tônica longa e se escreve ヴィトーリア, com o traço de alongamento. “Vinícius”, que tem estrutura idêntica, não alonga: ヴィニシウス. Não há regra que preveja isso — o alongamento é lexical, decidido caso a caso pelo uso japonês. Aqui o dicionário completa a regra e ganha dela.

    Grafia consagrada pela imprensa. Nomes de gente famosa entraram no japonês por uma grafia específica, que às vezes contraria a regra. Quando isso acontece, a regra continua certa e a forma da imprensa aparece ao lado, identificada. Não faz sentido esconder nenhuma das duas.

    Como conferir o seu

    A ferramenta em nome em japonês aplica tudo isto e mostra as etapas: a divisão silábica, qual regra pegou em cada pedaço, o romaji de volta e a variante quando existe. Se o resultado surpreender, dá para ver exatamente onde a decisão foi tomada.

    Para entender por que o katakana é o silabário desta tarefa e não o hiragana, o texto é katakana e hiragana. Se o que você quer é o nome em ideogramas e não em kana, o caminho é ateji. E se o nome em questão for um sobrenome japonês de família nikkei, nada disto se aplica — vá direto para sobrenome nikkei. O panorama geral está em seu nome em japonês.

  • Katakana e hiragana: qual é a diferença e quando se usa cada um

    Katakana e hiragana: qual é a diferença e quando se usa cada um

    Os dois silabários japoneses escrevem exatamente os mesmos sons. Não há um som que o hiragana consiga registrar e o katakana não, nem o contrário. か e カ são o mesmo ka. の e ノ são o mesmo no.

    Então por que existem dois? Porque a escolha entre eles não é de pronúncia — é de função. O japonês usa a forma da letra para dizer coisas que o português precisa de itálico, aspas e maiúscula para dizer.

    A divisão básica

    Hiragana ひらがな Katakana カタカナ
    Traço Curvo, arredondado Reto, anguloso
    Origem Kanji escrito em cursiva Pedaço de um kanji
    Escreve Gramática e palavras japonesas Palavras vindas de fora
    Sensação Familiar, doméstico Moderno, técnico, importado

    O hiragana faz o trabalho pesado da língua: as terminações de verbo, as partículas que marcam sujeito e objeto, as palavras que não têm kanji ou cujo kanji é raro demais. Numa frase japonesa comum ele é a maior parte do texto.

    O katakana faz um trabalho mais estreito, mas muito visível — e é por causa dele que este site existe, já que todo nome estrangeiro se escreve em katakana.

    O que cada um dos dois silabários japoneses escreve
    Os mesmos sons em ambos; o que muda é o tipo de palavra que cada um recebe.

    Onde vai katakana

    1. Palavras estrangeiras. コーヒー (kōhī, café), パン (pan, pão — do português), テレビ (terebi, televisão).
    2. Nomes de pessoas e lugares de fora. ブラジル (Brasil), サンパウロ (São Paulo), マリア (Maria).
    3. Onomatopeia. ドキドキ (coração batendo), ザーザー (chuva forte). Assunto de onomatopeias do mangá.
    4. Nomes científicos de plantas e animais. Mesmo os nativos: ネコ para gato, em texto de biologia, ainda que o normal seja 猫 ou ねこ.
    5. Ênfase. Uma palavra japonesa escrita em katakana no meio da frase funciona como o nosso itálico.
    6. Marcas e produtos. Boa parte das empresas japonesas escreve o próprio nome em katakana por decisão de identidade visual.
    7. Telegramas e sistemas antigos. Registro que sobrevive em documento oficial e em máquina velha, onde às vezes só há katakana disponível.

    A parte que ninguém explica: os dois vieram do kanji

    Antes do século IX o japonês não tinha escrita própria. Escrevia-se em chinês, ou usava-se kanji pelo som, ignorando o sentido — o mesmo princípio do ateji, aplicado à língua inteira. Esse sistema chamava-se man’yōgana, e era um horror de aprender: dezenas de ideogramas complicados para um punhado de sons.

    Daí saíram os dois silabários, por caminhos diferentes:

    Hiragana nasceu de escrever esses kanji depressa. A cursiva foi simplificando o traço até sobrar um desenho fluido. 安 (an) virou あ. 以 (i) virou い. 加 (ka) virou か. Por ter sido usado sobretudo por mulheres da corte de Heian — que não recebiam a educação em chinês clássico dada aos homens —, ficou conhecido como onnade, “mão de mulher”. A maior obra da literatura japonesa clássica foi escrita nele.

    Katakana nasceu de outro problema. Monges budistas liam texto em chinês e precisavam anotar, nas margens apertadas, como se pronunciava e em que ordem ler. Não havia espaço para nada elaborado, então eles arrancavam um pedaço do kanji e usavam só ele. 加 perdeu tudo menos o lado esquerdo e virou カ. 多 virou タ. 千 virou チ. O nome diz isso: kata (片) é “parte”, “fragmento”.

    Um veio da pressa de escrever bonito, o outro da pressa de anotar na margem. Mil anos depois, um continua sendo a letra doméstica e o outro, a letra do que vem de fora — e a diferença de temperamento entre os traços ainda se sente.

    Sobre por que os dois silabários parecem tão diferentes

    Por que nome estrangeiro vai em katakana

    Não é regra de gramática nem lei. É convenção, e ela é firme.

    O katakana marca a palavra como vinda de fora, e essa marcação é informação útil na leitura corrida. O japonês não usa espaço entre palavras — a frase é um bloco contínuo. A alternância entre kanji, hiragana e katakana é o que faz o olho reconhecer onde uma palavra termina e a outra começa. Quando aparece um bloco de katakana no meio do texto, o leitor japonês já sabe, antes de ler: isto é nome próprio estrangeiro, ou palavra importada, ou som.

    É por isso que ver o próprio nome em katakana é a experiência que é: você está sendo lido como estrangeiro, visualmente, antes de a pessoa sequer chegar ao som. É também o que faz um sobrenome nikkei ser caso à parte — Watanabe, escrito em katakana, seria estranho, porque não é palavra estrangeira: é japonesa, e vai em kanji.

    Os pares de kana que mais se confundem
    Os pares que derrubam quem está começando — e a diferença mínima entre eles.

    Os que se parecem demais

    Aprender os dois silabários leva algumas semanas. O que atrapalha não é a quantidade — são 46 sinais básicos em cada — mas alguns pares que diferem por muito pouco:

    • シ e ツshi e tsu. A diferença é a direção dos traços curtos e a inclinação do longo. O de シ vem de baixo para cima; o de ツ, de cima para baixo.
    • ソ e ンso e n. Mesmo problema, mesma solução.
    • ク e タku e ta. O タ tem um traço a mais.
    • コ e ユko e yu. Abertura para lados opostos.
    • ね, れ, わ — em hiragana, três parentes próximos que se resolvem olhando o final do traço.
    • る e ろ — o laço no fim existe em um e não no outro.

    Todo curso recomenda começar pelo hiragana, e a recomendação faz sentido: ele aparece mais e é indispensável para ler qualquer coisa. Mas para quem vai ao Japão a passeio, o katakana rende mais rápido — cardápio, placa de estação, nome de produto e boa parte do que interessa a turista está em katakana, e muito disso é palavra que você já conhece em inglês.

    Os sinais extras que valem conhecer

    • Dakuten (゛) — duas aspinhas que sonorizam: カ ka vira ガ ga, サ sa vira ザ za, タ ta vira ダ da.
    • Handakuten (゜) — bolinha que transforma a série H em P: ハ ha vira パ pa.
    • O kana pequeno — ャ, ュ, ョ escritos em corpo menor grudam na sílaba anterior: キ + ャ = キャ kya. É como se escreve boa parte dos sons que o português tem e o japonês não tinha.
    • O ッ pequeno — dobra a consoante seguinte. ラリッサ é “Larissa” com o ss preservado.
    • O traço ー — alonga a vogal, e existe só em katakana. コーヒー tem duas vogais longas. Em hiragana o alongamento se escreve repetindo a vogal.

    Esse último merece atenção especial de quem tem sobrenome japonês: o alongamento é justamente o que se perdeu quando os nomes foram registrados no alfabeto português. “Ohara” e “Ōhara” viraram a mesma coisa no papel, e são nomes diferentes.

    Por onde começar

    1. Hiragana primeiro, cinco sinais por dia, escrevendo à mão. Escrever fixa muito mais do que reconhecer.
    2. Katakana depois, e mais rápido, porque a estrutura já é conhecida.
    3. Leia rótulo de produto japonês. É o exercício mais eficiente que existe: quase tudo é katakana e quase tudo é palavra estrangeira que você já sabe.
    4. Ordem dos traços desde o primeiro dia. Consertar depois é bem pior do que aprender certo — o motivo está em caligrafia japonesa.
    5. Só então o kanji. E aí o assunto passa a ser por que um kanji tem várias leituras.

    Para ver os dois sistemas funcionando com o seu próprio nome, o caminho curto é seu nome em japonês — e a ferramenta em nome em japonês mostra a divisão silábica sinal por sinal.

  • Seu nome em japonês: katakana, kanji e o que muda entre os dois

    É provavelmente a primeira pergunta que qualquer brasileiro faz sobre a língua japonesa: como se escreve o meu nome? E a resposta honesta é que existem duas, elas produzem resultados completamente diferentes, e a maior parte do que circula na internet mistura as duas sem avisar.

    Uma escreve como o seu nome soa. A outra inventa um significado que ele nunca teve. Saber qual das duas você quer resolve noventa por cento da confusão.

    As três escritas, em trinta segundos

    O japonês usa três sistemas ao mesmo tempo, na mesma frase, sem separação:

    • Hiragana (ひらがな) — silabário de traços curvos. Escreve a gramática japonesa e as palavras nativas.
    • Katakana (カタカナ) — silabário de traços retos. Escreve o que vem de fora: palavras estrangeiras, nomes estrangeiros, marcas, sons.
    • Kanji (漢字) — ideogramas importados da China. Cada um carrega sentido, não só som.

    Os dois primeiros são fonéticos: representam som, como o nosso alfabeto. O terceiro é semântico: representa ideia. A diferença entre as duas respostas à sua pergunta está exatamente aí. Se essa distinção ainda estiver embaçada, o lugar de resolvê-la é katakana e hiragana.

    As duas maneiras de escrever um nome estrangeiro em japonês
    Uma escreve o som; a outra escolhe um sentido. Servem para coisas diferentes.

    Resposta 1: katakana — o seu nome como ele soa

    Esta é a resposta correta no sentido prático da palavra. É o que um japonês escreveria no seu crachá, o que sai no seu visto, o que vai no formulário do hotel, o que a professora de japonês escreveria no quadro.

    O procedimento é o seguinte: pega-se a pronúncia do nome e reescreve-se essa pronúncia com as sílabas de que o japonês dispõe.

    Nome Katakana Lido de volta
    João ジョアン jo-a-n
    Thiago チアゴ chi-a-go
    Rodrigo ホドリゴ ho-do-ri-go
    Beatriz ベアトリス be-a-to-ri-su
    Larissa ラリッサ ra-ri-s-sa
    Guilherme ギリェルミ gi-rye-ru-mi

    Duas coisas saltam à vista nessa tabela, e ambas incomodam quem vê pela primeira vez.

    Primeira: Rodrigo começa com H. Não é erro. O r inicial do português brasileiro é uma fricativa de garganta — o mesmo som que abre “rato” e “carro”. A série japonesa ラリルレロ é uma vibrante de ponta de língua, o som do r de “caro”. Escrever ロドリゴ faria um japonês pronunciar algo próximo de “Caro-drigo”. A série ハヒフヘホ chega bem mais perto.

    Segunda: Thiago começa com CHI, não TI. O brasileiro palataliza: ti soa “tchi” e di soa “dji” em quase todo o país. チ é exatamente o som “tchi”. Escrever ティアゴ é transcrever o português europeu, onde a palatalização não acontece.

    Essa é a diferença que separa uma transcrição feita para o Brasil de uma copiada do inglês ou do espanhol. As regras completas, com o porquê fonético de cada uma, estão em do português brasileiro para o katakana.

    O katakana não escreve as letras do seu nome. Escreve a sua boca dizendo o seu nome. Por isso a grafia portuguesa some no caminho e por isso dois nomes escritos diferente podem cair no mesmo katakana.

    Sobre por que a transcrição parte do som e não da escrita

    Resposta 2: kanji — o nome com significado

    Esta é a que todo mundo quer de verdade, e é aqui que é preciso ter cuidado.

    Dá para escrever um nome estrangeiro com ideogramas escolhidos pelo som, ignorando o sentido de cada um. A prática existe, é antiga e tem nome próprio: ateji (当て字), literalmente “caracteres aplicados”. Foi assim que o japonês escreveu Brasil (伯剌西爾) e América (亜米利加) antes de o katakana assumir essa função.

    O que acontece na prática: cada sílaba do seu nome recebe um ideograma que se lê daquele jeito e que, de preferência, signifique alguma coisa agradável. Ana pode virar 亜奈, Marina pode virar 真里奈, Lucas pode virar 瑠久須.

    E aqui vem o aviso que quase nunca acompanha esse tipo de conteúdo: isso não é a tradução do seu nome. É um jogo de sons ao qual se pendura um sentido depois. Um japonês que lê 真里奈 não pensa “verdade-aldeia-Nara” — lê “Marina” e entende que é nome de mulher. O significado dos ideogramas é decorativo, e todo mundo sabe disso.

    O procedimento inteiro, com a tabela de ideogramas usados para cada sílaba e a lista do que dá errado quando se escolhe sem critério, está em ateji: seu nome em kanji.

    Comparação entre transcrição em katakana e ateji em kanji
    A escolha depende do uso: documento e convívio pedem katakana; kanji é para peça decorativa.

    Qual das duas você quer

    1. Vai a trabalho, a estudo ou a passeio ao Japão? Katakana. É o que a burocracia espera e o que as pessoas vão ler.
    2. Vai fazer um carimbo pessoal, o hanko? Katakana também. Estrangeiro residente no Japão registra carimbo em katakana sem problema nenhum.
    3. Quer tatuar? Leia tatuagem em japonês antes de qualquer outra coisa. As duas opções servem, e as duas têm armadilhas diferentes.
    4. Quer só a curiosidade, ou uma peça decorativa? Aí o ateji é mais bonito e mais interessante — desde que você saiba que é um jogo.
    5. Tem sobrenome japonês na família? Caso completamente diferente, e o mais malfeito de todos por aí. Vai para sobrenome nikkei.

    O caso brasileiro que os sites estrangeiros erram

    Vale insistir neste ponto porque ele é a razão de existir de boa parte do que publicamos aqui.

    O Brasil tem a maior população de origem japonesa fora do Japão. São cerca de dois milhões de pessoas, e uma parcela enorme delas carrega um sobrenome japonês escrito com o alfabeto português: Watanabe, Sato, Yamamoto, Higa, Oshiro, Nakamura.

    Se você jogar “Watanabe” em qualquer conversor de nomes da internet, vai receber ワタナビ. Está errado. O sobrenome é 渡辺 e se lê ワタナベ, com be, porque é uma palavra japonesa de verdade e não uma sequência de letras a ser adivinhada. “Sato” devolve サト, e o correto é 佐藤 サトウ, com a vogal longa que o alfabeto português nunca registrou.

    A regra de transcrição, aplicada a esses nomes, produz sistematicamente a resposta errada — e é justamente aí que ela é mais consultada, porque é o nikkei brasileiro quem mais procura. É por isso que nossa ferramenta de sobrenomes não usa regra nenhuma: ela reconhece o sobrenome e devolve o ideograma, a leitura e o significado.

    Erros que se repetem

    • Transcrever letra por letra. O h de “Thiago” não vira nada, o s de “José” não é a mesma coisa que o de “Sara”, e o x muda de som conforme a posição.
    • Usar a regra do espanhol. Aparece muito porque a maioria dos conversores é hispano-americana. Espanhol não palataliza ti nem nasaliza ão.
    • Achar que o kanji “traduz” o nome. Traduzir “Vitória” por 勝利 (shouri, vitória) resulta numa palavra japonesa que ninguém usa como nome, e que um japonês leria como substantivo comum.
    • Confiar em imagem de rede social. A maior parte das tabelas de “seu nome em japonês” que circulam é de “letra A = カ, letra B = ト” — pura invenção, e o resultado não se lê de jeito nenhum.
    • Esquecer que existe variação. Alguns nomes têm mais de uma transcrição defensável, e nomes de gente famosa costumam ter uma grafia consagrada pela imprensa japonesa que ganha da regra.

    O que a ferramenta do site faz

    Montamos a nossa própria porque nenhuma das existentes partia do português brasileiro. Ela funciona em três etapas, e mostra todas:

    1. Separa o nome em sílabas e acha a tônica, seguindo as regras de acentuação do português.
    2. Converte para sons brasileiros — palatalização, vogal final reduzida, l no fim de sílaba virando semivogal, nasais.
    3. Escreve esses sons em katakana, com a explicação de cada pedaço.

    Ela mostra a divisão silábica, o romaji de volta, a variante quando existe, e — se o nome estiver na base de sobrenomes nikkeis — o ideograma com o significado. Está em nome em japonês, e são pouco mais de trezentos nomes já prontos, além de aceitar qualquer nome digitado.

    Se o que você quer é entender por que o mesmo ideograma aparece com leituras diferentes em cada nome, o caminho é por que um kanji tem várias leituras. E se a intenção é escrever à mão, comece por caligrafia japonesa, onde a ordem dos traços é explicada antes de qualquer pincel.