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  • Kasato Maru: o navio que trouxe os primeiros 781 japoneses

    O navio não foi construído para isso. O Kasato Maru nasceu inglês, em 1900, com o nome de Potosí. Foi vendido para a Rússia, afundado em Port Arthur durante a guerra russo-japonesa, resgatado pelos japoneses como troféu e transformado em navio de passageiros. Quando saiu de Kobe em 28 de abril de 1908, era um cargueiro reformado às pressas para levar gente.

    Levava 781 japoneses em 165 famílias, além de tripulação e alguns passageiros independentes. Chegou a Santos em 18 de junho de 1908, depois de 52 dias de mar. É a data que o Brasil comemora como Dia da Imigração Japonesa, e o marco zero da história contada em imigração japonesa no Brasil.

    Ficha técnica da viagem do Kasato Maru em 1908
    Kobe–Santos: 52 dias, três escalas, 781 passageiros contratados.

    Quem embarcou

    O contrato exigia família com pelo menos três membros aptos ao trabalho entre 12 e 45 anos. Era uma exigência prática — a fazenda de café pagava por talhão, não por pessoa — e teve um efeito colateral que marcou tudo o que veio depois: famílias foram inventadas para caber no papel.

    Homens solteiros se juntaram a famílias incompletas. Irmãos viraram cônjuges no registro. Vizinhos viraram parentes. Essas “famílias compostas” eram conhecidas e toleradas dos dois lados, e o resultado é que uma parte dos 781 nomes na lista de passageiros não corresponde ao parentesco real. Genealogista nikkei brasileiro convive com isso até hoje.

    De onde vinham, por província:

    Província Peso na viagem Observação
    Okinawa A maior parcela Cerca de 40% dos passageiros — falavam outra língua e tinham outros sobrenomes
    Kagoshima Grande Sul de Kyūshū, região de emigração tradicional
    Fukushima Grande Norte de Honshu, atingida por crise agrícola
    Kumamoto, Hiroshima, Yamaguchi Presença menor Províncias que dominariam as levas seguintes

    A predominância okinawana na primeira viagem costuma surpreender. Ela não foi acidente: Okinawa era a província mais pobre do Japão, anexada havia menos de trinta anos, e já tinha tradição de emigrar para o Havaí. Essa presença desde o primeiro dia é parte do que explica a comunidade descrita em os okinawanos no Brasil.

    Os 52 dias

    A rota passou por Cingapura, Cidade do Cabo e Ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Terceira classe, beliches coletivos, comida racionada. Nasceram crianças a bordo e morreram passageiros — os registros da época mencionam mortes por doença durante a travessia, o que era esperado numa viagem daquela duração.

    A bordo houve aulas. O intérprete-chefe da expedição, Shūhei Uetsuka, tentou ensinar português básico e explicar o que era uma fazenda de café. Uetsuka é uma figura importante nessa história: ficou no Brasil, fundou a colônia de Uetsuka em Promissão e escreveu um dos primeiros relatos honestos sobre o fracasso do primeiro contrato.

    “Chegamos, e o que nos esperava não era o que estava escrito.”

    Síntese recorrente nos relatos dos primeiros colonos, recolhidos décadas depois pelas associações da comunidade

    O desembarque

    Em Santos, os passageiros foram levados à Hospedaria dos Imigrantes, no Brás, em São Paulo. Ali foram divididos entre seis fazendas de café do oeste paulista — Dumont, Canaã, Floresta, São Martinho, Guatapará e Sobrado.

    O que aconteceu depois é a parte que o folclore comemorativo costuma pular.

    O contrato não fechava

    A remuneração era por saca colhida, e as fazendas escolhidas tinham cafezais velhos, de baixa produtividade. O cálculo feito no Japão pressupunha uma colheita que aqueles pés não davam. Descontadas a comida comprada no armazém da fazenda, a ferramenta e a dívida da passagem, muitos colonos terminaram o primeiro mês devendo.

    A comida

    Não havia arroz do tipo que eles comiam, não havia missô, não havia shōyu. Havia feijão, farinha e carne-seca. Para gente vinda de uma dieta de arroz, peixe e conservas, o problema não era gosto — era nutrição e força para trabalhar doze horas.

    A fuga

    Em menos de um ano, a maioria tinha abandonado as fazendas. Alguns foram para a Argentina, outros para cidades, outros para terras devolutas onde começaram do zero. Das seis fazendas, só a Dumont manteve um número relevante de famílias japonesas ao fim do primeiro contrato.

    O governo japonês recebeu relatórios tão ruins que a segunda leva demorou dois anos para sair. A imigração só engrenaria de verdade quando o modelo mudou: em vez de colono contratado, proprietário de lote comprado. Foi esse modelo que criou as cidades descritas em as colônias japonesas do Paraná.

    O que aconteceu com os passageiros do Kasato Maru no primeiro ano
    Seis fazendas de café receberam as famílias. Ao fim do primeiro contrato, quase todas tinham saído.

    O que aconteceu com o navio

    O Kasato Maru fez outras viagens de imigrantes ao Brasil e depois voltou ao serviço comum. Terminou como navio-fábrica de pesca no norte do Pacífico e foi afundado por aviação soviética em agosto de 1945, nos últimos dias da guerra, perto da Kamchatka. Não sobrou nada dele.

    Em Santos existe um monumento e, desde as obras do novo quebra-mar, uma representação em escala. Em Kobe há um marco no porto de onde ele partiu. A âncora exposta na Liberdade, em São Paulo, não é do Kasato Maru — é um símbolo, e vale saber disso antes de repetir a informação errada que circula em guias turísticos.

    Como encontrar um passageiro na lista

    A lista completa dos 781 nomes existe e está publicada. Se você suspeita que sua família estava a bordo, o caminho é este:

    1. Confirme o sobrenome em japonês, não só a grafia em português. Muitos foram registrados aqui com ortografia aproximada, e a lista original está em kanji. Nossa ferramenta de sobrenome japonês em kanji ajuda a chegar aos ideogramas e à leitura correta.
    2. Procure no Museu Histórico da Imigração Japonesa, na Liberdade. O acervo tem as listas de passageiros e apoio para busca genealógica.
    3. Considere as famílias compostas. Se o parentesco na lista não bate com a memória da família, isso não significa erro: pode ser exatamente o arranjo descrito acima.
    4. Cheque a província de origem. Ela costuma ser lembrada nas famílias e é o filtro mais eficiente numa lista de 781 nomes.

    Por que essa viagem virou marco

    Do ponto de vista de resultado imediato, o Kasato Maru foi um fracasso. O contrato não se cumpriu, os colonos fugiram, o governo japonês quase desistiu do Brasil.

    Ele virou marco por outra razão: foi a primeira vez que a saída deixou de ser individual e virou projeto. Depois dele, o caminho existia — havia intérpretes, havia gente que já tinha passado por aquilo, havia relatos circulando nas províncias sobre o que fazer e o que evitar. As 240 mil pessoas que vieram depois vieram por uma porta que aquelas 781 abriram no susto.

    É por isso que 18 de junho é feriado simbólico da comunidade, e não 1913 ou 1928, quando os números foram muito maiores. E é por isso que a geração dessas 781 pessoas tem nome próprio dentro da comunidade — issei, os da primeira geração, cuja lógica está explicada em issei, nissei, sansei.

  • Imigração japonesa no Brasil: 118 anos em uma história só

    Em 18 de junho de 1908, um navio de carga adaptado para passageiros atracou no porto de Santos depois de 52 dias de viagem desde Kobe. Levava 781 japoneses, organizados em 165 famílias. Nenhum deles pretendia ficar: o plano era juntar dinheiro no café paulista e voltar em três ou quatro anos.

    Praticamente ninguém voltou. Cento e dezoito anos depois, o Brasil abriga cerca de dois milhões de descendentes de japoneses — a maior comunidade de origem japonesa fora do Japão. Esta é a história de como isso aconteceu, e do que ela deixou de herança concreta no país.

    Linha do tempo da imigração japonesa no Brasil de 1908 a 2026
    Os quatro momentos que definem a presença japonesa no Brasil.

    Por que eles vieram — e por que para cá

    A resposta curta é que os dois países precisavam de coisas opostas ao mesmo tempo.

    O Japão da era Meiji tinha acabado de sair de dois séculos e meio de isolamento e estava se industrializando depressa demais para o campo acompanhar. A população rural crescia, a terra não. A reforma agrária de 1873 impôs imposto em dinheiro sobre a terra, e camponês que colhia arroz passou a precisar de moeda. Muita gente perdeu a propriedade. O governo passou a ver a emigração como válvula de escape e organizou o processo — com empresas licenciadas, propaganda e contrato.

    Do lado brasileiro, a lavoura de café tinha um buraco. A abolição em 1888 esvaziou as fazendas, e a imigração italiana, que devia substituir o trabalho escravizado, entrou em colapso: em 1902 o governo italiano proibiu a emigração subsidiada para o Brasil depois de relatos consistentes de maus-tratos nas fazendas paulistas. São Paulo precisava de braços e precisava depressa.

    O acordo que trouxe o Kasato Maru foi assinado em 1907 entre o governo de São Paulo e a Companhia Imperial de Emigração. Prometia contrato de trabalho, passagem subsidiada e salário em dinheiro. Quase nada disso funcionou como escrito.

    Sobre os termos do primeiro contrato de imigração

    A história dessa primeira viagem, do que os passageiros encontraram ao desembarcar e do porquê de a maioria ter abandonado as fazendas no primeiro ano está contada em detalhe em Kasato Maru, o navio que começou tudo.

    As quatro fases

    1908–1924: o começo difícil

    Os primeiros dezesseis anos foram de números modestos e frustração alta. Os imigrantes chegavam com contrato de colono, descobriam que o salário mal cobria a dívida com a fazenda e saíam assim que conseguiam. Muitos foram parar em terras próprias no interior, onde plantaram o que sabiam plantar — e onde, curiosamente, o Brasil ganhou de presente a horticultura moderna.

    1925–1941: a grande onda

    Aqui está o grosso do fluxo. Entre 1917 e 1940 chegaram cerca de 164 mil japoneses, com pico entre 1926 e 1935. O motor foi político: em 1924 os Estados Unidos aprovaram uma lei de imigração que fechou a porta para japoneses. Com o destino preferido bloqueado, o governo japonês redirecionou a emigração para a América do Sul e passou a subsidiá-la integralmente.

    Nesse período a colonização deixa de ser espontânea e vira projeto: empresas japonesas compram glebas, loteiam e vendem a famílias que chegam já sabendo para onde vão. Nasceram assim as cidades que formam o mapa nikkei do interior — assunto de as colônias japonesas do Paraná.

    1942–1952: o hiato e a guerra

    A entrada do Brasil na Segunda Guerra em 1942 interrompeu tudo. Falar japonês em público virou infração, jornais foram fechados, escolas da comunidade proibidas e rádios confiscadas. Famílias inteiras do litoral paulista foram removidas de suas casas em 48 horas. Sem informação confiável sobre o que acontecia no Japão, a comunidade chegou ao episódio mais dolorido de sua história: o conflito entre kachigumi e makegumi, os que acreditavam que o Japão tinha vencido e os que aceitavam a derrota. Houve mortes.

    1953–1973: a última leva

    A imigração recomeçou em 1953, agora com perfil diferente: técnicos, agrônomos, jovens solteiros. Somando tudo, entre 1908 e 1963 entraram no Brasil 242.171 japoneses. O último navio de imigrantes, o Nippon Maru, chegou em 1973 — e com ele terminou o ciclo.

    Onde eles ficaram

    A concentração explica o mapa cultural de hoje: na década de 1930, cerca de 90% dos imigrantes estavam em São Paulo. Depois vieram Paraná, Pará e Mato Grosso do Sul.

    Região O que se plantou Herança visível hoje
    Oeste paulista Café, depois algodão e hortaliças Bastos, Marília, Álvares Machado; a maior produção de ovos do país
    Vale do Ribeira (SP) Chá e banana Registro, com a única plantação de chá em escala do Brasil
    Norte do Paraná Café e depois soja Assaí, Londrina, Maringá
    Pará Pimenta-do-reino e juta Tomé-Açu; o Brasil virou exportador de pimenta por causa disso
    Capital paulista Comércio e serviços A Liberdade

    Uma contribuição que quase ninguém associa à imigração: boa parte das hortaliças que o brasileiro come todo dia entrou no país pelas mãos desses agricultores. Acelga, nabo, moyashi, o tomate em escala comercial. O cinturão verde da capital foi construído por famílias que saíram do café e foram plantar verdura perto da cidade.

    Mapa dos principais núcleos de colonização japonesa no Brasil
    São Paulo concentrou 90% da imigração até os anos 1930; Paraná e Pará vieram depois.

    De onde no Japão eles vinham

    Não do Japão inteiro, e isso importa mais do que parece. A emigração saiu concentrada de algumas províncias pobres do sul e do oeste: Fukushima, Kumamoto, Hokkaidō, Fukuoka, Hiroshima e, com peso muito acima de sua população, Okinawa.

    Okinawa era província havia poucas décadas, com outra língua e outros sobrenomes. Os okinawanos chegaram a mais de 10% do fluxo e formaram, dentro da comunidade japonesa, uma segunda — assunto de os okinawanos no Brasil.

    O caminho de volta

    Em 1990 o Japão revisou sua lei de imigração e criou um visto de residência para descendentes de japoneses até a terceira geração. A economia japonesa precisava de mão de obra industrial e preferia gente com laço de sangue. Do lado de cá, o Brasil vivia hiperinflação e confisco de poupança.

    O resultado foi um fluxo migratório na direção inversa, e grande. A população brasileira no Japão quintuplicou nos anos 1990, chegou a 313.770 pessoas em 2007, encolheu para menos de 178 mil depois da crise financeira e da fase mais dura da recessão japonesa, e em 2023 estava em 211.840. São os dekasseguis — e a história deles, incluindo o que aconteceu com os filhos nascidos lá, está em dekassegui: o caminho de volta.

    A comparação inversa: em 2023 viviam no Brasil 46,9 mil cidadãos japoneses — mais de quatro brasileiros no Japão para cada japonês no Brasil.

    O que sobrou disso tudo

    Uma imigração de pouco mais de 240 mil pessoas produziu efeitos muito acima do seu tamanho.

    • Na comida. O Brasil tem mais restaurante japonês do que qualquer país fora do Japão, e desenvolveu uma culinária própria que japonês do Japão não reconhece — assunto de comida nipo-brasileira.
    • Nos nomes. Dois milhões de brasileiros carregam sobrenome japonês escrito com o alfabeto português, o que criou um problema linguístico específico e interessante. Ver sobrenomes japoneses no Brasil.
    • Na agricultura. Cooperativa, hortaliça, chá, pimenta, e a ocupação agrícola do cerrado a partir dos anos 1970, em projeto conjunto com agências japonesas.
    • Na língua. Palavras que o brasileiro usa sem saber a origem, de quimono a karaokê — e uma geração inteira de crianças que aprendeu japonês nas escolas de bairro nos fins de semana.
    • No calendário. O 18 de junho é Dia da Imigração Japonesa por lei federal, e 2008 foi comemorado como Ano do Centenário.

    Como se conta o tempo dentro da comunidade

    Uma coisa que estranha quem chega de fora: a comunidade nikkei mede a distância em gerações e tem palavra para cada uma. Issei é quem nasceu no Japão e imigrou. Nissei é o filho, nascido aqui. Depois vêm sansei, yonsei e gosei — e hoje já existem famílias na sexta geração.

    Não é curiosidade de vocabulário: cada geração teve outra relação com a língua, com o casamento fora da comunidade e com a ideia de voltar. Está em issei, nissei, sansei: como contar as gerações.

    Onde ver isso de perto em 2026

    Se você quer sair da leitura e ir ver, há três lugares óbvios e um menos óbvio.

    1. O Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, na Liberdade, dentro do prédio do Bunkyo — o acervo mais completo do país.
    2. O Festival do Japão, em São Paulo, com as 47 associações de província cozinhando ao mesmo tempo.
    3. O quebra-mar de Santos, onde o Kasato Maru atracou.
    4. E o menos óbvio: uma cidade do interior num domingo. Bastos, Assaí, Registro, Tomé-Açu. É onde a herança está viva como rotina, e não como exposição.

    Se o seu sobrenome estiver nessa história, dá para começar por ele: nossa ferramenta de sobrenome japonês em kanji mostra os ideogramas originais, a leitura correta e o significado — inclusive dos sobrenomes de Okinawa, que quase sempre aparecem lidos errado.