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  • Comida nipo-brasileira: o que o Brasil inventou sozinho

    Peça um temaki num restaurante de Tóquio e o garçom vai entender — temaki existe lá, é um cone de alga enrolado à mão, servido em balcão de sushi, comido na hora antes de a alga murchar. Depois peça um temaki de salmão com cream cheese, e grande, e a conversa acaba.

    Esse prato não é japonês. É brasileiro, nasceu em São Paulo e não existe no Japão. E ele é só um item de uma cozinha inteira que o Brasil inventou a partir da japonesa — legítima, saborosa, e frequentemente vendida como se fosse tradicional.

    Como se formou uma cozinha nova

    A comida nipo-brasileira nasceu de três pressões simultâneas, todas elas consequência direta da história contada em imigração japonesa no Brasil.

    Primeira: faltava ingrediente. Os imigrantes do começo do século não tinham missô, shōyu, dashi nem o arroz certo. Fabricaram o que deu — houve produção caseira de missô e de shōyu no interior paulista muito antes de existir importação regular.

    Segunda: sobrava ingrediente brasileiro. Peixe de água doce, carne bovina barata, frutas tropicais, mandioca. Uma cozinha se adapta ao que o mercado tem.

    Terceira, e mais decisiva: o público mudou. Até os anos 1970, restaurante japonês no Brasil servia japoneses. A partir dos anos 1980 o público virou brasileiro, e o brasileiro tem outro paladar: gosta de mais gordura, mais açúcar, mais sal e porções maiores. O cardápio seguiu o cliente.

    As três forças que criaram a cozinha nipo-brasileira
    Falta de ingrediente, abundância local e mudança de público: as três pressões que reescreveram o cardápio.

    O que o Brasil inventou

    Temaki grande

    No Japão o temaki é um item entre outros, de tamanho modesto. No Brasil virou refeição inteira, com recheio farto, e ganhou uma casa própria: a temakeria, formato de restaurante que não existe no Japão.

    Salmão em tudo

    O salmão que o Brasil consome é de cativeiro, chileno ou norueguês, e sua entrada no sushi é um fenômeno recente no próprio Japão — resultado de uma campanha comercial norueguesa dos anos 1980 e 90. No Brasil ele não entrou: dominou. Em boa parte dos rodízios, salmão é mais da metade do que sai.

    Cream cheese

    O Philadelphia roll nasceu nos Estados Unidos, chegou ao Brasil e aqui se espalhou por todo o cardápio. Não existe cream cheese em sushi tradicional japonês, e a maior parte dos chefs japoneses acha a combinação estranha. O brasileiro não acha, e o mercado deu a resposta.

    Hot roll

    Sushi empanado e frito. É brasileiro, com influência americana, e provavelmente o item mais distante da referência original em todo o cardápio.

    Yakisoba de festa

    O yakisoba japonês é comida de barraca, com macarrão de trigo, molho próprio e repolho. O brasileiro tem brócolis, cenoura, vagem, molho escuro adocicado e frango e carne juntos, servido em quantidade generosa. É o prato que mais sai em festa de comunidade, inclusive no Festival do Japão, e é uma criação daqui.

    Sushi doce e o rodízio

    Sushi de morango, de manga, com leite condensado. E o rodízio — que talvez seja a invenção brasileira mais radical de todas, porque contraria a lógica do balcão de sushi, onde o itamae serve peça a peça no ritmo do cliente.

    No Brasil No Japão
    Temaki como refeição, temakeria Temaki pequeno, item de balcão
    Salmão dominando o cardápio Salmão presente, mas um peixe entre muitos
    Cream cheese em várias peças Não existe
    Hot roll frito Não existe
    Rodízio Kaiten-zushi (esteira), que é outra coisa
    Yakisoba com brócolis e dois tipos de carne Yakisoba de barraca, com repolho
    Shimeji na manteiga com shōyu Não é prato japonês

    O que é japonês de verdade e passa despercebido

    O outro lado da moeda: há coisas no Brasil que são autenticamente japonesas e que o público nem registra como tal.

    • Manjū e mochi — doces vendidos há décadas nas feiras da Liberdade e nas festas de colônia.
    • Missoshiru feito em casa, com dashi de verdade — comum na mesa das famílias nikkeis, raro no restaurante.
    • Tsukemono — as conservas. Quase nenhuma família nikkei brasileira passa sem, e quase nenhum cardápio de rodízio tem.
    • Sobá de Okinawa, que é caso à parte e está no parágrafo seguinte.

    O sobá de Campo Grande

    É o exemplo mais interessante de todos, porque não é adaptação para o paladar brasileiro: é uma comida regional japonesa que virou comida regional brasileira.

    O sobá okinawano — macarrão de trigo em caldo de porco, que apesar do nome não leva trigo-sarraceno — chegou a Campo Grande com imigrantes de Okinawa, entrou na Feira Central da cidade e virou comida de rua da população inteira, muito além da comunidade. Hoje é patrimônio cultural imaterial do município.

    Você pede sobá em Campo Grande e recebe uma tigela que não é exatamente a de Okinawa nem a de São Paulo. É sul-mato-grossense. A história da comunidade que trouxe esse prato está em os okinawanos no Brasil.

    Pratos nipo-brasileiros e seus equivalentes japoneses
    Onde o Brasil inventou, onde adaptou e onde manteve a receita original.

    Restaurante japonês no Brasil não serve comida japonesa há quarenta anos. Serve comida nipo-brasileira, que é outra coisa e é boa — o problema é só o cardápio insistir em chamá-la de tradicional.

    Sobre o que se come de fato num rodízio brasileiro

    Os números que explicam o tamanho disso

    O Brasil tem hoje mais restaurantes japoneses do que qualquer outro país fora do Japão, e em São Paulo o restaurante japonês superou o italiano em número há décadas. Um país que recebeu pouco mais de 240 mil imigrantes japoneses transformou aquela cozinha em categoria de mercado de massa.

    Comparado a outros destinos da mesma diáspora — Peru, Estados Unidos, Argentina —, o caso brasileiro se distingue por uma coisa: aqui a cozinha adaptada não ficou restrita à comunidade. Ela virou comida de brasileiro, sem sobrenome japonês envolvido.

    Como reconhecer o que você está comendo

    Não há nada de errado em comer hot roll. O problema é só quando ele é vendido como “tradição milenar japonesa” — o que costuma vir junto com preço mais alto e reverência desnecessária.

    Um roteiro simples para separar as coisas:

    1. Se leva cream cheese, é adaptação. Regra quase sem exceção.
    2. Se é frito e empanado, é daqui. Tempurá é japonês; sushi frito não.
    3. Se é doce e vem no rodízio, é daqui.
    4. Se o restaurante serve missoshiru de verdade e tem tsukemono no cardápio, provavelmente há alguém na cozinha que come aquilo em casa.
    5. Se você quer o original, procure restaurante de colônia, não restaurante de shopping. Nas cidades do interior descritas em as colônias japonesas do Paraná, e nas ruas laterais da Liberdade, ainda se come a comida que a comunidade come.

    Uma defesa da comida nipo-brasileira

    Vale terminar por aqui, porque a conversa costuma escorregar para o desprezo.

    Toda cozinha que viaja se transforma, e o Japão fez exatamente isso com o que recebeu de fora: o tempurá veio dos portugueses no século XVI, o tonkatsu é uma costeleta empanada europeia, o curry japonês chegou pela marinha britânica, o lamen tem origem chinesa. Todos são hoje inquestionavelmente japoneses.

    O temaki grande com salmão e cream cheese está no mesmo processo, uns cem anos atrás na linha do tempo. Não é japonês — e não precisa ser. É brasileiro, e isso já é uma resposta suficiente.

  • Sushi de verdade: o segredo é o arroz

    Sushi de verdade: o segredo é o arroz

    Comece pelo erro mais básico e mais universal: sushi não significa peixe cru.

    A palavra vem de um adjetivo antigo que significa ácido, avinagrado, e se refere ao arroz. Sushi é arroz temperado com vinagre — o que estiver em cima é acompanhamento.

    Daí decorrem duas coisas que corrigem quase toda confusão: sashimi não é sushi (é peixe fatiado, sem arroz), e existe sushi sem peixe nenhum.

    De onde veio

    A origem é uma técnica de conservação, não de gastronomia.

    O método antigo — o narezushi — consistia em fermentar peixe dentro de arroz por meses. O arroz produzia ácido, o ácido conservava o peixe, e o arroz era descartado. Comia-se o peixe. É o oposto exato do sushi de hoje.

    Com o tempo o tempo de fermentação encurtou, e em algum ponto alguém percebeu que dava para pular a fermentação inteira adicionando vinagre direto no arroz. O resultado era imediato, e o arroz virou parte da comida.

    O formato que conhecemos — a bolinha de arroz com peixe por cima — nasceu em Edo, a atual Tóquio, no começo do século XIX. Chama-se edomae-zushi, “sushi da frente de Edo”, porque o peixe vinha da baía ali mesmo. E era comida de rua: barraca, cliente em pé, bocado servido na hora, comido com a mão.

    Isso significa que o sushi de restaurante caro é uma sofisticação recente de uma comida rápida de duzentos anos atrás.

    Os tipos

    Nome O que é
    Nigiri 握り Bolinha de arroz moldada à mão com o acompanhamento por cima. O clássico
    Maki 巻き Enrolado em alga, cortado em rodelas
    Temaki 手巻き Cone de alga montado à mão, comido na hora
    Gunkan 軍艦 “Navio de guerra”: arroz cercado por alga, com recheio solto em cima
    Chirashi ちらし Tigela de arroz com os acompanhamentos espalhados por cima
    Inari 稲荷 Bolsa de tofu frito adocicado, recheada de arroz. Sem peixe
    Oshizushi 押し Prensado em forma retangular e cortado. Típico de Osaka

    Repare no inari: sushi sem nenhum peixe, doce, barato, vendido em supermercado japonês. Ele sozinho derruba a definição popular.

    O que é sushi e o que não é
    Sushi é o arroz avinagrado. Sem arroz não é sushi — e existe sushi sem peixe.

    O arroz é a parte difícil

    No Japão, o aprendizado de um itamae começa pelo arroz e demora anos antes de chegar ao peixe. Não é folclore: é onde está a técnica.

    O arroz de sushi — shari — é arroz japonês cozido e depois temperado com uma mistura de vinagre de arroz, açúcar e sal, incorporada com movimentos de corte enquanto o arroz esfria, tradicionalmente num alguidar de madeira que absorve a umidade.

    O que se avalia num bom shari:

    • Temperatura próxima à do corpo, não gelada. Arroz de geladeira é o defeito mais comum.
    • Grãos soltos, mas coesos. A bolinha se desfaz na boca e não na mão.
    • Acidez presente e discreta.
    • Compressão mínima. Apertar demais é erro de quem está começando.

    Como cozinhar a base disso está em o arroz japonês — e vale saber que a técnica é a mesma do arroz de todo dia, com o tempero acrescentado depois.

    O salmão é recente, e não é japonês

    Este é o fato que mais surpreende, e ele é bem documentado.

    Salmão cru não fazia parte do sushi tradicional. O salmão do Pacífico, que é o que existia no Japão, apresentava risco parasitário e por isso era consumido salgado ou grelhado, nunca cru.

    O que mudou foi comercial: a Noruega, com excedente de salmão do Atlântico criado em cativeiro — logo, sem aquele risco —, conduziu nas décadas de 1980 e 1990 uma campanha para introduzir o salmão cru no mercado japonês. Levou anos para vencer a resistência dos chefs.

    Funcionou tão bem que hoje o salmão é um dos itens mais pedidos no Japão — e no Brasil virou o peixe padrão, em proporção que não existe lá. A história completa da adaptação brasileira está em comida japonesa no Brasil.

    O item mais associado ao sushi no Brasil foi introduzido no Japão por uma campanha de exportação escandinava, contra a resistência dos próprios chefs japoneses. Tradição culinária é sempre mais recente do que parece.

    Sobre o que se descobre olhando a data

    Como se come

    Sem cerimônia excessiva, mas há alguns pontos reais:

    1. Com a mão é correto. Nigiri se come com a mão no Japão, inclusive em casa boa. Hashi também serve.
    2. Molhe o peixe, não o arroz. Vira-se a peça e encosta-se o lado do peixe no shoyu. Arroz encharcado se desfaz e fica salgado demais.
    3. Não misture wasabi no shoyu. O chef já colocou a quantidade entre o arroz e o peixe. Fazer a pasta no pratinho é hábito ocidental.
    4. Gengibre limpa o paladar entre uma peça e outra. Não é acompanhamento para comer junto.
    5. Uma peça, uma mordida. É o tamanho pensado.
    6. Coma logo. Nigiri tem prazo de minutos, não de meia hora.

    Nada disso vale como julgamento moral. Ninguém no Japão vai corrigir um estrangeiro — o assunto está no espírito de etiqueta japonesa.

    Os tipos de sushi e o que caracteriza cada um
    Sete formatos, e dois deles nem sempre levam peixe.

    O que o Brasil acrescentou

    Sem juízo de valor, só para separar as coisas:

    • Cream cheese. Onipresente aqui, ausente lá.
    • Uramaki, o enrolado com o arroz por fora. É criação da costa oeste americana, e chegou ao Brasil por lá.
    • Hot roll e derivados empanados e fritos.
    • Frutas — manga, morango, maracujá.
    • Cebola crispy, molho tarê em excesso, maionese temperada.
    • O rodízio como formato.

    Uma observação de quem cozinha: o excesso de molho doce por cima costuma existir para compensar arroz frio e sem tempero. Quando o shari está bom, a peça não precisa de cobertura.

    Se você for provar no Japão

    • Sushi de esteira (kaitenzushi) é barato, comum e melhor do que a fama. É onde o japonês come sushi no dia a dia.
    • Balcão de bairro é o meio-termo, e onde a relação entre preço e qualidade costuma ser melhor.
    • Omakase significa “deixo com você”: o chef decide a sequência. É a experiência completa, e é cara.
    • Peça o peixe da estação. O sushi japonês é sazonal, e o cardápio muda ao longo do ano — a mesma lógica de hanami e as estações.
    • Supermercado japonês vende sushi bom, feito no dia, com desconto à noite.

    Para o resto da estrutura da comida japonesa, washoku. Para o caldo que sustenta quase tudo o mais, dashi. E para o formato que o Brasil transformou em restaurante, temaki.