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    Matsuri: o que é um festival japonês de verdade

    Todo mundo já viu imagens: lanternas de papel, barracas de comida, gente de yukata, uma estrutura dourada balançando sobre os ombros de dezenas de pessoas que gritam em uníssono.

    O que quase nenhuma legenda explica é o que está acontecendo ali. E o que está acontecendo é: um deus saiu do santuário para dar uma volta pelo bairro.

    O que é um matsuri

    Matsuri (祭り) vem do verbo matsuru, que significa consagrar, prestar culto a uma divindade. Não é “festa” — é rito, e a festa se formou em volta dele.

    A estrutura básica é a mesma em todo o país:

    1. O kami é convidado a sair. A divindade do santuário local é transferida ritualmente para uma liteira portátil.
    2. A liteira percorre o bairro. Carregada nos ombros, ela passa pelas ruas que estão sob a proteção daquele santuário.
    3. O kami volta. A divindade retorna ao santuário e o rito se encerra.

    Tudo o mais — barracas, música, dança, bebida — é o que cresceu ao redor. Importante e real, mas periférico.

    O mikoshi

    A liteira chama-se mikoshi (神輿), literalmente “veículo do deus”. É um santuário em miniatura, pesado, geralmente dourado e laqueado, com um telhado e às vezes uma fênix no alto.

    Três coisas valem saber:

    Ela é sacudida de propósito. Balançar e sacolejar o mikoshi não é falta de coordenação — acredita-se que a agitação fortalece o kami e espalha sua energia pelo bairro. Quanto mais violento o balanço, melhor.

    Carregar é privilégio e é pesado. Um mikoshi grande passa facilmente de uma tonelada e exige dezenas de pessoas em revezamento. O direito de carregar pertence ao bairro, e a organização é feita pela associação de moradores.

    O grito tem função. “Wasshoi!”, “Soiya!”, “Essa!” — variam por região e servem para sincronizar o passo de gente que não consegue ver os pés.

    Há também os dashi (山車), carros alegóricos com rodas, altos, decorados, às vezes com músicos em cima. Onde o mikoshi é carregado, o dashi é puxado.

    A estrutura de um festival japonês
    O deus sai, percorre o bairro e volta. O resto cresceu em volta disso.

    As barracas

    Os yatai são a parte que todo turista lembra, e o cardápio é bastante fixo em todo o país:

    • Takoyaki — bolinhos de massa com polvo, virados com um palito na chapa de meias-esferas.
    • Yakisoba — macarrão frito na chapa grande, o cheiro que se sente de longe.
    • Okonomiyaki — a panqueca salgada, com molho e katsuobushi por cima.
    • Ikayaki — lula inteira grelhada no espeto.
    • Kakigōri — raspadinha de gelo com xarope colorido.
    • Ringo-ame — maçã do amor, igual à nossa.
    • Choco-banana — banana no palito coberta de chocolate.

    E as brincadeiras: kingyo-sukui, pescar peixinho dourado com uma pá de papel que se rompe (a pá se rompe de propósito), tiro ao alvo com rolha e yo-yo tsuri, pescar balõezinhos d’água num tanque.

    O calendário

    Há milhares de matsuri por ano no Japão — praticamente todo santuário tem o seu. Alguns são conhecidos no país inteiro:

    Festival Onde Quando O que tem de particular
    Gion Matsuri Quioto julho, o mês inteiro os yamahoko, carros enormes de várias toneladas
    Tenjin Matsuri Osaka fim de julho procissão de barcos e fogos sobre o rio
    Kanda Matsuri Tóquio maio, anos ímpares dezenas de mikoshi de bairro ao mesmo tempo
    Nebuta Matsuri Aomori começo de agosto bonecos gigantes iluminados por dentro
    Awa Odori Tokushima agosto, no Obon dança coletiva de rua com dezenas de milhares
    Sapporo Yuki Matsuri Sapporo fevereiro esculturas de neve; é moderno, não religioso

    Repare na concentração em julho e agosto. Não é acaso: o verão é a estação dos matsuri porque historicamente era quando se pedia proteção contra doença e praga — o Gion Matsuri nasceu no século IX exatamente como rito contra uma epidemia — e porque a colheita ainda não tinha chegado.

    O maior festival de Quioto começou como pedido de proteção contra uma peste. Mil e cem anos depois ele continua acontecendo todo julho, com os mesmos carros e o mesmo percurso, e quase ninguém que assiste lembra do motivo.

    Sobre o que sobrevive quando a razão original é esquecida

    Como se comportar

    Matsuri é a situação japonesa menos formal que existe, e isso surpreende quem chega esperando rigidez.

    • Pode comer andando. É a exceção à regra: no recinto do festival isso é normal.
    • Pode fazer barulho. É literalmente o objetivo.
    • Yukata é bem-vindo, inclusive em estrangeiro. Ninguém acha apropriação; acham simpático.
    • Não atrapalhe o mikoshi. Ele vem rápido, pesa toneladas e não desvia. Saia da frente.
    • Não toque no mikoshi sem ser convidado — mas convites acontecem, e aceitar é uma ótima ideia.
    • Leve dinheiro em espécie. Barraca de matsuri raramente aceita cartão.
    • Leve o lixo. A regra volta a valer assim que você sai do recinto.
    Onde acontecem os maiores festivais japoneses
    Onde e quando acontecem os maiores — com a concentração no verão bem visível.

    O matsuri que existe no Brasil

    A comunidade nikkei brasileira trouxe a estrutura junto, e ela funciona aqui há décadas.

    O Bon Odori acontece em dezenas de cidades brasileiras entre julho e setembro, organizado por associações de bairro exatamente como no Japão — com dança em roda em volta de uma torre, tambor no alto e comida em barracas. É um matsuri de Obon, e o que está por trás dele está em obon e os mortos.

    E há o Festival do Japão, em São Paulo, que é outra coisa — grande, em pavilhão, organizado por província de origem. Não é um matsuri de santuário; é uma feira cultural que nasceu no Brasil e não tem equivalente exato no Japão.

    Vale a distinção porque as duas coisas costumam ser confundidas: uma é rito transplantado, a outra é criação nipo-brasileira.

    Se você for a um no Japão

    1. Chegue cedo. Os grandes lotam de um jeito que só se entende estando lá.
    2. Confira a data com antecedência. Muitos são em fim de semana fixo, outros em data fixa — e alguns, como o Kanda, só em anos alternados.
    3. Espere calor. Julho e agosto no Japão são úmidos e pesados. Leve água.
    4. Procure o pequeno. O matsuri de bairro, sem turista, é onde a coisa é mais real — e onde alguém provavelmente vai puxar conversa com você.

    Para entender o santuário de onde o mikoshi sai, xintoísmo e budismo. Para o que se compra lá dentro, omamori e omikuji. E para o resto do protocolo de convívio, etiqueta japonesa.