Contadores japoneses: por que dois não é sempre dois

Contadores japoneses: por que dois não é sempre dois

Existe uma dificuldade do japonês que quase nunca aparece nas listas de “o que é difícil”, e que na prática atrapalha mais que o kanji no dia a dia: não dá para dizer “dois” sem saber o formato do objeto.

Dois lápis, duas folhas, duas pessoas, dois gatos e dois copos usam cinco palavras diferentes para o número dois. E não há como escapar: contar é coisa que se faz o tempo todo.

Como funciona

Em japonês, o número não gruda direto no substantivo. Entre eles entra um contador — um sufixo que classifica o tipo de coisa contada.

O português tem um vestígio disso, e ele ajuda a entender: dizemos duas folhas de papel, três cabeças de gado, quatro fatias de pão. A diferença é que em japonês isso não é opção estilística, é obrigatório para tudo.

Contador Serve para Exemplo
hon coisas longas e finas lápis, garrafa, guarda-chuva, dedo, trem
mai coisas planas e finas papel, prato, camiseta, ingresso, selo
ko coisas pequenas e compactas ovo, maçã, pedra, sabonete
nin pessoas três pessoas, cinco alunos
hiki animais pequenos gato, cachorro, peixe, inseto
animais grandes vaca, cavalo, elefante
dai máquinas e veículos carro, geladeira, computador
satsu coisas encadernadas livro, revista, caderno
hai copos e tigelas cheios água, café, arroz, ramen
chaku roupas de vestir terno, casaco, quimono

São dezenas ao todo, e há listas com mais de quinhentos — mas a lista longa é curiosidade. Dez resolvem o cotidiano, e é neles que vale gastar memória.

Os contadores japoneses mais usados e o que cada um classifica
O critério é a forma do objeto, não a categoria: comprido, plano, compacto, vivo, encadernado.

A parte que dá trabalho: o som muda

Se fosse só escolher o contador, seria fácil. O problema é que o número e o contador se fundem foneticamente, e o resultado nem sempre é previsível.

Com 本 (hon), por exemplo:

  • 1 — ippon (não “ichihon”)
  • 2 — nihon
  • 3 — sanbon (h vira b)
  • 4 — yonhon
  • 6 — roppon
  • 8 — happon
  • 10 — juppon

O padrão existe: as mudanças acontecem quase sempre em 1, 3, 6, 8 e 10, e afetam contadores que começam com h, k, s e t. Não é caos, é um punhado de regras fonéticas — mas na prática se decoram as séries, não as regras.

Consolo: os japoneses também hesitam. Diante de um objeto de formato incomum, é normal um japonês parar meio segundo para decidir o contador, e há discussão genuína sobre casos-limite.

A saída de emergência

Existe, e é boa notícia para quem está começando: a contagem nativa, que vai de um a dez e serve para praticamente qualquer coisa quando você não sabe o contador certo.

  • 一つ hitotsu, 二つ futatsu, 三つ mittsu, 四つ yottsu, 五つ itsutsu
  • 六つ muttsu, 七つ nanatsu, 八つ yattsu, 九つ kokonotsu, 十 tō

Apontar para o que quer e dizer futatsu kudasai — “dois, por favor” — funciona em qualquer balcão do Japão. Não é elegante para tudo, mas é sempre compreensível, e resolve a viagem inteira. Está no livro de frases, na seção de números.

Limitação: só vai até dez. Acima disso, é preciso o contador — ou o gesto.

Pessoas: os dois irregulares que você usa todo dia

O contador de gente é 人 (nin), e ele é regular a partir de três. Os dois primeiros não são:

  • 1 pessoa — 一人 hitori
  • 2 pessoas — 二人 futari
  • 3 pessoas — 三人 sannin, e daí em diante segue o padrão

Repare que hitori e futari vêm da contagem nativa, não do sistema chinês. São palavras antigas que sobreviveram justamente por serem as mais usadas — o mesmo fenômeno que preserva “sou” e “fui” irregulares em português.

Vale decorar essas duas antes de qualquer outra coisa desta página: futari desu, “somos dois”, é a primeira frase de todo restaurante japonês.

Como os japoneses lidam com a dúvida

Três estratégias reais, e todas estão disponíveis para você:

1. Usam 個 quando não sabem. É o contador mais genérico para objeto pequeno, e passa em quase tudo.

2. Usam a contagem nativa. Mesma saída da seção anterior.

3. Apontam. これ (isto) mais o número resolve, e ninguém julga.

O contador japonês parece um obstáculo enorme até você perceber que ele é o mesmo mecanismo de “duas fatias de pão” — só que obrigatório. A dificuldade não é conceitual: é de volume, e volume se resolve com os dez que aparecem todo dia.

Sobre o tamanho real do problema

Os que você vai encontrar sem estudar

Alguns contadores aparecem tanto que valem por si:

  • en — iene. 千円 mil ienes. Escreve-se ¥ e diz-se en, não “ien”.
  • 時 / 分 ji / fun — horas e minutos. 七時 sete horas, 十分 dez minutos.
  • nichi / ka — dias do mês, com uma série irregular no começo que se decora aos poucos.
  • kai — andares. Útil em prédio e loja de departamentos.
  • haku — noites de hospedagem. 二泊 duas noites, e é o que o hotel vai perguntar.
  • 名様 meisama — pessoas, na forma respeitosa. É o que o restaurante usa: 何名様ですか, “quantas pessoas?”.
Como o som do número muda ao se juntar ao contador
As alterações se concentram em 1, 3, 6, 8 e 10 — o resto costuma ser regular.

Como perguntar “quantos?”

Metade do uso real de contador não é dizer o número — é perguntar por ele, ou entender a pergunta que te fizeram. E a construção é regular: basta trocar o número por (nan), que significa “quanto”.

  • 何人 nannin — quantas pessoas?
  • 何枚 nanmai — quantas folhas, quantos ingressos?
  • 何本 nanbon — quantas garrafas, quantos lápis?
  • 何冊 nansatsu — quantos livros?
  • 何時 nanji — que horas?
  • 何泊 nanpaku — quantas noites?
  • いくつ ikutsu — quantos, na contagem nativa. Serve quando você não sabe o contador

Duas dessas você vai ouvir antes de precisar dizer, e vale reconhecê-las de imediato:

何名様ですか nanmeisama desu ka — “quantas pessoas?”, na porta do restaurante. É a forma respeitosa de 何人. A resposta é futari desu, hitori desu, sannin desu.

何泊ですか nanpaku desu ka — “quantas noites?”, no balcão do hotel. A resposta é nihaku, duas noites, e assim por diante.

As duas estão no livro de frases, nas seções de restaurante e de hotel, junto com o resto do que se ouve nesses dois balcões.

Por onde começar

Sugestão de ordem, por retorno imediato:

  1. A contagem nativa até dez — a saída de emergência universal.
  2. , com hitori e futari — restaurante, hotel, ingresso.
  3. 円, 時, 分 — dinheiro e hora.
  4. 枚, 本, 個 — os três que cobrem a maior parte dos objetos.
  5. 杯, 台, 冊, 匹 — depois, quando a conversa já flui.

E vale a mesma advertência das partículas: contador não se aprende por tabela, se aprende por frase inteira. Ninguém escolhe o contador raciocinando no meio do pedido — escolhe por reconhecimento, do jeito que você diz “uma fatia de bolo” sem pensar em classificação de substantivo.

O caminho completo do estudo está em aprender japonês do zero, e a outra dificuldade da mesma família — a que também não tem paralelo em português — está em as partículas wa, ga e no.

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