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  • Verbos japoneses: nenhuma conjugação por pessoa

    Verbos japoneses: nenhuma conjugação por pessoa

    Depois de anos decorando eu falo, tu falas, ele fala, nós falamos, vós falais, eles falam — e isso só no presente do indicativo — o verbo japonês chega como um alívio quase cômico.

    Ele não muda com a pessoa. Nunca. Nem com o número. O mesmo 食べます serve para eu como, você come, ele come, nós comemos e eles comem.

    O tamanho do alívio

    Vale medir, porque é grande.

    Português Japonês
    Formas por tempo seis (uma por pessoa) uma
    Verbos irregulares dezenas dois
    Concordância com o sujeito obrigatória não existe
    Gênero no verbo no particípio não existe
    Tempo futuro forma própria não existe forma própria

    Os dois irregulares são する (fazer) e 来る (vir). Dois, no idioma inteiro. Em português, só o verbo “ir” já tem mais formas irregulares que isso.

    Dois tempos, não três

    O japonês distingue passado e não-passado. Só.

    • 食べます — como / vou comer
    • 食べました — comi

    O futuro sai do contexto: 明日食べます é “amanhã como”, e ninguém entende como presente. Nós fazemos o mesmo o tempo todo — “amanhã eu viajo” é presente na forma e futuro no sentido. A diferença é que o japonês não tem a outra opção.

    As duas formas que importam

    Todo verbo japonês tem duas caras, e a escolha entre elas não é gramatical: é social.

    A forma de dicionário — 食べる, 行く, 飲む — é a forma neutra, usada com amigos, família e em texto escrito impessoal.

    A forma em -masu — 食べます, 行きます, 飲みます — é a educada, usada com quem você não conhece, com clientes, no trabalho.

    O sentido é idêntico. Muda apenas a distância social.

    Qual aprender primeiro

    Recomendação firme: comece pela forma em -masu, mesmo que ela seja “mais longa”.

    A razão é prática. Errar por formalidade demais é invisível — no máximo você soa um pouco cerimonioso. Errar por informalidade é audível e desagradável: um estrangeiro que fala na forma casual com um desconhecido soa mal-educado, e ninguém vai corrigir você por educação.

    É pelo mesmo motivo que o livro de frases deste site está inteiro em -masu e desu.

    Comparação entre a conjugação portuguesa e a japonesa
    A mesma frase, do mesmo verbo, para as seis pessoas do português.

    Os três grupos

    Verbos japoneses se dividem em três, e o grupo decide como o verbo muda de forma:

    Grupo 1 — os que terminam em -u (a maioria): 飲む nomu, 行く iku, 話す hanasu. Trocam a última sílaba: 飲ます, 行ます, 話ます.

    Grupo 2 — os que terminam em -ru precedido de i ou e: 食べる taberu, 見る miru. Perdem o る e ganham ます: 食べます, 見ます. É o grupo fácil.

    Grupo 3 — os dois irregulares: する→します, 来る→来ます.

    Há uma pegadinha: alguns verbos terminados em -iru e -eru são do grupo 1, não do 2. 帰る (voltar) e 走る (correr) são os exemplos clássicos. São poucos, e se decoram um a um.

    A forma -te, que abre tudo

    Se existe uma forma que vale suar para dominar, é esta. A forma -te não tem sentido próprio, mas é a peça que se encaixa em dezenas de construções:

    • 食べください — coma, por favor
    • 食べいます — estou comendo
    • 食べもいいですか — posso comer?
    • 食べから — depois de comer
    • 食べ、飲みます — como e bebo (ligando orações)

    Ela é a forma mais irregular do sistema e a mais rentável. Há canções tradicionais de estudante japonês só para memorizá-la — e vale usar uma.

    O que o japonês tem e o português não

    Nem tudo é economia. Há duas categorias que o verbo japonês marca e o nosso ignora, e elas são difíceis exatamente por isso.

    Potencial: “conseguir fazer” dentro do verbo

    飲む é beber; 飲る é conseguir beber. Em português precisamos de dois verbos (“consigo beber”); em japonês a ideia está dentro da própria palavra.

    É a mesma lógica de 話せますか — “você consegue falar?” — que aparece na pergunta mais útil de todas, 英語を話せますか, “você fala inglês?”.

    Dar e receber: quem fez o favor a quem

    Este é o conceito mais estranho para nós, e o mais japonês de todos.

    あげる, くれる e もらう significam todos “dar/receber”, mas marcam a direção do favor em relação a quem fala:

    • 教えてあげる — eu ensino a você (favor meu, indo para fora)
    • 教えてくれる — você me ensina (favor vindo para mim)
    • 教えてもらう — eu recebo o ensinamento de você

    Em português, tudo isso é “ensinar”, e o resto vem do contexto. Em japonês, escolher errado não é agramatical — é indelicado, porque a frase declara quem ficou em dívida com quem. Isso conecta diretamente com o mecanismo social descrito em honne e tatemae.

    O verbo japonês economiza onde o português gasta — pessoa, número, gênero — e gasta onde o português economiza: direção do favor, grau de respeito, se a ação foi conseguida ou apenas tentada. Nenhuma língua é mais simples; elas apenas decidem coisas diferentes.

    Sobre onde cada idioma investe

    A negação, e por que ela chega tarde

    Negar é trocar o fim do verbo: 食べます → 食べません. No passado, 食べました → 食べませんでした.

    Como o verbo fica no fim da frase, a negação é a última coisa que você ouve. Em português “eu não vou” avisa na segunda palavra; em japonês a diferença entre 行きます e 行きません está na sílaba final.

    Consequência prática: escute a frase inteira antes de reagir. É a razão de interromper alguém em japonês ser pior que em português — e o detalhe está em a ordem das palavras em japonês.

    As formas verbais japonesas que vale aprender primeiro
    Cinco formas cobrem quase toda a conversa cotidiana.

    Uma armadilha: o japonês de anime

    Quem aprende de ouvido pelo anime absorve quase só a forma casual, e frequentemente formas que ninguém usa fora da ficção. だぜ, だろ, 〜てやる e o resto do repertório existem, mas pertencem a personagens.

    Escutar anime é ótimo para o ouvido; copiar o verbo dele é como aprender português por filme de ação. O que exatamente está estilizado ali está em keigo e formalidade no anime.

    O que estudar, nesta ordem

    1. -masu / -masen e o passado — cobre a maior parte da conversa educada.
    2. A forma -te — pedidos, ações em curso, permissão.
    3. A forma de dicionário — necessária para ler e para construções mais complexas.
    4. O potencial — conseguir fazer.
    5. Dar e receber — quando a conversa já flui.

    E vale repetir o alívio: em nenhum desses passos existe concordância com a pessoa. Quem já conjugou verbo em português tem uma dificuldade a menos, não a mais. O caminho completo está em aprender japonês do zero.