Mês, dia e hora: os outros três animais que você tem

“Eu sou do Tigre, mas não tenho nada de tigre.” É a frase mais comum em qualquer conversa sobre zodíaco chinês, e ela tem uma resposta dentro da própria tradição: o animal do ano é um de quatro.

Existe também o animal do mês, o do dia e o da hora. Na leitura tradicional séria, os quatro juntos é que formam o mapa — e o do ano é justamente o menos determinante deles.

Os quatro pilares

O sistema chama-se bāzì (八字) na China, “oito caracteres”, e shichū suimei (四柱推命) no Japão, “estimar o destino pelos quatro pilares”.

Cada pilar é um par: um tronco celeste e um ramo terrestre — os mesmos que formam o ciclo de sessenta explicado em os cinco elementos e o ciclo de sessenta. Quatro pilares, dois caracteres cada: oito caracteres. Daí o nome.

Pilar Do quê Na leitura tradicional representa
Ano o ano de nascimento família, origem, a imagem externa
Mês o mês solar trabalho, formação, o ambiente
Dia o dia a própria pessoa e o cônjuge
Hora a hora dupla do nascimento o que é privado, os filhos, a velhice

Repare no que a tabela diz: o pilar considerado mais importante é o do dia, não o do ano. O animal que todo mundo conhece — o do ano — é lido como a camada mais superficial, a de fora. Isso sozinho já explica boa parte do desencontro entre a pessoa e o próprio signo popular.

Os quatro pilares do mapa chinês de nascimento
Ano, mês, dia e hora — e o do ano, que é o famoso, é o menos determinante dos quatro.

O animal da hora

É o mais fácil de descobrir e o mais divertido, porque não exige tabela nenhuma.

O dia chinês se divide em doze horas duplas, cada uma de duas horas do relógio, cada uma com o seu ramo:

Horário Animal Horário Animal
23h – 01h Rato 子 11h – 13h Cavalo 午
01h – 03h Boi 丑 13h – 15h Cabra 未
03h – 05h Tigre 寅 15h – 17h Macaco 申
05h – 07h Coelho 卯 17h – 19h Galo 酉
07h – 09h Dragão 辰 19h – 21h Cão 戌
09h – 11h Serpente 巳 21h – 23h Porco 亥

Duas coisas valem notar.

O dia começa às 23h, não à meia-noite. A hora do Rato é a que atravessa a virada, e o dia chinês muda no meio dela. Quem nasceu às 23h30 nasceu, para este sistema, no dia seguinte.

O ideograma 午 é o do meio-dia. A hora do Cavalo cobre das 11h às 13h, e é de onde vem a palavra japonesa gogo (午後), “tarde” — literalmente “depois do cavalo”. E também shōgo (正午), “meio-dia exato”. Quem estuda japonês usa esses ramos toda semana sem saber.

Sobra ainda o ushimitsu-doki (丑三つ時), “o terceiro quarto da hora do Boi”, entre duas e duas e meia da madrugada. É a hora em que, em qualquer história de fantasma japonesa, as coisas aparecem — e é uma expressão que qualquer japonês entende.

O animal do mês, e a terceira data de virada

Aqui aparece uma complicação honesta, que a maioria dos textos em português omite.

Os meses do mapa não são os meses do calendário nem os meses lunares: são os doze meses solares, delimitados pelos termos solares do calendário chinês. O primeiro mês começa em lichun (立春), “o início da primavera”, que cai por volta de 4 de fevereiro, e é o mês do Tigre 寅.

E aqui está a consequência que causa discussão: na tradição dos quatro pilares, o ano também vira em lichun — não no Ano-Novo lunar. Isso significa que existe uma terceira resposta possível para “qual é o meu signo”:

  • Ano civil — vira em 1º de janeiro. É o que o Japão usa desde 1873, o etō.
  • Ano lunar — vira entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro. É o do Ano-Novo chinês e o que a cultura popular usa.
  • Ano solar — vira em lichun, por volta de 4 de fevereiro. É o dos quatro pilares.

As três estão em uso, cada uma no seu contexto. Quem nasceu entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro pode, dependendo da contagem, ter até dois animais diferentes — e nenhum deles é errado. A conferência pela contagem popular está em signo chinês: qual é o seu.

Três datas de virada, quatro pilares, dez troncos e doze ramos. O sistema que o Ocidente conhece como “doze bichinhos” é a superfície de uma máquina de calendário — e a superfície foi feita justamente para ser fácil de lembrar.

Sobre o que a versão popular deixou de fora

O pilar do dia, e por que não damos uma tabela

O animal do dia é o que a tradição considera mais importante, e é o único dos quatro que não dá para calcular de cabeça.

Os dias seguem o ciclo de sessenta ininterruptamente, um a um, sem reiniciar em ano novo nenhum — é uma contagem contínua que atravessa séculos. Para saber o pilar de um dia específico é preciso consultar uma efeméride, e um cálculo aproximado erra.

Não vamos publicar uma tabela de dias aqui porque ela ocuparia dezenas de páginas e porque, sinceramente, seria dar aparência de precisão a algo que não prevê nada. O que vale saber é que o pilar existe, que é o considerado central, e que qualquer leitura séria de quatro pilares depende dele — o que já explica por que a leitura de compatibilidade só pelo ano é considerada grosseira até dentro da própria tradição, como se comenta em compatibilidade entre signos chineses.

As doze horas duplas do dia chinês
Cada bloco de duas horas tem seu ramo — e o dia começa às 23h, não à meia-noite.

Onde isso é usado hoje

Os quatro pilares continuam sendo consultados na China, em Taiwan, em Hong Kong, na Coreia — onde o sistema se chama saju e é bastante popular entre jovens — e no Japão, onde o shichū suimei convive com outros métodos de adivinhação.

Uso mais frequente: escolha de datas. Selecionar o dia de um casamento, de uma mudança ou da inauguração de um negócio a partir do mapa dos envolvidos é uma prática comum e um serviço pago. É provavelmente a aplicação com mais dinheiro envolvido em toda a tradição.

A ressalva de sempre

Nada disso prevê nada. Não há mecanismo conhecido pelo qual a hora de nascimento influencie temperamento ou destino, e este site não escreve como se houvesse.

O que os quatro pilares são: um sistema simbólico de considerável elegância formal, com dois milênios de uso e uma estrutura interna coerente. Vale conhecer pelo mesmo motivo que vale conhecer um calendário antigo ou um sistema de escrita — porque explica como um pedaço grande do mundo organizou o tempo, e porque isso ainda aparece na língua, na arquitetura e nas histórias de fantasma.

Para os doze animais com ideograma e anos, os doze signos, um a um. Para a origem dos ramos antes dos bichos, de onde vieram os doze animais. E para a comparação com o zodíaco que o Brasil conhece melhor, signo chinês e signo ocidental.

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