Tag: português

  • Romaji: por que Tóquio, gueixa e xogum se escrevem assim

    Em inglês se escreve shogun, geisha, Tokyo. Em português escrevemos xogum, gueixa, Tóquio. Não é erro nosso nem preguiça de adaptar: é uma tradição de escrever japonês com letras latinas que começou em português, e que é três séculos mais velha que o sistema usado no mundo inteiro hoje.

    Vale conhecê-la, porque ela explica boa parte das grafias que parecem esquisitas quando comparadas com o inglês — e porque ela é a razão de o português ter, nessa história, uma posição que nenhuma outra língua ocidental tem.

    O que é romaji

    Rōmaji (ローマ字) quer dizer literalmente “letras romanas”: qualquer escrita do japonês com o nosso alfabeto. Não é um sistema, são vários, e a diferença entre eles é a pergunta que cada um tenta responder.

    Sistema Quando Parte de し / ち / つ / ふ
    Jesuíta séc. XVI–XVII Ortografia portuguesa xi, chi, tçu, fu
    Hepburn 1867 Som, para ouvido inglês shi, chi, tsu, fu
    Nihon-shiki 1885 Estrutura do kana si, ti, tu, hu
    Kunrei 1937 Estrutura, com ajustes si, ti, tu, hu

    A divisão de fundo é uma só: escrever o que se ouve ou escrever o que está no kana. Hepburn faz a primeira; Kunrei faz a segunda.

    Hepburn, que é o que você vê em toda parte

    James Curtis Hepburn era médico e missionário americano, e publicou em 1867 um dicionário japonês-inglês. A romanização que ele adotou usava consoantes lidas à inglesa e vogais lidas à italiana, e a combinação funcionou tão bem para o ouvido ocidental que virou o padrão de fato.

    É o que está em placa de estação, passaporte japonês, nome de empresa, legenda de anime e praticamente todo material didático vendido fora do Japão. Se você já viu japonês escrito com nosso alfabeto, quase certamente era Hepburn.

    A vantagem é a intuitividade. A desvantagem aparece ao estudar gramática: Hepburn quebra a regularidade do kana. A série た-ち-つ-て-と sai como ta-chi-tsu-te-to, com três consoantes onde o japonês enxerga uma só — e a conjugação dos verbos, regular no kana, parece cheia de exceções no papel.

    Kunrei, que é o que o Japão usa oficialmente

    É a resposta japonesa ao problema acima, oficializada por decreto em 1937 e revista nos anos 1950. O princípio: uma consoante por linha do kana. た-ち-つ-て-と vira ta-ti-tu-te-to, e a regularidade reaparece.

    Criança japonesa aprende Kunrei na escola e documento oficial o usa. Ainda assim, quase ninguém escreve em Kunrei fora da sala de aula: o adulto que digita romaji no celular usa a forma que aprendeu vendo, que é a de Hepburn.

    O Japão convive, portanto, com dois sistemas: o oficial e o real. Quem estuda esbarra nisso ao ver “Zyunko” num documento e “Junko” no crachá da mesma pessoa.

    Linha do tempo dos sistemas de romanização do japonês
    O sistema português veio primeiro; o de Hepburn virou padrão três séculos depois.

    O sistema português, que veio primeiro

    Aqui está a parte que os textos em inglês sobre romaji costumam despachar em uma linha.

    Missionários portugueses chegaram ao Japão em 1549, mais de três séculos antes de Hepburn. Para pregar, precisavam da língua; para ensinar a língua aos que vinham depois, precisavam escrevê-la. E escreveram-na com o alfabeto que tinham, seguindo as convenções da ortografia portuguesa da época.

    O resultado é um dos monumentos da linguística: o Vocabulario da Lingoa de Iapam, dicionário japonês-português impresso em Nagasaki em 1603 e 1604, com dezenas de milhares de entradas. Junto dele veio a Arte da Lingoa de Iapam, gramática do padre João Rodrigues — a primeira descrição sistemática da gramática japonesa feita por um estrangeiro.

    As escolhas de grafia eram naturais para um português:

    • x para o som de sh — porque em português o x tem esse som em “peixe”. Daí xogum.
    • qu antes de e, i — daí quimono, Quioto.
    • gu antes de e, i — daí gueixa.
    • ç e ce, ci para sibilantes.
    • f onde hoje se escreve h — porque o japonês do século XVI pronunciava aquela consoante mais perto de um f soprado. Os jesuítas escreviam Nifon, Firando. Não estavam errando: estavam anotando uma pronúncia que depois mudou.

    Esse último item é notável. A romanização jesuíta é hoje fonte primária para a história da língua japonesa, porque registrou distinções sonoras que o kana não marcava e que desapareceram da fala nos séculos seguintes. Linguistas japoneses estudam esses textos por isso.

    Um punhado de missionários anotando pronúncia com as letras que tinham acabou deixando o registro mais confiável de como o japonês soava antes de mudar. A ortografia portuguesa do século XVI virou instrumento de medição sem que ninguém planejasse.

    Sobre o que sobra de um contato que durou menos de cem anos

    O que ficou em português

    O contato foi interrompido no século XVII, quando o Japão fechou as fronteiras. Mas as palavras que atravessaram naquele período ainda estão no nosso dicionário, e é por isso que a grafia portuguesa de termos japoneses difere tanto da inglesa:

    Japonês Português Inglês
    将軍 shōgun xogum shogun
    芸者 geisha gueixa geisha
    着物 kimono quimono kimono
    東京 Tōkyō Tóquio Tokyo
    京都 Kyōto Quioto Kyoto
    刀 katana catana katana
    屏風 byōbu biombo
    柿 kaki caqui persimmon
    円 en iene yen

    Duas dessas merecem nota. Biombo é palavra portuguesa corrente que quase ninguém sabe ser japonesa — veio de 屏風, “parede de vento”. E caqui, a fruta, é simplesmente o nome japonês dela, que o português adotou e o inglês não.

    E o caminho inverso

    O empréstimo foi nos dois sentidos, e o japonês guardou uma coleção de palavras portuguesas que continuam em uso diário até hoje:

    • パン pan — pão. A palavra japonesa comum para pão é portuguesa.
    • てんぷら tempura — do português “têmporas”, os períodos de jejum em que se comia peixe frito.
    • カステラ kasutera — o pão de ló de Castela, ainda hoje a especialidade de Nagasaki.
    • タバコ tabako — tabaco.
    • ボタン botan — botão.
    • コップ koppu — copo.
    • カルタ karuta — carta de baralho, que virou nome de um jogo tradicional japonês.
    • シャボン shabon — sabão, hoje sobretudo em shabon-dama, bolha de sabão.
    • カッパ kappa — capa de chuva.

    Todas em katakana, como manda a regra para palavra estrangeira — assunto de katakana e hiragana. Quatrocentos anos depois, o japonês ainda marca visualmente que “pão” veio de fora.

    Palavras que passaram do português para o japonês e do japonês para o português
    O que ficou de cada lado depois de um contato interrompido no século XVII.

    O alongamento, que é onde tudo desanda

    O maior problema prático do romaji não é a escolha do sistema. É a vogal longa.

    O japonês distingue vogal curta de longa, e a distinção muda a palavra: 叔父 oji é tio, 王子 ōji é príncipe. Cada sistema resolve de um jeito, e todos os jeitos convivem:

    • Mácron: Tōkyō. Correto e o padrão acadêmico. Difícil de digitar.
    • Circunflexo: Tôkyô. Kunrei prefere este.
    • Vogal dobrada: Tookyoo. Exato e feio.
    • Nada: Tokyo. O que acontece na prática em 95% dos casos.

    A última opção é a que causa dano de verdade — e não como curiosidade acadêmica, mas na vida de gente concreta. Foi ela que apagou o alongamento dos sobrenomes nikkeis brasileiros. 佐藤 é Satō; o registro de imigração escreveu “Sato”, e a informação sumiu para sempre do documento. O mesmo aconteceu com Ōta, Kōno e uma lista longa. O assunto está em sobrenome nikkei.

    Qual usar

    1. Escrevendo para brasileiro? Hepburn, com ou sem mácron. É o que a pessoa vai reconhecer.
    2. Palavra já aportuguesada? Use a forma portuguesa. Escrever “shogun” e “kimono” em texto em português é anglicismo desnecessário — temos as palavras há quatrocentos anos.
    3. Estudando gramática? Vale conhecer Kunrei, porque ele mostra a regularidade que Hepburn esconde.
    4. Digitando japonês no computador? O IME aceita os dois, e você vai acabar usando Hepburn sem pensar. Como instalar está em como digitar em japonês.
    5. Transcrevendo um nome brasileiro? Aí não é romaji, é o caminho inverso, e as regras são as de português para katakana.

    Para o panorama geral de como um nome se escreve em japonês, seu nome em japonês. E se a dúvida for por que os ideogramas mudam de leitura conforme a palavra — o que atrapalha qualquer sistema de romanização —, por que um kanji tem várias leituras.

  • Do português brasileiro para o katakana: as regras

    Quase todas as tabelas de “português para katakana” que circulam na internet são tradução de tabelas em inglês ou espanhol. Dá para perceber sem muito esforço: elas mandam escrever João como ジョアオ e Thiago como ティアゴ, e nenhuma das duas coisas corresponde ao que sai da boca de um brasileiro.

    Esta aqui parte do outro lado. Primeiro o som do português brasileiro, depois o katakana que chega mais perto dele.

    O princípio, antes das regras

    A transcrição não parte da escrita. Parte da pronúncia.

    Parece óbvio e é justamente o que quase todo conversor faz errado. O h de “Thiago” não corresponde a som nenhum e não deve virar nada. O s de “José” soa z e não s. O e final de “Guilherme” soa i. Quem transcreve letra por letra produz um resultado que, lido por um japonês, não é reconhecível como o nome de ninguém.

    E há um segundo princípio, que resolve as discussões: o objetivo não é registrar o nome, é fazer com que um japonês lendo aquilo produza um som que você reconheça. Toda vez que as duas coisas entram em conflito, a segunda ganha.

    As etapas da conversão de um nome brasileiro para katakana
    Sílabas e tônica, depois sons brasileiros, e só então katakana.

    As vogais

    Som Katakana Exemplo
    a, á, â Ana → アナ
    e, é, ê tônico Renata → レナタ
    e final átono (soa i) Felipe → フェリピ
    i, í Ivan → イヴァン
    o, ó, ô Otávio → オタヴィオ
    u, ú Bruno → ブルーノ

    A linha do e final é a primeira que separa o Brasil de Portugal. O brasileiro diz “Felipi”, “Guilhermi”, “Vicenchi”. Escrever フェリペ não é errado historicamente, mas devolve uma pronúncia portuguesa.

    O o final é o caso oposto, e é uma exceção deliberada. Na fala brasileira ele também se fecha e soa u: “Marcu”, “Pedru”. Mas a tradição de escrever nomes com オ é firme demais para contrariar — マルコ, ペドロ. Aqui a convenção ganha da fonética, e é honesto dizer que essa escolha é convenção.

    As nasais — o caso mais brasileiro de todos

    O japonês tem um só sinal para nasalidade no fim de sílaba: . Não distingue m de n nessa posição, e não tem vogal nasal.

    Terminação Katakana Exemplo
    -ão アン João → ジョアン
    -ãe アイン Guimarães → ギマライン
    -õe オイン Simões → シモイン
    -am, -an アン Adriane → アドリアニ
    -em, -en エン Bento → ベント
    -im, -in イン Vinicius → ヴィニシウス
    -om, -on オン Ronaldo → ホナウド
    -um, -un ウン Bruna → ブルーナ

    O -ão é a marca registrada do português e não existe em nenhuma das línguas de onde as tabelas foram copiadas. Ele é um ditongo nasal: começa em a nasal e fecha em u nasal. A aproximação アン perde o fecho, mas é a que produz o som mais reconhecível — um japonês lendo ジョアン diz algo que qualquer João atende.

    As consoantes que o japonês não tem

    O nh e o lh

    Duas consoantes palatais que o japonês resolve com as séries em -ya, -yu, -yo:

    • nh → série ニャ ニュ ニョ. Sonia → ソニャ, Cunha → クニャ, Junior → ジュニオル.
    • lh → série リャ リュ リョ. Guilherme → ギリェルミ, Carvalho → カルヴァリョ, Filho → フィリョ.

    Repare em “Cunha”: o n ali não é nasal de fim de sílaba. Ele forma dígrafo com o h. Um conversor que trate todo n como candidato a ン devolve クンニャ, que é um nome que não existe. Foi exatamente o primeiro defeito que apareceu quando montamos o nosso.

    O ti e o di

    A palatalização brasileira, e a diferença mais visível em relação ao português europeu:

    • ti, te final → チ. Thiago → チアゴ, Vicente → ヴィセンチ, Beatriz → ベアトリス (aqui não, porque o ti está antes de consoante).
    • di, de final → ジ. Diego → ジエゴ, Andrade → アンドラジ, Denise → ジニジ.

    Existe variação regional — parte do Nordeste e do Sul não palataliza, ou palataliza menos. A escolha por チ e ジ segue a pronúncia majoritária, que é também a do eixo Rio-São Paulo e a da mídia.

    O r inicial e o rr

    O caso que mais surpreende, e o mais defensável de todos.

    O português brasileiro tem dois erres diferentes. O de “caro” é uma batidinha de língua no céu da boca — igual ao r japonês da série ラリルレロ. O de “carro”, de “rato” e de “Rodrigo” é uma fricativa de garganta, produzida bem mais atrás, e nada parecido.

    A série japonesa que chega perto dessa segunda é ハヒフヘホ:

    • Rodrigo → ドリゴ
    • Ricardo → カルド
    • Rafael → ファエル
    • Ferreira → フェイラ
    • Renata → ナタ

    Muita gente estranha na primeira vez. Mas o teste é simples: peça a um japonês para ler ロドリゴ. Vai sair “Rodrigo” com o r de “caro”, que é o som que o brasileiro usa no meio da palavra, não no começo.

    A regra parece exótica porque a escrita nos treinou a ver uma letra só. Mas o brasileiro que diz “Rodrigo” e “Marina” está produzindo dois sons que não têm nada em comum além do símbolo. O japonês só tem símbolo para um deles.

    Sobre o que a ortografia esconde da gente

    O s, o j, o ch e o x

    • s entre vogais soa z → série ザジズゼゾ. José → ジョゼ, Rosa → ホーザ.
    • s inicial ou dobrado soa s → série サシスセソ. Larissa → ラリッサ.
    • j e g antes de e, i → ジ. Jorge → ジョルジ, Gilberto → ジウベルト.
    • ch → シュ. Chagas → シャガス.
    • x varia com a posição: em “Xavier” soa ch (シャヴィエル); em “Alexandre” soa ks (アレシャンドレ na fala corrente, アレクサンドレ na forma cuidada); em “exame” soa z.

    O l no fim de sílaba

    Na fala brasileira ele não é l: é uma semivogal u. “Brasil” soa “Brasiu”, “Raul” soa “Rauu”. Isso dá duas transcrições defensáveis:

    • Fonética: Ronaldo → ホナド, seguindo o som.
    • Ortográfica: Ronaldo → ホナド, seguindo a letra.

    A imprensa japonesa usa as duas, às vezes para o mesmo nome. Nossa ferramenta mostra a forma fonética como principal e a ortográfica como variante, porque a primeira reproduz melhor o som e a segunda é a que a pessoa costuma reconhecer.

    Consoante sem vogal: o que fazer

    O japonês só tem sílabas abertas, mais o ン solto. Toda consoante encalhada precisa de uma vogal de apoio, e a escolha dela é convenção firme:

    Consoante Vogal de apoio Exemplo
    t, d o Robert → ロベルト
    k, g, b, p, f, v, m, s, z u Marcos → マルコス
    ch, j i March → マーチ
    l, r u Gabriel → ガブリエル

    O t e o d pegam o em vez de u porque トゥ e ドゥ não existiam no japonês tradicional — ト e ド são a solução histórica, e ficou.

    Os dois lugares onde a regra sozinha não basta

    Nossa checagem em 72 nomes brasileiros deu 78% de acerto só com regra. Os 22% restantes não são um problema, são dois problemas diferentes:

    Resultado da checagem das regras em 72 nomes brasileiros
    Setenta e dois nomes conferidos à mão: o que saiu só de regra e o que precisou de dicionário.

    Vogal longa que a escrita portuguesa não registra. “Vitória” tem uma sílaba tônica longa e se escreve ヴィトーリア, com o traço de alongamento. “Vinícius”, que tem estrutura idêntica, não alonga: ヴィニシウス. Não há regra que preveja isso — o alongamento é lexical, decidido caso a caso pelo uso japonês. Aqui o dicionário completa a regra e ganha dela.

    Grafia consagrada pela imprensa. Nomes de gente famosa entraram no japonês por uma grafia específica, que às vezes contraria a regra. Quando isso acontece, a regra continua certa e a forma da imprensa aparece ao lado, identificada. Não faz sentido esconder nenhuma das duas.

    Como conferir o seu

    A ferramenta em nome em japonês aplica tudo isto e mostra as etapas: a divisão silábica, qual regra pegou em cada pedaço, o romaji de volta e a variante quando existe. Se o resultado surpreender, dá para ver exatamente onde a decisão foi tomada.

    Para entender por que o katakana é o silabário desta tarefa e não o hiragana, o texto é katakana e hiragana. Se o que você quer é o nome em ideogramas e não em kana, o caminho é ateji. E se o nome em questão for um sobrenome japonês de família nikkei, nada disto se aplica — vá direto para sobrenome nikkei. O panorama geral está em seu nome em japonês.