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  • Do português brasileiro para o katakana: as regras

    Quase todas as tabelas de “português para katakana” que circulam na internet são tradução de tabelas em inglês ou espanhol. Dá para perceber sem muito esforço: elas mandam escrever João como ジョアオ e Thiago como ティアゴ, e nenhuma das duas coisas corresponde ao que sai da boca de um brasileiro.

    Esta aqui parte do outro lado. Primeiro o som do português brasileiro, depois o katakana que chega mais perto dele.

    O princípio, antes das regras

    A transcrição não parte da escrita. Parte da pronúncia.

    Parece óbvio e é justamente o que quase todo conversor faz errado. O h de “Thiago” não corresponde a som nenhum e não deve virar nada. O s de “José” soa z e não s. O e final de “Guilherme” soa i. Quem transcreve letra por letra produz um resultado que, lido por um japonês, não é reconhecível como o nome de ninguém.

    E há um segundo princípio, que resolve as discussões: o objetivo não é registrar o nome, é fazer com que um japonês lendo aquilo produza um som que você reconheça. Toda vez que as duas coisas entram em conflito, a segunda ganha.

    As etapas da conversão de um nome brasileiro para katakana
    Sílabas e tônica, depois sons brasileiros, e só então katakana.

    As vogais

    Som Katakana Exemplo
    a, á, â Ana → アナ
    e, é, ê tônico Renata → レナタ
    e final átono (soa i) Felipe → フェリピ
    i, í Ivan → イヴァン
    o, ó, ô Otávio → オタヴィオ
    u, ú Bruno → ブルーノ

    A linha do e final é a primeira que separa o Brasil de Portugal. O brasileiro diz “Felipi”, “Guilhermi”, “Vicenchi”. Escrever フェリペ não é errado historicamente, mas devolve uma pronúncia portuguesa.

    O o final é o caso oposto, e é uma exceção deliberada. Na fala brasileira ele também se fecha e soa u: “Marcu”, “Pedru”. Mas a tradição de escrever nomes com オ é firme demais para contrariar — マルコ, ペドロ. Aqui a convenção ganha da fonética, e é honesto dizer que essa escolha é convenção.

    As nasais — o caso mais brasileiro de todos

    O japonês tem um só sinal para nasalidade no fim de sílaba: . Não distingue m de n nessa posição, e não tem vogal nasal.

    Terminação Katakana Exemplo
    -ão アン João → ジョアン
    -ãe アイン Guimarães → ギマライン
    -õe オイン Simões → シモイン
    -am, -an アン Adriane → アドリアニ
    -em, -en エン Bento → ベント
    -im, -in イン Vinicius → ヴィニシウス
    -om, -on オン Ronaldo → ホナウド
    -um, -un ウン Bruna → ブルーナ

    O -ão é a marca registrada do português e não existe em nenhuma das línguas de onde as tabelas foram copiadas. Ele é um ditongo nasal: começa em a nasal e fecha em u nasal. A aproximação アン perde o fecho, mas é a que produz o som mais reconhecível — um japonês lendo ジョアン diz algo que qualquer João atende.

    As consoantes que o japonês não tem

    O nh e o lh

    Duas consoantes palatais que o japonês resolve com as séries em -ya, -yu, -yo:

    • nh → série ニャ ニュ ニョ. Sonia → ソニャ, Cunha → クニャ, Junior → ジュニオル.
    • lh → série リャ リュ リョ. Guilherme → ギリェルミ, Carvalho → カルヴァリョ, Filho → フィリョ.

    Repare em “Cunha”: o n ali não é nasal de fim de sílaba. Ele forma dígrafo com o h. Um conversor que trate todo n como candidato a ン devolve クンニャ, que é um nome que não existe. Foi exatamente o primeiro defeito que apareceu quando montamos o nosso.

    O ti e o di

    A palatalização brasileira, e a diferença mais visível em relação ao português europeu:

    • ti, te final → チ. Thiago → チアゴ, Vicente → ヴィセンチ, Beatriz → ベアトリス (aqui não, porque o ti está antes de consoante).
    • di, de final → ジ. Diego → ジエゴ, Andrade → アンドラジ, Denise → ジニジ.

    Existe variação regional — parte do Nordeste e do Sul não palataliza, ou palataliza menos. A escolha por チ e ジ segue a pronúncia majoritária, que é também a do eixo Rio-São Paulo e a da mídia.

    O r inicial e o rr

    O caso que mais surpreende, e o mais defensável de todos.

    O português brasileiro tem dois erres diferentes. O de “caro” é uma batidinha de língua no céu da boca — igual ao r japonês da série ラリルレロ. O de “carro”, de “rato” e de “Rodrigo” é uma fricativa de garganta, produzida bem mais atrás, e nada parecido.

    A série japonesa que chega perto dessa segunda é ハヒフヘホ:

    • Rodrigo → ドリゴ
    • Ricardo → カルド
    • Rafael → ファエル
    • Ferreira → フェイラ
    • Renata → ナタ

    Muita gente estranha na primeira vez. Mas o teste é simples: peça a um japonês para ler ロドリゴ. Vai sair “Rodrigo” com o r de “caro”, que é o som que o brasileiro usa no meio da palavra, não no começo.

    A regra parece exótica porque a escrita nos treinou a ver uma letra só. Mas o brasileiro que diz “Rodrigo” e “Marina” está produzindo dois sons que não têm nada em comum além do símbolo. O japonês só tem símbolo para um deles.

    Sobre o que a ortografia esconde da gente

    O s, o j, o ch e o x

    • s entre vogais soa z → série ザジズゼゾ. José → ジョゼ, Rosa → ホーザ.
    • s inicial ou dobrado soa s → série サシスセソ. Larissa → ラリッサ.
    • j e g antes de e, i → ジ. Jorge → ジョルジ, Gilberto → ジウベルト.
    • ch → シュ. Chagas → シャガス.
    • x varia com a posição: em “Xavier” soa ch (シャヴィエル); em “Alexandre” soa ks (アレシャンドレ na fala corrente, アレクサンドレ na forma cuidada); em “exame” soa z.

    O l no fim de sílaba

    Na fala brasileira ele não é l: é uma semivogal u. “Brasil” soa “Brasiu”, “Raul” soa “Rauu”. Isso dá duas transcrições defensáveis:

    • Fonética: Ronaldo → ホナド, seguindo o som.
    • Ortográfica: Ronaldo → ホナド, seguindo a letra.

    A imprensa japonesa usa as duas, às vezes para o mesmo nome. Nossa ferramenta mostra a forma fonética como principal e a ortográfica como variante, porque a primeira reproduz melhor o som e a segunda é a que a pessoa costuma reconhecer.

    Consoante sem vogal: o que fazer

    O japonês só tem sílabas abertas, mais o ン solto. Toda consoante encalhada precisa de uma vogal de apoio, e a escolha dela é convenção firme:

    Consoante Vogal de apoio Exemplo
    t, d o Robert → ロベルト
    k, g, b, p, f, v, m, s, z u Marcos → マルコス
    ch, j i March → マーチ
    l, r u Gabriel → ガブリエル

    O t e o d pegam o em vez de u porque トゥ e ドゥ não existiam no japonês tradicional — ト e ド são a solução histórica, e ficou.

    Os dois lugares onde a regra sozinha não basta

    Nossa checagem em 72 nomes brasileiros deu 78% de acerto só com regra. Os 22% restantes não são um problema, são dois problemas diferentes:

    Resultado da checagem das regras em 72 nomes brasileiros
    Setenta e dois nomes conferidos à mão: o que saiu só de regra e o que precisou de dicionário.

    Vogal longa que a escrita portuguesa não registra. “Vitória” tem uma sílaba tônica longa e se escreve ヴィトーリア, com o traço de alongamento. “Vinícius”, que tem estrutura idêntica, não alonga: ヴィニシウス. Não há regra que preveja isso — o alongamento é lexical, decidido caso a caso pelo uso japonês. Aqui o dicionário completa a regra e ganha dela.

    Grafia consagrada pela imprensa. Nomes de gente famosa entraram no japonês por uma grafia específica, que às vezes contraria a regra. Quando isso acontece, a regra continua certa e a forma da imprensa aparece ao lado, identificada. Não faz sentido esconder nenhuma das duas.

    Como conferir o seu

    A ferramenta em nome em japonês aplica tudo isto e mostra as etapas: a divisão silábica, qual regra pegou em cada pedaço, o romaji de volta e a variante quando existe. Se o resultado surpreender, dá para ver exatamente onde a decisão foi tomada.

    Para entender por que o katakana é o silabário desta tarefa e não o hiragana, o texto é katakana e hiragana. Se o que você quer é o nome em ideogramas e não em kana, o caminho é ateji. E se o nome em questão for um sobrenome japonês de família nikkei, nada disto se aplica — vá direto para sobrenome nikkei. O panorama geral está em seu nome em japonês.