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  • Como digitar em japonês no celular e no computador

    Como digitar em japonês no celular e no computador

    A pergunta aparece sempre com um tom de “deve ser complicadíssimo”: como é que se digita japonês, com mil e tantos ideogramas, num teclado normal?

    A resposta é mais simples do que parece. Você digita o som em letras latinas, e o sistema converte. O teclado é o mesmo. O que muda é um programa no meio do caminho — e a única parte que dá algum trabalho é sempre a mesma: escolher entre os ideogramas que soam igual.

    Como funciona

    O programa se chama IME, de Input Method Editor. Ele fica entre o teclado e o texto e faz três coisas em sequência:

    1. Você digita ni ho n em letras latinas.
    2. Ele converte na hora para hiragana: にほん.
    3. Você aperta espaço, e ele oferece as escritas possíveis: 日本, 二本, 日本 (como nome), にほん, ニホン.
    4. Você escolhe e confirma com Enter.

    Ou seja: o que você digita é a pronúncia, exatamente como um japonês faria. E a romanização aceita é a de Hepburn, que é a mesma que se vê em placa e legenda — o assunto de romaji.

    As etapas da conversão do teclado latino para o texto japonês
    Letras latinas viram kana automaticamente; o espaço abre a lista de ideogramas.

    Instalar no computador

    Windows

    1. Abra Configurações.
    2. Clique em Hora e idioma.
    3. Clique em Idioma e região.
    4. Clique no botão Adicionar um idioma.
    5. Digite japonês na busca, selecione 日本語 — Japonês e clique em Avançar.
    6. Clique em Instalar. Não é preciso marcar “Definir como idioma de exibição do Windows” — isso deixaria os menus do sistema em japonês.

    Depois de instalado, aparece um seletor de idioma perto do relógio. Alterna-se entre português e japonês com tecla Windows + barra de espaço.

    Mac

    1. Abra Ajustes do Sistema.
    2. Clique em Teclado.
    3. Em Entrada de texto, clique em Editar.
    4. Clique no botão + no canto inferior esquerdo.
    5. Escolha Japonês na lista da esquerda e marque Japonês — Romaji.
    6. Clique em Adicionar e depois em Concluído.

    A troca de teclado é com Control + barra de espaço.

    Linux

    A combinação mais comum é Fcitx5 com o motor Mozc, disponível no repositório de praticamente toda distribuição. Depois de instalar os dois pacotes, adiciona-se o japonês na configuração de métodos de entrada do ambiente gráfico.

    Instalar no celular

    Android

    1. Abra Configurações.
    2. Vá em Sistema, depois Idiomas e entrada.
    3. Toque em Teclado na tela e escolha o seu teclado.
    4. Toque em Idiomas e depois em Adicionar teclado.
    5. Busque japonês e escolha. Vale instalar as duas disposições: a de 12 teclas e a QWERTY.

    iPhone

    1. Abra Ajustes.
    2. Toque em Geral, depois Teclado.
    3. Toque em Teclados e em Adicionar Novo Teclado.
    4. Escolha Japonês. Selecione Romaji, Kana, ou as duas.

    Para alternar, toque no globo ao lado da barra de espaço.

    As duas disposições do celular

    No telefone existem dois jeitos bem diferentes de escrever japonês, e vale experimentar os dois.

    Romaji é o teclado QWERTY de sempre. Digita-se sakura e sai さくら. É o caminho natural para quem vem do português, e o que praticamente todo estrangeiro usa.

    Kana, a disposição de doze teclas, é o que a maioria dos japoneses usa. Cada tecla é uma linha do silabário — a tecla か cobre か, き, く, け, こ. Toca-se uma vez para か, duas para き, e assim por diante; ou arrasta-se o dedo na direção da vogal, que é mais rápido. Quem se acostuma escreve bem mais depressa do que em QWERTY, porque são menos toques por sílaba.

    O teclado de doze teclas parece um retrocesso até você perceber que ele foi desenhado para uma língua de sílabas abertas, onde cada toque corresponde a uma unidade real da fala. Ele não é o teclado antigo do celular: é um teclado silábico.

    Sobre por que os japoneses não migraram todos para QWERTY

    A parte que confunde: escolher o kanji

    Esta é a única dificuldade de verdade, e ela não some com a prática — só fica mais rápida.

    O japonês tem muitíssimos homófonos. Digite kouen e o IME vai oferecer 公園 (parque), 講演 (palestra), 後援 (patrocínio), 公演 (apresentação) e mais algumas. Todas se leem igual. Quem escolhe é você, e escolher errado produz uma frase que existe, que está escrita corretamente e que diz outra coisa.

    Três coisas ajudam:

    • Digite a palavra inteira, não sílaba por sílaba. O IME usa o contexto para ordenar a lista, e quanto mais texto você der, melhor ele acerta.
    • Leia a explicação lateral. Os IMEs modernos mostram uma nota curta ao lado de cada opção, dizendo o que aquele composto significa. Poucas pessoas reparam que ela está ali.
    • Confirme com Enter. Enquanto o texto está sublinhado, ainda é candidato e ainda pode mudar.

    É o mesmo problema descrito em por que um kanji tem várias leituras, visto do outro lado: lá o desafio é ler; aqui é escrever.

    Atalhos e comandos úteis do editor de método de entrada japonês
    Meia dúzia de teclas resolve quase tudo o que se precisa fazer no dia a dia.

    Os comandos que valem decorar

    O que fazer Como
    Converter para kanji Barra de espaço
    Ver mais opções Barra de espaço de novo, ou seta para baixo
    Confirmar Enter
    Forçar katakana F7 (Windows) — útil para nome estrangeiro
    Forçar hiragana F6 (Windows)
    Vogal longa ー Tecla do hífen
    っ pequeno Dobrar a consoante: kitte dá きって
    ん sozinho Digitar nn
    Kana pequeno solto Prefixo x ou l: xya dá ゃ

    O F7 é o mais útil para quem chegou aqui por causa de nomes: digite o nome em romaji, aperte F7 e ele vira katakana direto, sem passar pela lista de kanji.

    Alguns detalhes que pegam todo mundo

    • Pontuação diferente. O ponto japonês é 。e a vírgula é 、— e o IME os produz automaticamente nas teclas de ponto e vírgula. Usar “.” e “,” num texto japonês fica visivelmente estrangeiro.
    • Largura dupla. Existem duas versões de cada letra latina e número: a estreita e a de largura de ideograma (A, 1). Alterna-se com F9 e F10 no Windows. Em campo de formulário, escolher a errada às vezes dá erro de validação.
    • Espaço largo. No modo japonês, a barra de espaço produz um espaço de largura dupla. Em senha e em código, isso causa problema.
    • Não sei o kanji, sei o desenho. Todo IME tem um painel de escrita à mão: desenha-se o caractere com o mouse ou com o dedo e ele oferece os parecidos. Funciona melhor se a ordem dos traços estiver certa.
    • Dicionário de emoji e símbolo. Digitar kaomoji ou ya (seta) devolve símbolos. É como os japoneses inserem ★, →, ♪ e companhia.

    Se você só quer escrever o seu nome

    Instalar o IME para isso é trabalho demais. O caminho curto é usar a ferramenta de nome em japonês, que devolve o katakana pronto para copiar — e mostra a divisão silábica, para você saber o que está copiando.

    Se for para tatuagem, digitar você mesmo é bem melhor do que copiar imagem de busca: o caractere sai limpo, na fonte que você escolheu e em resolução que aguenta ampliação. As razões estão em tatuagem em japonês.

    Para entender o que é cada sistema de escrita antes de digitar, katakana e hiragana. E para o panorama de como um nome brasileiro chega ao japonês, seu nome em japonês.

  • Romaji: por que Tóquio, gueixa e xogum se escrevem assim

    Em inglês se escreve shogun, geisha, Tokyo. Em português escrevemos xogum, gueixa, Tóquio. Não é erro nosso nem preguiça de adaptar: é uma tradição de escrever japonês com letras latinas que começou em português, e que é três séculos mais velha que o sistema usado no mundo inteiro hoje.

    Vale conhecê-la, porque ela explica boa parte das grafias que parecem esquisitas quando comparadas com o inglês — e porque ela é a razão de o português ter, nessa história, uma posição que nenhuma outra língua ocidental tem.

    O que é romaji

    Rōmaji (ローマ字) quer dizer literalmente “letras romanas”: qualquer escrita do japonês com o nosso alfabeto. Não é um sistema, são vários, e a diferença entre eles é a pergunta que cada um tenta responder.

    Sistema Quando Parte de し / ち / つ / ふ
    Jesuíta séc. XVI–XVII Ortografia portuguesa xi, chi, tçu, fu
    Hepburn 1867 Som, para ouvido inglês shi, chi, tsu, fu
    Nihon-shiki 1885 Estrutura do kana si, ti, tu, hu
    Kunrei 1937 Estrutura, com ajustes si, ti, tu, hu

    A divisão de fundo é uma só: escrever o que se ouve ou escrever o que está no kana. Hepburn faz a primeira; Kunrei faz a segunda.

    Hepburn, que é o que você vê em toda parte

    James Curtis Hepburn era médico e missionário americano, e publicou em 1867 um dicionário japonês-inglês. A romanização que ele adotou usava consoantes lidas à inglesa e vogais lidas à italiana, e a combinação funcionou tão bem para o ouvido ocidental que virou o padrão de fato.

    É o que está em placa de estação, passaporte japonês, nome de empresa, legenda de anime e praticamente todo material didático vendido fora do Japão. Se você já viu japonês escrito com nosso alfabeto, quase certamente era Hepburn.

    A vantagem é a intuitividade. A desvantagem aparece ao estudar gramática: Hepburn quebra a regularidade do kana. A série た-ち-つ-て-と sai como ta-chi-tsu-te-to, com três consoantes onde o japonês enxerga uma só — e a conjugação dos verbos, regular no kana, parece cheia de exceções no papel.

    Kunrei, que é o que o Japão usa oficialmente

    É a resposta japonesa ao problema acima, oficializada por decreto em 1937 e revista nos anos 1950. O princípio: uma consoante por linha do kana. た-ち-つ-て-と vira ta-ti-tu-te-to, e a regularidade reaparece.

    Criança japonesa aprende Kunrei na escola e documento oficial o usa. Ainda assim, quase ninguém escreve em Kunrei fora da sala de aula: o adulto que digita romaji no celular usa a forma que aprendeu vendo, que é a de Hepburn.

    O Japão convive, portanto, com dois sistemas: o oficial e o real. Quem estuda esbarra nisso ao ver “Zyunko” num documento e “Junko” no crachá da mesma pessoa.

    Linha do tempo dos sistemas de romanização do japonês
    O sistema português veio primeiro; o de Hepburn virou padrão três séculos depois.

    O sistema português, que veio primeiro

    Aqui está a parte que os textos em inglês sobre romaji costumam despachar em uma linha.

    Missionários portugueses chegaram ao Japão em 1549, mais de três séculos antes de Hepburn. Para pregar, precisavam da língua; para ensinar a língua aos que vinham depois, precisavam escrevê-la. E escreveram-na com o alfabeto que tinham, seguindo as convenções da ortografia portuguesa da época.

    O resultado é um dos monumentos da linguística: o Vocabulario da Lingoa de Iapam, dicionário japonês-português impresso em Nagasaki em 1603 e 1604, com dezenas de milhares de entradas. Junto dele veio a Arte da Lingoa de Iapam, gramática do padre João Rodrigues — a primeira descrição sistemática da gramática japonesa feita por um estrangeiro.

    As escolhas de grafia eram naturais para um português:

    • x para o som de sh — porque em português o x tem esse som em “peixe”. Daí xogum.
    • qu antes de e, i — daí quimono, Quioto.
    • gu antes de e, i — daí gueixa.
    • ç e ce, ci para sibilantes.
    • f onde hoje se escreve h — porque o japonês do século XVI pronunciava aquela consoante mais perto de um f soprado. Os jesuítas escreviam Nifon, Firando. Não estavam errando: estavam anotando uma pronúncia que depois mudou.

    Esse último item é notável. A romanização jesuíta é hoje fonte primária para a história da língua japonesa, porque registrou distinções sonoras que o kana não marcava e que desapareceram da fala nos séculos seguintes. Linguistas japoneses estudam esses textos por isso.

    Um punhado de missionários anotando pronúncia com as letras que tinham acabou deixando o registro mais confiável de como o japonês soava antes de mudar. A ortografia portuguesa do século XVI virou instrumento de medição sem que ninguém planejasse.

    Sobre o que sobra de um contato que durou menos de cem anos

    O que ficou em português

    O contato foi interrompido no século XVII, quando o Japão fechou as fronteiras. Mas as palavras que atravessaram naquele período ainda estão no nosso dicionário, e é por isso que a grafia portuguesa de termos japoneses difere tanto da inglesa:

    Japonês Português Inglês
    将軍 shōgun xogum shogun
    芸者 geisha gueixa geisha
    着物 kimono quimono kimono
    東京 Tōkyō Tóquio Tokyo
    京都 Kyōto Quioto Kyoto
    刀 katana catana katana
    屏風 byōbu biombo
    柿 kaki caqui persimmon
    円 en iene yen

    Duas dessas merecem nota. Biombo é palavra portuguesa corrente que quase ninguém sabe ser japonesa — veio de 屏風, “parede de vento”. E caqui, a fruta, é simplesmente o nome japonês dela, que o português adotou e o inglês não.

    E o caminho inverso

    O empréstimo foi nos dois sentidos, e o japonês guardou uma coleção de palavras portuguesas que continuam em uso diário até hoje:

    • パン pan — pão. A palavra japonesa comum para pão é portuguesa.
    • てんぷら tempura — do português “têmporas”, os períodos de jejum em que se comia peixe frito.
    • カステラ kasutera — o pão de ló de Castela, ainda hoje a especialidade de Nagasaki.
    • タバコ tabako — tabaco.
    • ボタン botan — botão.
    • コップ koppu — copo.
    • カルタ karuta — carta de baralho, que virou nome de um jogo tradicional japonês.
    • シャボン shabon — sabão, hoje sobretudo em shabon-dama, bolha de sabão.
    • カッパ kappa — capa de chuva.

    Todas em katakana, como manda a regra para palavra estrangeira — assunto de katakana e hiragana. Quatrocentos anos depois, o japonês ainda marca visualmente que “pão” veio de fora.

    Palavras que passaram do português para o japonês e do japonês para o português
    O que ficou de cada lado depois de um contato interrompido no século XVII.

    O alongamento, que é onde tudo desanda

    O maior problema prático do romaji não é a escolha do sistema. É a vogal longa.

    O japonês distingue vogal curta de longa, e a distinção muda a palavra: 叔父 oji é tio, 王子 ōji é príncipe. Cada sistema resolve de um jeito, e todos os jeitos convivem:

    • Mácron: Tōkyō. Correto e o padrão acadêmico. Difícil de digitar.
    • Circunflexo: Tôkyô. Kunrei prefere este.
    • Vogal dobrada: Tookyoo. Exato e feio.
    • Nada: Tokyo. O que acontece na prática em 95% dos casos.

    A última opção é a que causa dano de verdade — e não como curiosidade acadêmica, mas na vida de gente concreta. Foi ela que apagou o alongamento dos sobrenomes nikkeis brasileiros. 佐藤 é Satō; o registro de imigração escreveu “Sato”, e a informação sumiu para sempre do documento. O mesmo aconteceu com Ōta, Kōno e uma lista longa. O assunto está em sobrenome nikkei.

    Qual usar

    1. Escrevendo para brasileiro? Hepburn, com ou sem mácron. É o que a pessoa vai reconhecer.
    2. Palavra já aportuguesada? Use a forma portuguesa. Escrever “shogun” e “kimono” em texto em português é anglicismo desnecessário — temos as palavras há quatrocentos anos.
    3. Estudando gramática? Vale conhecer Kunrei, porque ele mostra a regularidade que Hepburn esconde.
    4. Digitando japonês no computador? O IME aceita os dois, e você vai acabar usando Hepburn sem pensar. Como instalar está em como digitar em japonês.
    5. Transcrevendo um nome brasileiro? Aí não é romaji, é o caminho inverso, e as regras são as de português para katakana.

    Para o panorama geral de como um nome se escreve em japonês, seu nome em japonês. E se a dúvida for por que os ideogramas mudam de leitura conforme a palavra — o que atrapalha qualquer sistema de romanização —, por que um kanji tem várias leituras.

  • Caligrafia japonesa: o shodō e a ordem dos traços

    Caligrafia japonesa: o shodō e a ordem dos traços

    Toda criança japonesa aprende a ordem em que os traços de um ideograma devem ser feitos. Não é etiqueta, não é tradição por tradição, e não é implicância de professor.

    A ordem dos traços é o que faz o ideograma continuar legível quando escrito depressa — e é também o que separa uma pessoa escrevendo de uma pessoa desenhando o formato de um caractere que não conhece.

    Por que a ordem existe

    Um kanji comum tem entre oito e quinze traços. Escrito devagar, com cada risco no lugar, sai igual não importa a ordem. Escrito na velocidade de quem toma nota numa reunião, sai como um borrão — e é aí que a ordem passa a fazer todo o trabalho.

    Quando os traços seguem a sequência canônica, o borrão é o mesmo borrão para todo mundo. O leitor japonês reconhece a forma cursiva porque ela é o resultado previsível de uma sequência conhecida. Feita em outra ordem, a mesma pressa produz uma mancha que ninguém decifra.

    Não é exagero dizer que os dois silabários existem por causa disso: o hiragana nasceu exatamente de kanji escritos depressa, como se conta em katakana e hiragana. Sem uma ordem estável, a cursiva nunca teria virado um sistema.

    As regras gerais da ordem dos traços na escrita japonesa
    Sete regras cobrem quase todos os casos; o resto se aprende caractere a caractere.

    As regras gerais

    1. De cima para baixo. A regra mais forte.
    2. Da esquerda para a direita. A segunda mais forte.
    3. Horizontal antes de vertical quando os dois se cruzam. Em 十, a barra deitada vem primeiro.
    4. O contorno antes do conteúdo, e o fechamento por último. Em 国, faz-se a moldura aberta, o miolo, e só então a base.
    5. A vertical central antes das laterais quando ela atravessa o caractere. Em 小, a linha do meio abre.
    6. Diagonal da direita para a esquerda antes da outra. Em 人, primeiro a que desce à esquerda.
    7. Traços que atravessam tudo ficam por último. Em 車, a vertical longa fecha o caractere.

    Existem exceções, e os japoneses discutem algumas delas — 右 e 左, “direita” e “esquerda”, têm o mesmo desenho inicial e ordens diferentes, o que é uma pegadinha clássica de escola. Mas as sete regras acima resolvem a grande maioria dos casos.

    Os três estilos

    Caligrafia japonesa não é um estilo só. São três, e eles formam uma escala de velocidade.

    Estilo Japonês Como é Legibilidade
    Kaisho 楷書 Regular. Cada traço separado, começo e fim visíveis Total
    Gyōsho 行書 Semicursivo. Traços se ligam, formas arredondam Boa, com prática
    Sōsho 草書 Cursivo. O caractere vira um gesto contínuo Só para quem estudou

    A progressão não é de “certo” para “relaxado” — é de escrita para desenho de escrita. O sōsho é a forma mais valorizada artisticamente e a menos legível: japonês adulto que não estudou caligrafia frequentemente não consegue ler uma obra em cursivo, e isso é normal.

    Quem quer o ideograma numa tatuagem quase sempre quer kaisho, e é bom saber o nome para pedir. O que costuma sair de um computador é uma fonte tipográfica, que é outra coisa ainda — detalhe explicado em tatuagem em japonês.

    A ordem dos traços é a coreografia que sobrou depois que os traços sumiram. Quando a escrita acelera até virar gesto, o que resta legível não é o desenho — é a sequência.

    Sobre por que a cursiva ainda funciona como escrita

    O material

    São quatro peças, chamadas em conjunto de bunbō shihō (文房四宝), “os quatro tesouros do escritório”:

    • Fude (筆) — o pincel. Pelo animal, de espessuras variadas. A ponta é o instrumento: a pressão muda a largura do traço continuamente, e é isso que dá vida à linha.
    • Sumi (墨) — a tinta, em bastão sólido de fuligem e cola.
    • Suzuri (硯) — a pedra onde se mói o bastão com água. Moer leva minutos e é parte do exercício: a concentração começa aí.
    • Washi (和紙) — o papel japonês, absorvente. Ele perdoa pouco: o traço entra na fibra e não sai.

    Esse último ponto define a prática inteira. Não há correção. Não se retoca, não se apaga, não se engrossa um traço fino depois. A folha ou está pronta ou vai fora — e um praticante escreve o mesmo caractere dezenas de vezes até uma sair.

    Os quatro instrumentos tradicionais da caligrafia japonesa
    Pincel, tinta em bastão, pedra de moer e papel — e nenhuma borracha em lugar nenhum.

    O que se olha numa obra

    Para quem não lê japonês, uma peça de caligrafia é um desenho bonito. Para quem lê, há critérios, e eles são bem concretos:

    • O equilíbrio interno. As partes do caractere ocupam a proporção certa, e o branco entre elas é tão avaliado quanto o preto.
    • A variação de pressão. Traço de espessura uniforme denuncia mão insegura ou instrumento errado.
    • O início e o fim de cada traço. Há três terminações canônicas: tome (parada firme), hane (gancho) e harai (varrida que afina até sumir). Trocar uma pela outra muda o caractere.
    • O ritmo da coluna. Numa peça vertical, os caracteres precisam conversar entre si — tamanho, espaçamento e inclinação formam uma linha só.
    • A tinta. Muito seca arranha; muito diluída borra. O ponto certo é uma habilidade em si.

    Onde a caligrafia aparece na vida japonesa

    Ela não é peça de museu. Está no cotidiano:

    1. Kakizome (書き初め) — a primeira escrita do ano, feita nos primeiros dias de janeiro. Praticamente toda criança em idade escolar faz.
    2. Shūji (習字) — a aula de caligrafia, obrigatória no currículo do ensino fundamental.
    3. Placa e fachada. Restaurante tradicional, templo e loja antiga têm o nome em caligrafia, não em fonte.
    4. Ema (絵馬) — as tabuletas de madeira onde se escrevem pedidos nos santuários.
    5. Envelope e cartão. Casamento, funeral e Ano-Novo pedem escrita à mão, e a qualidade da letra é notada.
    6. Anúncio de era nova. Quando o Japão troca de era, o nome novo é apresentado ao país escrito em caligrafia, ao vivo — um dos momentos de maior audiência da televisão japonesa.

    Para quem quer começar

    Duas observações honestas antes de qualquer recomendação.

    Primeira: caligrafia sem saber ler é desenho. Não há mal nenhum em desenhar ideogramas por prazer, mas o exercício muda completamente quando você sabe o que está escrevendo — o traço passa a ter direção e sentido.

    Segunda: comece pelo lápis, não pelo pincel. Escrever kanji à mão com lápis, na ordem certa, num caderno quadriculado, é o que constrói a memória motora. O pincel acrescenta a dificuldade da pressão a um problema que ainda não foi resolvido.

    No Brasil há aulas de shodō nas associações nipo-brasileiras de quase toda capital, e várias delas são abertas a quem não tem ascendência japonesa. É provavelmente o caminho mais barato e mais direto — e vem com professor, que é o que corrige o vício de traço que o vídeo não pega.

    Se o objetivo for escrever o próprio nome, comece sabendo o que ele é: seu nome em japonês explica as duas formas possíveis, e a ferramenta em nome em japonês mostra a divisão sinal por sinal. Para digitar em vez de escrever, como digitar em japonês. E para entender por que o mesmo caractere muda de som conforme a palavra, por que um kanji tem várias leituras.

  • Sobrenome nikkei: por que Watanabe não vira ワタナビ

    Digite “Watanabe” em qualquer conversor de nomes para japonês da internet e você vai receber ワタナビ.

    Está errado. O sobrenome é 渡辺 e se lê ワタナベ, com be. Digite “Sato” e vem サト; o correto é 佐藤, サトウ, com uma vogal longa que o alfabeto português nunca registrou.

    O erro não é bug de um site específico. É estrutural, e atinge todos eles pelo mesmo motivo — o que é uma inconveniência num país qualquer e um problema sério no Brasil, onde vivem cerca de dois milhões de pessoas de origem japonesa.

    Por que a regra erra exatamente aqui

    Todo conversor de nomes faz a mesma coisa: pega as letras, descobre que som elas representam na língua de origem e escreve esse som em katakana. É o procedimento correto, descrito em do português brasileiro para o katakana, e funciona bem para Rodrigo, Beatriz e Larissa.

    Só que “Watanabe” não é uma palavra portuguesa. É uma palavra japonesa que passou por um formulário de imigração e saiu escrita com o alfabeto português. E o alfabeto português perde informação no caminho:

    • Perde a vogal longa. 佐藤 é Satō, com o o prolongado. No papel virou “Sato”, e a diferença sumiu.
    • Perde o ideograma. Que é onde mora o significado inteiro do nome.
    • Perde a fronteira das sílabas japonesas. O que faz a regra portuguesa dividir errado.
    • E ganha a fonética brasileira. O e final do português soa i, e a regra aplica isso obedientemente — daí o “Watanabi”.

    O resultado é uma ironia razoavelmente cruel: a ferramenta erra justamente com quem tem mais motivo para usá-la. É o nikkei brasileiro quem quer saber como o próprio sobrenome se escreve em japonês, e é o sobrenome dele que a regra estraga.

    O que se perde quando um sobrenome japonês é escrito no alfabeto português
    Vogal longa, ideograma e fronteira silábica — três informações que o alfabeto não guardou.

    A solução: não aplicar regra nenhuma

    Sobrenome japonês já tem escrita. Não há o que deduzir. A única resposta certa é reconhecer o sobrenome e devolver o que ele é.

    É assim que nossa ferramenta funciona: antes de qualquer regra de transcrição rodar, o nome digitado é comparado com uma base de sobrenomes japoneses. Se estiver lá, a regra é ignorada por completo e o que sai é o ideograma, a leitura correta e o significado.

    No documento Kanji Leitura certa O que a regra devolveria
    Watanabe 渡辺 ワタナベ ワタナビ
    Sato 佐藤 サトウ サト
    Ito 伊藤 イトウ イト
    Kondo 近藤 コンドウ コンド
    Ota 太田 オオタ オタ
    Endo 遠藤 エンドウ エンド
    Inoue 井上 イノウエ イノウイ
    Abe 阿部 アベ アビ

    Repare no padrão: os erros se concentram em duas famílias. Sobrenomes terminados em -e, onde a fonética brasileira fecha a vogal, e sobrenomes com vogal longa, que o alfabeto simplesmente não anotou. Juntas, essas duas famílias cobrem uma fatia enorme dos sobrenomes nikkeis brasileiros.

    O que os sobrenomes querem dizer

    Aqui está a parte interessante, e a que costuma surpreender quem cresceu com o nome sem nunca ter visto o ideograma.

    Sobrenome japonês é quase sempre um endereço. Ao contrário do português, que criou sobrenomes de profissão (Ferreira, Pastor), de origem (Portugal, Braga) e de filiação (Rodrigues, “filho de Rodrigo”), o japonês tirou os seus da paisagem.

    • 田中 Tanaka — “no meio do arrozal”
    • 山本 Yamamoto — “ao pé da montanha”
    • 中村 Nakamura — “a aldeia do meio”
    • 石川 Ishikawa — “rio de pedras”
    • 松田 Matsuda — “arrozal dos pinheiros”
    • 川口 Kawaguchi — “foz do rio”
    • 渡辺 Watanabe — “à beira da travessia”, o lugar onde se atravessa o rio

    São coordenadas. Diziam onde a família morava em relação ao arrozal, ao rio, à montanha e à aldeia. Isso explica também por que tantos terminam em 田 (arrozal), 村 (aldeia), 山 (montanha), 川 (rio), 木 (árvore) e 本 (base, pé de).

    A glicínia que aparece em todo lugar

    Um caso à parte merece atenção: o ideograma 藤, glicínia, aparece num número desproporcional de sobrenomes — Sato 佐藤, Ito 伊藤, Kato 加藤, Saito 斎藤, Goto 後藤, Endo 遠藤, Kondo 近藤, Kudo 工藤.

    Não é coincidência botânica. 藤 é o segundo caractere de Fujiwara (藤原), a família que dominou a corte japonesa por séculos. Os ramos e vassalos combinaram esse ideograma com uma marca da própria província ou função: 加藤 é “o Fujiwara de Kaga”, 伊藤 é “o de Ise”, 遠藤 é “o Fujiwara distante”, 工藤 é “o dos artífices”.

    Ou seja: um punhado dos sobrenomes mais comuns do Japão — e, por consequência, do Brasil — é um sobrenome só, ramificado em endereços.

    O nome que a família carregou no navio guardava, em dois ideogramas, a informação de onde ela morava no Japão e a quem devia lealdade. O alfabeto português preservou o som e apagou o mapa.

    Sobre o que o registro de imigração não tinha como anotar

    Os elementos que mais aparecem em sobrenomes japoneses
    Arrozal, montanha, rio, aldeia: os ideogramas que dizem onde a família ficava.

    Okinawa: o caso que quase todo mundo erra

    Esta parte é especialmente brasileira, porque uma parcela grande da imigração japonesa para o Brasil saiu de Okinawa — história contada em okinawanos no Brasil.

    Okinawa foi um reino independente — Ryūkyū — até o século XIX, com língua própria, aparentada do japonês mas não igual. Os sobrenomes de lá usam ideogramas japoneses com leituras que não valem no continente:

    Sobrenome Kanji Leitura em Okinawa No continente seria
    Higa 比嘉 ヒガ Hika
    Arakaki 新垣 アラカキ Shingaki
    Toyama 外間 トヤマ Hokama
    Kinjo / Kaneshiro 金城 キンジョウ / カネシロ os mesmos ideogramas, duas leituras
    Nakandakari 仲村渠 ナカンダカリ ninguém acerta de primeira

    O caso de 金城 é o mais elegante: os mesmos dois ideogramas, “castelo de ouro”, são lidos Kinjō por uma família e Kaneshiro por outra. Nenhuma das duas está errada. Em okinawano antigo, o mesmo nome soava Kanagusukugusuku é a palavra ryukyuana para castelo, e é ela que está por trás de todos os sobrenomes okinawanos terminados em 城.

    Uma ferramenta genérica, treinada em japonês do continente, erra sistematicamente esses nomes. Nossa base traz as leituras de Okinawa separadas e identificadas, com a forma continental anotada ao lado quando existe. Não é detalhe: para uma parte considerável das famílias nikkeis brasileiras, é o nome delas.

    Por que a leitura não se deduz nem no Japão

    Um consolo para quem se sente perdido: japonês também não sabe ler sobrenome japonês com segurança.

    Nomes próprios usam leituras que não valem em mais lugar nenhum — as nanori, explicadas em por que um kanji tem várias leituras. O mesmo ideograma muda de leitura conforme a família, a região e o século.

    Por isso todo formulário oficial no Japão tem um campo a mais, o furigana, onde a pessoa escreve como o próprio nome se pronuncia. Sem esse campo, o cartório não teria como cadastrar ninguém. É a admissão institucional de que a escrita, sozinha, não basta.

    Quando o nome mudou na travessia

    Vale registrar, porque acontece em muitas famílias e costuma confundir a busca:

    • Grafia adaptada. “Ohara” e “Óhara” para 大原, “Suzuqui” para Suzuki. O funcionário do porto escrevia o que ouvia.
    • Vogal longa perdida. A mais frequente de todas. Ōta virou Ota, Kōno virou Kono, Satō virou Sato.
    • Ordem invertida. No Japão o sobrenome vem antes do nome. Muito registro brasileiro trocou a ordem, e às vezes um nome pessoal virou sobrenome de família.
    • Nome pessoal abrasileirado. Comum na segunda geração, e uma história em si — contada em sobrenomes japoneses no Brasil.

    Se o sobrenome da sua família não aparecer na base, é bem possível que seja uma dessas variações. Vale tentar a forma sem acento, e vale perguntar aos mais velhos se alguém lembra do ideograma — muita família guarda em documento antigo, em túmulo ou no verso de uma foto.

    Onde consultar

    A base de sobrenomes japoneses tem os mais frequentes no Brasil, com ideograma, leitura correta, significado e nota quando há variação ou leitura okinawana. Cada um tem página própria.

    Se o que você procura é o nome pessoal e não o sobrenome, o caminho é outro: seu nome em japonês explica a diferença entre escrever o som e escolher um sentido, e a ferramenta de nome em japonês faz a transcrição com as regras brasileiras. E se a ideia for levar o ideograma para a pele, leia antes tatuagem em japonês — com sobrenome de família, errar o traço tem um peso a mais.

  • Tatuagem em japonês: o que conferir antes de tatuar

    Existe um gênero inteiro de piada na internet japonesa: fotos de estrangeiros tatuados com ideogramas que não querem dizer o que o dono pensa. Algumas são engraçadas. Outras são tristes, porque a pessoa claramente se importava com o significado e foi mal servida por quem consultou.

    A tatuagem é permanente e o kanji errado também. O que segue é uma lista de verificações que leva vinte minutos e evita quase tudo o que costuma dar errado.

    Por que erra tanto

    Não é falta de cuidado. É que a escrita japonesa tem quatro camadas de coisa que pode dar errado, e três delas são invisíveis para quem não lê a língua.

    1. O sentido pode estar errado — o ideograma não significa o que disseram.
    2. A leitura pode estar errada — significa aquilo, mas se lê diferente do esperado, e o mesmo caractere muda de sentido conforme a leitura, como se explica em por que um kanji tem várias leituras.
    3. O traço pode estar errado — o desenho tem um risco a mais, a menos, ou na direção errada.
    4. A fonte pode estar errada — o caractere é chinês simplificado, ou está numa tipografia que japonês nenhum usaria naquele contexto.

    As três últimas só aparecem para quem lê. E é sempre alguém que lê que vai comentar a sua tatuagem.

    As quatro camadas de erro possíveis numa tatuagem em japonês
    Sentido, leitura, traço e fonte — e só a primeira é visível para quem não lê japonês.

    As sete verificações

    1. Confirme o sentido em dicionário japonês, não em site de tatuagem

    Sites de “kanji para tatuagem” reciclam listas uns dos outros, e erros se propagam por anos. Um dicionário japonês-inglês sério mostra todas as acepções do caractere, incluindo as que ninguém menciona. Vale conferir se a que você quer é a principal ou a quarta.

    2. Cheque se é kanji japonês ou chinês simplificado

    A China simplificou a escrita nos anos 1950; o Japão fez uma reforma própria, menor e diferente. O resultado é que muitos caracteres existem em duas formas.

    Sentido Japão China simplificada
    amor
    dragão 竜 / 龍
    país 国 (igual)
    ampliar 广

    Uma busca por imagem devolve as duas formas misturadas. Se a intenção é japonês, a forma japonesa é a que interessa — e um japonês reconhece a chinesa de imediato, do mesmo jeito que a gente reconhece um “ñ” espanhol num texto em português.

    3. Peça o arquivo em vetor, não em imagem de busca

    Imagem baixada de resultado de busca costuma ser pequena e comprimida. Ampliada para o tamanho da pele, os traços viram borrões, e o tatuador acaba interpretando o que vê. É assim que aparece traço a mais.

    O melhor caminho é digitar o caractere você mesmo — em um documento, numa fonte japonesa de verdade — e exportar em vetor. Como instalar o teclado está em como digitar em japonês.

    4. Escolha a fonte com intenção

    Fonte não é detalhe estético aqui. Cada família comunica uma coisa:

    • Mincho (明朝) — serifada, formal, de livro. Sóbria e neutra.
    • Gothic (ゴシック) — sem serifa, moderna, de placa e tela.
    • Kaisho (楷書) — caligrafia regular, traço a traço. É a que a maioria das pessoas quer quando pensa em “japonês bonito”.
    • Gyōsho (行書) e sōsho (草書) — semicursiva e cursiva. Lindas, e ilegíveis para quem não estudou.

    Um ideograma em fonte de sistema, tipo o padrão do computador, fica com cara de documento impresso. É opção legítima, mas convém que seja escolha, não acidente. O assunto está em caligrafia japonesa.

    5. Confira a orientação e a ordem

    Japonês se escreve na horizontal, da esquerda para a direita, ou na vertical, de cima para baixo. Na vertical, começa em cima. Parece elementar e ainda assim aparece tatuagem com a coluna invertida, quase sempre porque a referência era uma foto espelhada.

    E ideograma não se espelha. Uma tatuagem no braço direito com o caractere espelhado para “ficar simétrica” com o esquerdo produz um desenho que não é escrita nenhuma.

    6. Mostre para duas pessoas diferentes que leiam japonês

    Duas, não uma, e não a mesma fonte duas vezes. Se você não conhece ninguém, procure um centro cultural nipo-brasileiro, uma escola de japonês ou uma associação de província — no Brasil existem em quase toda capital, e a pergunta é rápida.

    Pergunte especificamente três coisas: o que está escrito, como se lê e se tem algum traço estranho. A terceira é a que pega o problema que o Google não pega.

    7. Repense se for frase

    Palavra solta é relativamente segura. Frase é onde mora o desastre, porque frase tem gramática, e gramática mal montada não é “sotaque” — é ininteligível.

    Provérbio japonês existe aos milhares e vem pronto, sem risco de montagem. Já a frase traduzida por máquina do português para o japonês costuma sair com partícula errada e nível de formalidade impossível de identificar. É um bom lugar para desconfiar do tradutor automático.

    Palavra solta erra o sentido. Frase erra a gramática. E gramática errada em ideograma não parece charmosa nem exótica: parece um texto que não fecha, do mesmo jeito que um português mal montado tatuado num estrangeiro.

    Sobre por que provérbio pronto é mais seguro que frase traduzida

    Sete verificações antes de fazer uma tatuagem em japonês
    Vinte minutos de conferência contra uma decisão que dura a vida toda.

    Nome próprio: katakana ou kanji?

    As duas opções servem, e são bem diferentes uma da outra.

    Katakana é a resposta correta e a segura. Escreve o som do nome, um japonês lê e reconhece, não há risco de sentido oculto. A desvantagem é estética: os traços do katakana são retos e simples, e nem todo mundo acha que ficam bem na pele.

    Kanji por ateji é mais bonito e mais arriscado. Os ideogramas são escolhidos pelo som, não pelo sentido, e o resultado não é a tradução do seu nome — é um nome estrangeiro escrito de um jeito curioso. Vale ler ateji antes de decidir, sobretudo a parte dos erros de escolha.

    A ferramenta em nome em japonês devolve as duas formas, com a divisão silábica e o significado de cada ideograma do ateji — o que dá pelo menos com o que ir conversar com quem lê.

    Um assunto que quase ninguém menciona

    Vale saber, e é informação prática de viagem: tatuagem no Japão ainda carrega associação com o crime organizado, e por causa disso muito estabelecimento com banho coletivo — onsen, sentō, algumas academias e piscinas — recusa a entrada de pessoas tatuadas.

    A regra está afrouxando, sobretudo em regiões turísticas, e há casas que aceitam ou que oferecem banho privativo. Mas é comum que a placa na entrada seja explícita, e não adianta argumentar que a sua tatuagem é pequena ou que você é estrangeiro.

    Quem vai ao Japão com tatuagem visível costuma levar um adesivo de cobertura, do tipo vendido em farmácia japonesa, e checar a política de cada casa antes. Não é um veto ao país inteiro — é uma inconveniência específica que dá para planejar.

    Resumindo

    1. Dicionário japonês, não site de tatuagem.
    2. Forma japonesa, não chinesa simplificada.
    3. Vetor, não imagem de busca.
    4. Fonte escolhida de propósito.
    5. Orientação certa, nunca espelhada.
    6. Duas pessoas que leiam japonês.
    7. Palavra ou provérbio pronto; frase traduzida, não.

    Se você chegou aqui pensando no próprio nome, o começo da conversa é seu nome em japonês, que explica a diferença entre escrever o som e escolher um sentido. Se o nome for sobrenome de família japonesa, o ideograma já existe e não se inventa: sobrenome nikkei. E para entender por que os traços são o que são, katakana e hiragana mostra de onde vieram os dois silabários.

  • Ateji: seu nome em kanji, e o que costuma dar errado

    Ateji: seu nome em kanji, e o que costuma dar errado

    Depois de ver o próprio nome em katakana, quase todo mundo faz a segunda pergunta: e em ideograma, dá?

    Dá. A prática existe, é japonesa, é antiga e tem nome: ateji (当て字), “caracteres aplicados”. Mas ela não faz o que a maioria das pessoas imagina que faz, e a diferença entre as duas coisas é o assunto deste texto.

    O que ateji é

    É usar kanji pelo som, ignorando o que cada um significa.

    O ideograma normalmente carrega sentido — é essa a graça dele. No ateji esse contrato é suspenso: escolhe-se o caractere porque ele se lê ma, ou ri, ou na, e o sentido fica em segundo plano, quando não é abandonado de vez.

    O Japão fez isso em escala industrial antes de o katakana assumir a função:

    Palavra Ateji Sentido literal dos kanji
    Brasil 伯剌西爾 conde — espinhoso — oeste — assim
    América 亜米利加 secundário — arroz — lucro — somar
    Portugal 葡萄牙 uva — uva — dente
    tabaco 煙草 fumaça — erva
    sushi 寿司 longevidade — encarregar-se

    “Conde-espinhoso-oeste-assim” não descreve o Brasil. Descreve o som bu-ra-ji-ru. Ninguém no Japão lê 伯剌西爾 pensando em espinho — na verdade quase ninguém lê essa forma, porque hoje se escreve ブラジル em katakana. As abreviações sobreviveram: 米 sozinho ainda significa “Estados Unidos” em texto de jornal, e literalmente quer dizer arroz.

    Como funciona a escolha de ideogramas pelo som
    Cada sílaba recebe um kanji que se lê daquele jeito; o significado é escolhido em seguida.

    O que ateji não é

    Não é a tradução do seu nome. Vale repetir porque quase todo conteúdo sobre o assunto sugere o contrário.

    Se o seu nome é Vitória, existem dois caminhos, e eles não se encontram:

    • Ateji: escolher ideogramas que somem o som “vi-to-ri-a”. O resultado se lê como o seu nome.
    • Tradução: pegar a palavra japonesa para vitória, 勝利 (shōri). O resultado não se lê como o seu nome, e não é usado como nome de gente — é substantivo comum, e um japonês leria como tal.

    A tradução tem outro problema: nomes brasileiros raramente têm um significado limpo. Vitória e Rosa têm. Bruno vem de “marrom” em germânico antigo, o que ninguém associa. Jonathan quer dizer “presente de Deus” em hebraico. Traduzir a etimologia de um nome que ninguém percebe como palavra devolve algo que não é o seu nome nem em português.

    Como a escolha é feita

    O procedimento tem três etapas.

    1. Chegar ao katakana

    Primeiro se descobre como o nome soa em japonês, o que é exatamente o trabalho descrito em do português brasileiro para o katakana. Marina dá マリナ: ma-ri-na. Sem essa etapa não há em que aplicar kanji.

    2. Achar kanji para cada sílaba

    Cada sílaba pode ser escrita por vários ideogramas diferentes. Para ma existem 真 (verdade), 麻 (linho), magno 摩, 万 (dez mil). Para ri: 里 (aldeia), 莉 (jasmim), 理 (razão), 利 (proveito). Para na: 奈 (usado em nomes desde a era Nara), 那, 菜 (verdura), 名 (nome).

    3. Escolher a combinação que fica bem

    É aqui que está o trabalho de verdade, e é aqui que o resultado fica bom ou ridículo. 真里奈 — verdade, aldeia, Nara — soa como nome de mulher japonesa e tem sentido agradável. 麻痢那 tem o mesmo som e é péssimo: o segundo caractere significa diarreia.

    O som é a parte fácil e mecânica. A escolha entre os ideogramas homófonos é a parte que exige saber o que cada um carrega — e é justamente a que os geradores automáticos fazem no chute.

    Sobre por que ateji de qualidade não sai de tabela

    O que os japoneses de verdade fazem

    Vale saber, porque muda a expectativa.

    Estrangeiro no Japão usa katakana. No crachá, no contrato, no cartão do banco, no carimbo pessoal. É o normal e ninguém acha estranho. Um brasileiro chamado Rodrigo é ホドリゴ no trabalho e ホドリゴ no correio.

    Ateji para nome de estrangeiro aparece em três situações:

    1. Brincadeira e carinho. Um amigo japonês inventa o seu ateji, mostra os ideogramas, explica a piada. É gesto afetuoso.
    2. Naturalização. Quem adquire a cidadania japonesa escolhe um nome legal, e aí o ateji vira documento — decisão levada muito a sério, geralmente com ajuda de quem entende.
    3. Decoração. Camiseta, quadro, souvenir. É indústria, e a qualidade varia enormemente.

    Fora disso, o dia a dia é katakana. Quem chega ao Japão esperando ser chamado pelo ateji vai se decepcionar.

    Erros frequentes na escolha de ideogramas para nomes
    Os erros que aparecem em quase todo gerador automático de nome em kanji.

    Os erros que se repetem

    • Ideograma com sentido ruim. 死 (morte), 苦 (sofrimento), 痢 (diarreia) e 屍 (cadáver) têm leituras comuns e entram fácil numa tabela feita sem cuidado.
    • Combinação que forma outra palavra. Dois kanji inocentes juntos podem dar um composto existente e indesejado. Só se percebe consultando dicionário de compostos.
    • Kanji chinês que não existe em japonês. Os dois sistemas divergiram: o continente simplificou de um jeito, o Japão de outro. Caractere chinês simplificado num texto japonês salta aos olhos.
    • Nome longo demais. “Alexandre” tem cinco sílabas em japonês. Cinco ideogramas empilhados não parecem nome — parecem frase, e ninguém consegue ler como unidade.
    • Ignorar o gênero. Certos kanji são fortemente masculinos ou femininos no uso japonês. 郎 e 太 em nome de mulher soam errado; 子 e 美 em nome de homem, idem.
    • Repetir o mesmo caractere. Nome com sílaba dobrada tende a receber o mesmo kanji duas vezes, o que fica visualmente pobre.

    Como a ferramenta do site resolve

    Nossa tabela de ateji é curada à mão, uma escolha por sílaba, e as escolhas seguem três critérios:

    1. Sentido neutro ou bom. 真 verdade, 美 beleza, 優 gentileza, 希 esperança, 音 som, 和 harmonia. Nenhum ideograma de conotação negativa entrou na tabela.
    2. Kanji que aparece em nome real. Preferimos caracteres que o japonês reconhece como material de nome — não os que são certos no dicionário mas nunca vistos num.
    3. Transparência. A página mostra o significado de cada ideograma, um por um. Você vê o que está levando, em vez de receber um bloco bonito e opaco.

    Está em nome em japonês, junto com o katakana e a divisão silábica, e vale a pena tratar o resultado como ponto de partida. É uma sugestão razoável e explicada, não um veredito — e para uso permanente, como tatuagem ou documento, sempre vale a conferência com um falante nativo.

    Se você tem sobrenome japonês

    Aí a conversa é outra e o ateji não entra nela.

    Watanabe, Sato, Tanaka, Oshiro já têm ideograma — 渡辺, 佐藤, 田中, 大城. Não é preciso inventar nada, e inventar seria erro: aplicar ateji a um sobrenome que já existe produz um nome diferente com o mesmo som, o que é exatamente o oposto do que se quer.

    O caso está detalhado em sobrenome nikkei, e a base de sobrenomes está em sobrenome japonês. O ponto vale porque, no Brasil, essa situação é comum: dois milhões de pessoas de origem japonesa é gente suficiente para que a pergunta apareça o tempo todo.

    Antes de tatuar

    Se o ateji vai virar tatuagem, três avisos.

    Primeiro: ateji não é frase japonesa. Ninguém no Japão vai ler aquilo como “significa verdade e beleza” — vai ler como um nome estrangeiro escrito de um jeito curioso.

    Segundo: a fonte importa tanto quanto os caracteres. Ideograma desenhado em fonte errada, ou copiado de imagem de baixa resolução, sai com traço na ordem errada e um japonês percebe na hora.

    Terceiro: confira com pelo menos duas pessoas que leiam japonês, e não com o mesmo site duas vezes. A lista completa de verificações está em tatuagem em japonês.

    Para o quadro geral das opções, seu nome em japonês. E para entender por que o mesmo ideograma aceita leituras tão diferentes — o que é o mecanismo que torna o ateji possível —, por que um kanji tem várias leituras.

  • Por que um kanji tem várias leituras

    Pegue o ideograma . Ele se lê sei, shou, i, u, o, ha, ki, nama, na, mu, fu — e isso sem contar as leituras que só aparecem em nomes próprios. É o campeão, mas não é caso isolado: a maioria dos kanji tem pelo menos duas leituras, e várias têm cinco ou seis.

    Isso soa como um defeito de projeto. Não é. É o registro fóssil de mil e quinhentos anos de importação de vocabulário, e uma vez entendida a lógica, a coisa fica bem menos assustadora do que parece.

    Como o problema começou

    O japonês já era uma língua falada, completa e antiga, quando a escrita chinesa chegou pela península coreana, por volta do século V. E as duas línguas não têm parentesco nenhum — a gramática é diferente, os sons são diferentes, a estrutura da palavra é diferente.

    Diante de um ideograma chinês que significava “água” e se pronunciava algo como shui, o escriba japonês tinha duas saídas. Podia guardar a pronúncia chinesa, adaptada ao que a boca japonesa dava conta. Ou podia dizer: isto significa água, e água em japonês é mizu, então leio mizu.

    Ele fez as duas coisas. E aí está a origem de tudo.

    A origem das duas famílias de leitura dos ideogramas japoneses
    Uma leitura veio da China com o desenho; a outra já existia em japonês antes dele.

    On’yomi e kun’yomi

    On’yomi 音読み Kun’yomi 訓読み
    Literalmente “leitura de som” “leitura de sentido”
    Vem de Pronúncia chinesa adaptada Palavra japonesa que já existia
    Aparece em Compostos de dois ou mais kanji Kanji sozinho, ou com hiragana grudado
    Forma Curta, uma ou duas sílabas Costuma ser mais longa
    sui mizu
    san yama
    jin, nin hito

    A analogia que funciona bem em português: pense em água e hidro-. São a mesma coisa, mas uma é a palavra do dia a dia e a outra só aparece grudada em composto erudito — hidrelétrica, hidratação, hidrografia. Ninguém diz “vou beber um copo de hidro”. O kun’yomi é a água; o on’yomi é o hidro.

    E a comparação vale mais fundo do que parece, porque a origem é a mesma nos dois casos: uma língua de prestígio emprestando vocabulário técnico a outra. O que o grego e o latim fizeram com o português, o chinês fez com o japonês — só que em muito maior escala.

    Por que existem várias leituras on

    Porque o vocabulário chinês não chegou de uma vez. Chegou em ondas separadas por séculos, vindo de regiões diferentes da China, em momentos em que a própria pronúncia chinesa havia mudado. Cada onda trouxe sua camada, e as camadas anteriores não foram apagadas.

    1. Go-on (呉音) — a mais antiga, entrada pela península coreana. Sobrevive sobretudo no vocabulário budista.
    2. Kan-on (漢音) — trazida por estudantes enviados à China da dinastia Tang, nos séculos VII a IX. Virou o padrão do vocabulário erudito e é a mais comum hoje.
    3. Tō-on (唐音) — bem mais tarde, dos séculos XII em diante, ligada ao zen e ao comércio. Poucas palavras.

    O ideograma 行 é o exemplo clássico: gyō em go-on, em kan-on, an em tō-on. Todas as três continuam em uso, em palavras diferentes, e nenhuma delas é mais correta que as outras.

    Nenhuma das leituras foi escolhida. Todas foram acumuladas. O kanji japonês é uma língua com o histórico de versões visível na superfície — e a lentidão em aprendê-lo é o preço de nunca ter havido uma reforma que jogasse fora o que veio antes.

    Sobre por que ninguém simplificou isso

    Como se sabe qual usar

    Existe uma regra prática que resolve a grande maioria dos casos:

    • Kanji grudado em outro kanji → provavelmente on’yomi. 水曜日 suiyōbi (quarta-feira), 火山 kazan (vulcão).
    • Kanji sozinho, ou seguido de hiragana → provavelmente kun’yomi. 水 mizu, 食べる taberu (comer).

    O hiragana que aparece grudado tem nome — okurigana — e faz um trabalho preciso: mostra a terminação flexionada e, de quebra, desfaz ambiguidade. 生きる é ikiru (viver) e 生まれる é umareru (nascer). O ideograma é o mesmo; o hiragana diz qual leitura vale.

    A regra falha em alguns casos, e os japoneses convivem com isso normalmente:

    • Jūbako-yomi (重箱読み) — composto que mistura on na frente e kun atrás.
    • Yutō-yomi (湯桶読み) — o inverso, kun na frente e on atrás.
    • Rendaku (連濁) — a consoante inicial da segunda palavra sonoriza no composto: hito + hito vira hitobito, não hitohito.
    Pistas para identificar qual leitura de um kanji usar
    Composto puxa on; kanji solto ou com hiragana puxa kun — com as exceções de sempre.

    Os nomes próprios, que é onde tudo desaba

    Aqui está a parte que interessa diretamente a quem chegou por causa de nomes.

    Nomes de pessoa usam leituras que não valem em mais lugar nenhum. Elas têm até nome próprio: nanori (名乗り), “leituras de nomear”. O ideograma 和, que se lê wa ou kazu no vocabulário comum, aparece em nomes como nogi, yori, tomo, hitoshi.

    A consequência prática é dura: ver um nome japonês escrito não garante saber lê-lo. Não é ignorância de estrangeiro — japonês também não sabe. Por isso todo formulário oficial no Japão tem um campo extra, o furigana, onde a pessoa escreve como o próprio nome se pronuncia. Sem ele, o cartório não teria como cadastrar ninguém.

    É exatamente essa a razão de nossa base de sobrenomes japoneses guardar a leitura junto com o ideograma, em vez de tentar deduzi-la. Deduzir não funciona nem para quem nasceu lá.

    Quantos kanji, e quantas leituras cada um

    A lista oficial de uso corrente, o jōyō kanji, tem 2.136 ideogramas. É o que se ensina na escola e o que jornal e livro podem usar sem furigana. Um dicionário grande passa de cinquenta mil, mas isso é o mesmo que dizer que o português tem meio milhão de palavras.

    Quanto às leituras, a distribuição é mais amigável do que a fama sugere:

    • Boa parte tem uma on e uma kun, e pronto.
    • Um grupo grande tem duas ou três ao todo.
    • Uma minoria pequena e famosa — 生, 行, 上, 下 — tem mais de dez.
    • Alguns têm só on, por serem conceitos importados sem palavra japonesa correspondente.
    • E há os kokuji (国字), inventados no Japão e portanto sem leitura chinesa nenhuma. 峠 (tōge, passo de montanha) e 働 (hatara-ku, trabalhar) são os mais conhecidos.

    O que fazer com isso na prática

    1. Não decore leituras soltas. Aprenda palavras inteiras. A leitura vem junto, em contexto, e fica.
    2. Aprenda a on’yomi primeiro nos compostos. É a que mais se repete e a que mais rende vocabulário novo.
    3. Trate o okurigana como parte da palavra. Ele não é enfeite: é a informação que diz qual leitura vale.
    4. Aceite que nome é caso à parte. Não é falha sua não conseguir ler um sobrenome. Ninguém consegue com segurança.
    5. Desconfie de tradutor automático com ideograma solto. Sem contexto ele chuta a leitura mais frequente, e em nome próprio isso erra quase sempre.

    Esse último ponto vale muito para quem pensa em tatuar: o mesmo ideograma com leitura diferente pode mudar bastante de sentido, e a verificação recomendada está em tatuagem em japonês. Se o interesse for escrever um nome estrangeiro com ideogramas escolhidos pelo som, o texto é ateji. Para o quadro geral das três escritas, seu nome em japonês; e para os dois silabários que não têm esse problema, katakana e hiragana.

  • Do português brasileiro para o katakana: as regras

    Quase todas as tabelas de “português para katakana” que circulam na internet são tradução de tabelas em inglês ou espanhol. Dá para perceber sem muito esforço: elas mandam escrever João como ジョアオ e Thiago como ティアゴ, e nenhuma das duas coisas corresponde ao que sai da boca de um brasileiro.

    Esta aqui parte do outro lado. Primeiro o som do português brasileiro, depois o katakana que chega mais perto dele.

    O princípio, antes das regras

    A transcrição não parte da escrita. Parte da pronúncia.

    Parece óbvio e é justamente o que quase todo conversor faz errado. O h de “Thiago” não corresponde a som nenhum e não deve virar nada. O s de “José” soa z e não s. O e final de “Guilherme” soa i. Quem transcreve letra por letra produz um resultado que, lido por um japonês, não é reconhecível como o nome de ninguém.

    E há um segundo princípio, que resolve as discussões: o objetivo não é registrar o nome, é fazer com que um japonês lendo aquilo produza um som que você reconheça. Toda vez que as duas coisas entram em conflito, a segunda ganha.

    As etapas da conversão de um nome brasileiro para katakana
    Sílabas e tônica, depois sons brasileiros, e só então katakana.

    As vogais

    Som Katakana Exemplo
    a, á, â Ana → アナ
    e, é, ê tônico Renata → レナタ
    e final átono (soa i) Felipe → フェリピ
    i, í Ivan → イヴァン
    o, ó, ô Otávio → オタヴィオ
    u, ú Bruno → ブルーノ

    A linha do e final é a primeira que separa o Brasil de Portugal. O brasileiro diz “Felipi”, “Guilhermi”, “Vicenchi”. Escrever フェリペ não é errado historicamente, mas devolve uma pronúncia portuguesa.

    O o final é o caso oposto, e é uma exceção deliberada. Na fala brasileira ele também se fecha e soa u: “Marcu”, “Pedru”. Mas a tradição de escrever nomes com オ é firme demais para contrariar — マルコ, ペドロ. Aqui a convenção ganha da fonética, e é honesto dizer que essa escolha é convenção.

    As nasais — o caso mais brasileiro de todos

    O japonês tem um só sinal para nasalidade no fim de sílaba: . Não distingue m de n nessa posição, e não tem vogal nasal.

    Terminação Katakana Exemplo
    -ão アン João → ジョアン
    -ãe アイン Guimarães → ギマライン
    -õe オイン Simões → シモイン
    -am, -an アン Adriane → アドリアニ
    -em, -en エン Bento → ベント
    -im, -in イン Vinicius → ヴィニシウス
    -om, -on オン Ronaldo → ホナウド
    -um, -un ウン Bruna → ブルーナ

    O -ão é a marca registrada do português e não existe em nenhuma das línguas de onde as tabelas foram copiadas. Ele é um ditongo nasal: começa em a nasal e fecha em u nasal. A aproximação アン perde o fecho, mas é a que produz o som mais reconhecível — um japonês lendo ジョアン diz algo que qualquer João atende.

    As consoantes que o japonês não tem

    O nh e o lh

    Duas consoantes palatais que o japonês resolve com as séries em -ya, -yu, -yo:

    • nh → série ニャ ニュ ニョ. Sonia → ソニャ, Cunha → クニャ, Junior → ジュニオル.
    • lh → série リャ リュ リョ. Guilherme → ギリェルミ, Carvalho → カルヴァリョ, Filho → フィリョ.

    Repare em “Cunha”: o n ali não é nasal de fim de sílaba. Ele forma dígrafo com o h. Um conversor que trate todo n como candidato a ン devolve クンニャ, que é um nome que não existe. Foi exatamente o primeiro defeito que apareceu quando montamos o nosso.

    O ti e o di

    A palatalização brasileira, e a diferença mais visível em relação ao português europeu:

    • ti, te final → チ. Thiago → チアゴ, Vicente → ヴィセンチ, Beatriz → ベアトリス (aqui não, porque o ti está antes de consoante).
    • di, de final → ジ. Diego → ジエゴ, Andrade → アンドラジ, Denise → ジニジ.

    Existe variação regional — parte do Nordeste e do Sul não palataliza, ou palataliza menos. A escolha por チ e ジ segue a pronúncia majoritária, que é também a do eixo Rio-São Paulo e a da mídia.

    O r inicial e o rr

    O caso que mais surpreende, e o mais defensável de todos.

    O português brasileiro tem dois erres diferentes. O de “caro” é uma batidinha de língua no céu da boca — igual ao r japonês da série ラリルレロ. O de “carro”, de “rato” e de “Rodrigo” é uma fricativa de garganta, produzida bem mais atrás, e nada parecido.

    A série japonesa que chega perto dessa segunda é ハヒフヘホ:

    • Rodrigo → ドリゴ
    • Ricardo → カルド
    • Rafael → ファエル
    • Ferreira → フェイラ
    • Renata → ナタ

    Muita gente estranha na primeira vez. Mas o teste é simples: peça a um japonês para ler ロドリゴ. Vai sair “Rodrigo” com o r de “caro”, que é o som que o brasileiro usa no meio da palavra, não no começo.

    A regra parece exótica porque a escrita nos treinou a ver uma letra só. Mas o brasileiro que diz “Rodrigo” e “Marina” está produzindo dois sons que não têm nada em comum além do símbolo. O japonês só tem símbolo para um deles.

    Sobre o que a ortografia esconde da gente

    O s, o j, o ch e o x

    • s entre vogais soa z → série ザジズゼゾ. José → ジョゼ, Rosa → ホーザ.
    • s inicial ou dobrado soa s → série サシスセソ. Larissa → ラリッサ.
    • j e g antes de e, i → ジ. Jorge → ジョルジ, Gilberto → ジウベルト.
    • ch → シュ. Chagas → シャガス.
    • x varia com a posição: em “Xavier” soa ch (シャヴィエル); em “Alexandre” soa ks (アレシャンドレ na fala corrente, アレクサンドレ na forma cuidada); em “exame” soa z.

    O l no fim de sílaba

    Na fala brasileira ele não é l: é uma semivogal u. “Brasil” soa “Brasiu”, “Raul” soa “Rauu”. Isso dá duas transcrições defensáveis:

    • Fonética: Ronaldo → ホナド, seguindo o som.
    • Ortográfica: Ronaldo → ホナド, seguindo a letra.

    A imprensa japonesa usa as duas, às vezes para o mesmo nome. Nossa ferramenta mostra a forma fonética como principal e a ortográfica como variante, porque a primeira reproduz melhor o som e a segunda é a que a pessoa costuma reconhecer.

    Consoante sem vogal: o que fazer

    O japonês só tem sílabas abertas, mais o ン solto. Toda consoante encalhada precisa de uma vogal de apoio, e a escolha dela é convenção firme:

    Consoante Vogal de apoio Exemplo
    t, d o Robert → ロベルト
    k, g, b, p, f, v, m, s, z u Marcos → マルコス
    ch, j i March → マーチ
    l, r u Gabriel → ガブリエル

    O t e o d pegam o em vez de u porque トゥ e ドゥ não existiam no japonês tradicional — ト e ド são a solução histórica, e ficou.

    Os dois lugares onde a regra sozinha não basta

    Nossa checagem em 72 nomes brasileiros deu 78% de acerto só com regra. Os 22% restantes não são um problema, são dois problemas diferentes:

    Resultado da checagem das regras em 72 nomes brasileiros
    Setenta e dois nomes conferidos à mão: o que saiu só de regra e o que precisou de dicionário.

    Vogal longa que a escrita portuguesa não registra. “Vitória” tem uma sílaba tônica longa e se escreve ヴィトーリア, com o traço de alongamento. “Vinícius”, que tem estrutura idêntica, não alonga: ヴィニシウス. Não há regra que preveja isso — o alongamento é lexical, decidido caso a caso pelo uso japonês. Aqui o dicionário completa a regra e ganha dela.

    Grafia consagrada pela imprensa. Nomes de gente famosa entraram no japonês por uma grafia específica, que às vezes contraria a regra. Quando isso acontece, a regra continua certa e a forma da imprensa aparece ao lado, identificada. Não faz sentido esconder nenhuma das duas.

    Como conferir o seu

    A ferramenta em nome em japonês aplica tudo isto e mostra as etapas: a divisão silábica, qual regra pegou em cada pedaço, o romaji de volta e a variante quando existe. Se o resultado surpreender, dá para ver exatamente onde a decisão foi tomada.

    Para entender por que o katakana é o silabário desta tarefa e não o hiragana, o texto é katakana e hiragana. Se o que você quer é o nome em ideogramas e não em kana, o caminho é ateji. E se o nome em questão for um sobrenome japonês de família nikkei, nada disto se aplica — vá direto para sobrenome nikkei. O panorama geral está em seu nome em japonês.

  • Katakana e hiragana: qual é a diferença e quando se usa cada um

    Katakana e hiragana: qual é a diferença e quando se usa cada um

    Os dois silabários japoneses escrevem exatamente os mesmos sons. Não há um som que o hiragana consiga registrar e o katakana não, nem o contrário. か e カ são o mesmo ka. の e ノ são o mesmo no.

    Então por que existem dois? Porque a escolha entre eles não é de pronúncia — é de função. O japonês usa a forma da letra para dizer coisas que o português precisa de itálico, aspas e maiúscula para dizer.

    A divisão básica

    Hiragana ひらがな Katakana カタカナ
    Traço Curvo, arredondado Reto, anguloso
    Origem Kanji escrito em cursiva Pedaço de um kanji
    Escreve Gramática e palavras japonesas Palavras vindas de fora
    Sensação Familiar, doméstico Moderno, técnico, importado

    O hiragana faz o trabalho pesado da língua: as terminações de verbo, as partículas que marcam sujeito e objeto, as palavras que não têm kanji ou cujo kanji é raro demais. Numa frase japonesa comum ele é a maior parte do texto.

    O katakana faz um trabalho mais estreito, mas muito visível — e é por causa dele que este site existe, já que todo nome estrangeiro se escreve em katakana.

    O que cada um dos dois silabários japoneses escreve
    Os mesmos sons em ambos; o que muda é o tipo de palavra que cada um recebe.

    Onde vai katakana

    1. Palavras estrangeiras. コーヒー (kōhī, café), パン (pan, pão — do português), テレビ (terebi, televisão).
    2. Nomes de pessoas e lugares de fora. ブラジル (Brasil), サンパウロ (São Paulo), マリア (Maria).
    3. Onomatopeia. ドキドキ (coração batendo), ザーザー (chuva forte). Assunto de onomatopeias do mangá.
    4. Nomes científicos de plantas e animais. Mesmo os nativos: ネコ para gato, em texto de biologia, ainda que o normal seja 猫 ou ねこ.
    5. Ênfase. Uma palavra japonesa escrita em katakana no meio da frase funciona como o nosso itálico.
    6. Marcas e produtos. Boa parte das empresas japonesas escreve o próprio nome em katakana por decisão de identidade visual.
    7. Telegramas e sistemas antigos. Registro que sobrevive em documento oficial e em máquina velha, onde às vezes só há katakana disponível.

    A parte que ninguém explica: os dois vieram do kanji

    Antes do século IX o japonês não tinha escrita própria. Escrevia-se em chinês, ou usava-se kanji pelo som, ignorando o sentido — o mesmo princípio do ateji, aplicado à língua inteira. Esse sistema chamava-se man’yōgana, e era um horror de aprender: dezenas de ideogramas complicados para um punhado de sons.

    Daí saíram os dois silabários, por caminhos diferentes:

    Hiragana nasceu de escrever esses kanji depressa. A cursiva foi simplificando o traço até sobrar um desenho fluido. 安 (an) virou あ. 以 (i) virou い. 加 (ka) virou か. Por ter sido usado sobretudo por mulheres da corte de Heian — que não recebiam a educação em chinês clássico dada aos homens —, ficou conhecido como onnade, “mão de mulher”. A maior obra da literatura japonesa clássica foi escrita nele.

    Katakana nasceu de outro problema. Monges budistas liam texto em chinês e precisavam anotar, nas margens apertadas, como se pronunciava e em que ordem ler. Não havia espaço para nada elaborado, então eles arrancavam um pedaço do kanji e usavam só ele. 加 perdeu tudo menos o lado esquerdo e virou カ. 多 virou タ. 千 virou チ. O nome diz isso: kata (片) é “parte”, “fragmento”.

    Um veio da pressa de escrever bonito, o outro da pressa de anotar na margem. Mil anos depois, um continua sendo a letra doméstica e o outro, a letra do que vem de fora — e a diferença de temperamento entre os traços ainda se sente.

    Sobre por que os dois silabários parecem tão diferentes

    Por que nome estrangeiro vai em katakana

    Não é regra de gramática nem lei. É convenção, e ela é firme.

    O katakana marca a palavra como vinda de fora, e essa marcação é informação útil na leitura corrida. O japonês não usa espaço entre palavras — a frase é um bloco contínuo. A alternância entre kanji, hiragana e katakana é o que faz o olho reconhecer onde uma palavra termina e a outra começa. Quando aparece um bloco de katakana no meio do texto, o leitor japonês já sabe, antes de ler: isto é nome próprio estrangeiro, ou palavra importada, ou som.

    É por isso que ver o próprio nome em katakana é a experiência que é: você está sendo lido como estrangeiro, visualmente, antes de a pessoa sequer chegar ao som. É também o que faz um sobrenome nikkei ser caso à parte — Watanabe, escrito em katakana, seria estranho, porque não é palavra estrangeira: é japonesa, e vai em kanji.

    Os pares de kana que mais se confundem
    Os pares que derrubam quem está começando — e a diferença mínima entre eles.

    Os que se parecem demais

    Aprender os dois silabários leva algumas semanas. O que atrapalha não é a quantidade — são 46 sinais básicos em cada — mas alguns pares que diferem por muito pouco:

    • シ e ツshi e tsu. A diferença é a direção dos traços curtos e a inclinação do longo. O de シ vem de baixo para cima; o de ツ, de cima para baixo.
    • ソ e ンso e n. Mesmo problema, mesma solução.
    • ク e タku e ta. O タ tem um traço a mais.
    • コ e ユko e yu. Abertura para lados opostos.
    • ね, れ, わ — em hiragana, três parentes próximos que se resolvem olhando o final do traço.
    • る e ろ — o laço no fim existe em um e não no outro.

    Todo curso recomenda começar pelo hiragana, e a recomendação faz sentido: ele aparece mais e é indispensável para ler qualquer coisa. Mas para quem vai ao Japão a passeio, o katakana rende mais rápido — cardápio, placa de estação, nome de produto e boa parte do que interessa a turista está em katakana, e muito disso é palavra que você já conhece em inglês.

    Os sinais extras que valem conhecer

    • Dakuten (゛) — duas aspinhas que sonorizam: カ ka vira ガ ga, サ sa vira ザ za, タ ta vira ダ da.
    • Handakuten (゜) — bolinha que transforma a série H em P: ハ ha vira パ pa.
    • O kana pequeno — ャ, ュ, ョ escritos em corpo menor grudam na sílaba anterior: キ + ャ = キャ kya. É como se escreve boa parte dos sons que o português tem e o japonês não tinha.
    • O ッ pequeno — dobra a consoante seguinte. ラリッサ é “Larissa” com o ss preservado.
    • O traço ー — alonga a vogal, e existe só em katakana. コーヒー tem duas vogais longas. Em hiragana o alongamento se escreve repetindo a vogal.

    Esse último merece atenção especial de quem tem sobrenome japonês: o alongamento é justamente o que se perdeu quando os nomes foram registrados no alfabeto português. “Ohara” e “Ōhara” viraram a mesma coisa no papel, e são nomes diferentes.

    Por onde começar

    1. Hiragana primeiro, cinco sinais por dia, escrevendo à mão. Escrever fixa muito mais do que reconhecer.
    2. Katakana depois, e mais rápido, porque a estrutura já é conhecida.
    3. Leia rótulo de produto japonês. É o exercício mais eficiente que existe: quase tudo é katakana e quase tudo é palavra estrangeira que você já sabe.
    4. Ordem dos traços desde o primeiro dia. Consertar depois é bem pior do que aprender certo — o motivo está em caligrafia japonesa.
    5. Só então o kanji. E aí o assunto passa a ser por que um kanji tem várias leituras.

    Para ver os dois sistemas funcionando com o seu próprio nome, o caminho curto é seu nome em japonês — e a ferramenta em nome em japonês mostra a divisão silábica sinal por sinal.

  • Seu nome em japonês: katakana, kanji e o que muda entre os dois

    É provavelmente a primeira pergunta que qualquer brasileiro faz sobre a língua japonesa: como se escreve o meu nome? E a resposta honesta é que existem duas, elas produzem resultados completamente diferentes, e a maior parte do que circula na internet mistura as duas sem avisar.

    Uma escreve como o seu nome soa. A outra inventa um significado que ele nunca teve. Saber qual das duas você quer resolve noventa por cento da confusão.

    As três escritas, em trinta segundos

    O japonês usa três sistemas ao mesmo tempo, na mesma frase, sem separação:

    • Hiragana (ひらがな) — silabário de traços curvos. Escreve a gramática japonesa e as palavras nativas.
    • Katakana (カタカナ) — silabário de traços retos. Escreve o que vem de fora: palavras estrangeiras, nomes estrangeiros, marcas, sons.
    • Kanji (漢字) — ideogramas importados da China. Cada um carrega sentido, não só som.

    Os dois primeiros são fonéticos: representam som, como o nosso alfabeto. O terceiro é semântico: representa ideia. A diferença entre as duas respostas à sua pergunta está exatamente aí. Se essa distinção ainda estiver embaçada, o lugar de resolvê-la é katakana e hiragana.

    As duas maneiras de escrever um nome estrangeiro em japonês
    Uma escreve o som; a outra escolhe um sentido. Servem para coisas diferentes.

    Resposta 1: katakana — o seu nome como ele soa

    Esta é a resposta correta no sentido prático da palavra. É o que um japonês escreveria no seu crachá, o que sai no seu visto, o que vai no formulário do hotel, o que a professora de japonês escreveria no quadro.

    O procedimento é o seguinte: pega-se a pronúncia do nome e reescreve-se essa pronúncia com as sílabas de que o japonês dispõe.

    Nome Katakana Lido de volta
    João ジョアン jo-a-n
    Thiago チアゴ chi-a-go
    Rodrigo ホドリゴ ho-do-ri-go
    Beatriz ベアトリス be-a-to-ri-su
    Larissa ラリッサ ra-ri-s-sa
    Guilherme ギリェルミ gi-rye-ru-mi

    Duas coisas saltam à vista nessa tabela, e ambas incomodam quem vê pela primeira vez.

    Primeira: Rodrigo começa com H. Não é erro. O r inicial do português brasileiro é uma fricativa de garganta — o mesmo som que abre “rato” e “carro”. A série japonesa ラリルレロ é uma vibrante de ponta de língua, o som do r de “caro”. Escrever ロドリゴ faria um japonês pronunciar algo próximo de “Caro-drigo”. A série ハヒフヘホ chega bem mais perto.

    Segunda: Thiago começa com CHI, não TI. O brasileiro palataliza: ti soa “tchi” e di soa “dji” em quase todo o país. チ é exatamente o som “tchi”. Escrever ティアゴ é transcrever o português europeu, onde a palatalização não acontece.

    Essa é a diferença que separa uma transcrição feita para o Brasil de uma copiada do inglês ou do espanhol. As regras completas, com o porquê fonético de cada uma, estão em do português brasileiro para o katakana.

    O katakana não escreve as letras do seu nome. Escreve a sua boca dizendo o seu nome. Por isso a grafia portuguesa some no caminho e por isso dois nomes escritos diferente podem cair no mesmo katakana.

    Sobre por que a transcrição parte do som e não da escrita

    Resposta 2: kanji — o nome com significado

    Esta é a que todo mundo quer de verdade, e é aqui que é preciso ter cuidado.

    Dá para escrever um nome estrangeiro com ideogramas escolhidos pelo som, ignorando o sentido de cada um. A prática existe, é antiga e tem nome próprio: ateji (当て字), literalmente “caracteres aplicados”. Foi assim que o japonês escreveu Brasil (伯剌西爾) e América (亜米利加) antes de o katakana assumir essa função.

    O que acontece na prática: cada sílaba do seu nome recebe um ideograma que se lê daquele jeito e que, de preferência, signifique alguma coisa agradável. Ana pode virar 亜奈, Marina pode virar 真里奈, Lucas pode virar 瑠久須.

    E aqui vem o aviso que quase nunca acompanha esse tipo de conteúdo: isso não é a tradução do seu nome. É um jogo de sons ao qual se pendura um sentido depois. Um japonês que lê 真里奈 não pensa “verdade-aldeia-Nara” — lê “Marina” e entende que é nome de mulher. O significado dos ideogramas é decorativo, e todo mundo sabe disso.

    O procedimento inteiro, com a tabela de ideogramas usados para cada sílaba e a lista do que dá errado quando se escolhe sem critério, está em ateji: seu nome em kanji.

    Comparação entre transcrição em katakana e ateji em kanji
    A escolha depende do uso: documento e convívio pedem katakana; kanji é para peça decorativa.

    Qual das duas você quer

    1. Vai a trabalho, a estudo ou a passeio ao Japão? Katakana. É o que a burocracia espera e o que as pessoas vão ler.
    2. Vai fazer um carimbo pessoal, o hanko? Katakana também. Estrangeiro residente no Japão registra carimbo em katakana sem problema nenhum.
    3. Quer tatuar? Leia tatuagem em japonês antes de qualquer outra coisa. As duas opções servem, e as duas têm armadilhas diferentes.
    4. Quer só a curiosidade, ou uma peça decorativa? Aí o ateji é mais bonito e mais interessante — desde que você saiba que é um jogo.
    5. Tem sobrenome japonês na família? Caso completamente diferente, e o mais malfeito de todos por aí. Vai para sobrenome nikkei.

    O caso brasileiro que os sites estrangeiros erram

    Vale insistir neste ponto porque ele é a razão de existir de boa parte do que publicamos aqui.

    O Brasil tem a maior população de origem japonesa fora do Japão. São cerca de dois milhões de pessoas, e uma parcela enorme delas carrega um sobrenome japonês escrito com o alfabeto português: Watanabe, Sato, Yamamoto, Higa, Oshiro, Nakamura.

    Se você jogar “Watanabe” em qualquer conversor de nomes da internet, vai receber ワタナビ. Está errado. O sobrenome é 渡辺 e se lê ワタナベ, com be, porque é uma palavra japonesa de verdade e não uma sequência de letras a ser adivinhada. “Sato” devolve サト, e o correto é 佐藤 サトウ, com a vogal longa que o alfabeto português nunca registrou.

    A regra de transcrição, aplicada a esses nomes, produz sistematicamente a resposta errada — e é justamente aí que ela é mais consultada, porque é o nikkei brasileiro quem mais procura. É por isso que nossa ferramenta de sobrenomes não usa regra nenhuma: ela reconhece o sobrenome e devolve o ideograma, a leitura e o significado.

    Erros que se repetem

    • Transcrever letra por letra. O h de “Thiago” não vira nada, o s de “José” não é a mesma coisa que o de “Sara”, e o x muda de som conforme a posição.
    • Usar a regra do espanhol. Aparece muito porque a maioria dos conversores é hispano-americana. Espanhol não palataliza ti nem nasaliza ão.
    • Achar que o kanji “traduz” o nome. Traduzir “Vitória” por 勝利 (shouri, vitória) resulta numa palavra japonesa que ninguém usa como nome, e que um japonês leria como substantivo comum.
    • Confiar em imagem de rede social. A maior parte das tabelas de “seu nome em japonês” que circulam é de “letra A = カ, letra B = ト” — pura invenção, e o resultado não se lê de jeito nenhum.
    • Esquecer que existe variação. Alguns nomes têm mais de uma transcrição defensável, e nomes de gente famosa costumam ter uma grafia consagrada pela imprensa japonesa que ganha da regra.

    O que a ferramenta do site faz

    Montamos a nossa própria porque nenhuma das existentes partia do português brasileiro. Ela funciona em três etapas, e mostra todas:

    1. Separa o nome em sílabas e acha a tônica, seguindo as regras de acentuação do português.
    2. Converte para sons brasileiros — palatalização, vogal final reduzida, l no fim de sílaba virando semivogal, nasais.
    3. Escreve esses sons em katakana, com a explicação de cada pedaço.

    Ela mostra a divisão silábica, o romaji de volta, a variante quando existe, e — se o nome estiver na base de sobrenomes nikkeis — o ideograma com o significado. Está em nome em japonês, e são pouco mais de trezentos nomes já prontos, além de aceitar qualquer nome digitado.

    Se o que você quer é entender por que o mesmo ideograma aparece com leituras diferentes em cada nome, o caminho é por que um kanji tem várias leituras. E se a intenção é escrever à mão, comece por caligrafia japonesa, onde a ordem dos traços é explicada antes de qualquer pincel.