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  • Katakana e hiragana: qual é a diferença e quando se usa cada um

    Katakana e hiragana: qual é a diferença e quando se usa cada um

    Os dois silabários japoneses escrevem exatamente os mesmos sons. Não há um som que o hiragana consiga registrar e o katakana não, nem o contrário. か e カ são o mesmo ka. の e ノ são o mesmo no.

    Então por que existem dois? Porque a escolha entre eles não é de pronúncia — é de função. O japonês usa a forma da letra para dizer coisas que o português precisa de itálico, aspas e maiúscula para dizer.

    A divisão básica

    Hiragana ひらがな Katakana カタカナ
    Traço Curvo, arredondado Reto, anguloso
    Origem Kanji escrito em cursiva Pedaço de um kanji
    Escreve Gramática e palavras japonesas Palavras vindas de fora
    Sensação Familiar, doméstico Moderno, técnico, importado

    O hiragana faz o trabalho pesado da língua: as terminações de verbo, as partículas que marcam sujeito e objeto, as palavras que não têm kanji ou cujo kanji é raro demais. Numa frase japonesa comum ele é a maior parte do texto.

    O katakana faz um trabalho mais estreito, mas muito visível — e é por causa dele que este site existe, já que todo nome estrangeiro se escreve em katakana.

    O que cada um dos dois silabários japoneses escreve
    Os mesmos sons em ambos; o que muda é o tipo de palavra que cada um recebe.

    Onde vai katakana

    1. Palavras estrangeiras. コーヒー (kōhī, café), パン (pan, pão — do português), テレビ (terebi, televisão).
    2. Nomes de pessoas e lugares de fora. ブラジル (Brasil), サンパウロ (São Paulo), マリア (Maria).
    3. Onomatopeia. ドキドキ (coração batendo), ザーザー (chuva forte). Assunto de onomatopeias do mangá.
    4. Nomes científicos de plantas e animais. Mesmo os nativos: ネコ para gato, em texto de biologia, ainda que o normal seja 猫 ou ねこ.
    5. Ênfase. Uma palavra japonesa escrita em katakana no meio da frase funciona como o nosso itálico.
    6. Marcas e produtos. Boa parte das empresas japonesas escreve o próprio nome em katakana por decisão de identidade visual.
    7. Telegramas e sistemas antigos. Registro que sobrevive em documento oficial e em máquina velha, onde às vezes só há katakana disponível.

    A parte que ninguém explica: os dois vieram do kanji

    Antes do século IX o japonês não tinha escrita própria. Escrevia-se em chinês, ou usava-se kanji pelo som, ignorando o sentido — o mesmo princípio do ateji, aplicado à língua inteira. Esse sistema chamava-se man’yōgana, e era um horror de aprender: dezenas de ideogramas complicados para um punhado de sons.

    Daí saíram os dois silabários, por caminhos diferentes:

    Hiragana nasceu de escrever esses kanji depressa. A cursiva foi simplificando o traço até sobrar um desenho fluido. 安 (an) virou あ. 以 (i) virou い. 加 (ka) virou か. Por ter sido usado sobretudo por mulheres da corte de Heian — que não recebiam a educação em chinês clássico dada aos homens —, ficou conhecido como onnade, “mão de mulher”. A maior obra da literatura japonesa clássica foi escrita nele.

    Katakana nasceu de outro problema. Monges budistas liam texto em chinês e precisavam anotar, nas margens apertadas, como se pronunciava e em que ordem ler. Não havia espaço para nada elaborado, então eles arrancavam um pedaço do kanji e usavam só ele. 加 perdeu tudo menos o lado esquerdo e virou カ. 多 virou タ. 千 virou チ. O nome diz isso: kata (片) é “parte”, “fragmento”.

    Um veio da pressa de escrever bonito, o outro da pressa de anotar na margem. Mil anos depois, um continua sendo a letra doméstica e o outro, a letra do que vem de fora — e a diferença de temperamento entre os traços ainda se sente.

    Sobre por que os dois silabários parecem tão diferentes

    Por que nome estrangeiro vai em katakana

    Não é regra de gramática nem lei. É convenção, e ela é firme.

    O katakana marca a palavra como vinda de fora, e essa marcação é informação útil na leitura corrida. O japonês não usa espaço entre palavras — a frase é um bloco contínuo. A alternância entre kanji, hiragana e katakana é o que faz o olho reconhecer onde uma palavra termina e a outra começa. Quando aparece um bloco de katakana no meio do texto, o leitor japonês já sabe, antes de ler: isto é nome próprio estrangeiro, ou palavra importada, ou som.

    É por isso que ver o próprio nome em katakana é a experiência que é: você está sendo lido como estrangeiro, visualmente, antes de a pessoa sequer chegar ao som. É também o que faz um sobrenome nikkei ser caso à parte — Watanabe, escrito em katakana, seria estranho, porque não é palavra estrangeira: é japonesa, e vai em kanji.

    Os pares de kana que mais se confundem
    Os pares que derrubam quem está começando — e a diferença mínima entre eles.

    Os que se parecem demais

    Aprender os dois silabários leva algumas semanas. O que atrapalha não é a quantidade — são 46 sinais básicos em cada — mas alguns pares que diferem por muito pouco:

    • シ e ツshi e tsu. A diferença é a direção dos traços curtos e a inclinação do longo. O de シ vem de baixo para cima; o de ツ, de cima para baixo.
    • ソ e ンso e n. Mesmo problema, mesma solução.
    • ク e タku e ta. O タ tem um traço a mais.
    • コ e ユko e yu. Abertura para lados opostos.
    • ね, れ, わ — em hiragana, três parentes próximos que se resolvem olhando o final do traço.
    • る e ろ — o laço no fim existe em um e não no outro.

    Todo curso recomenda começar pelo hiragana, e a recomendação faz sentido: ele aparece mais e é indispensável para ler qualquer coisa. Mas para quem vai ao Japão a passeio, o katakana rende mais rápido — cardápio, placa de estação, nome de produto e boa parte do que interessa a turista está em katakana, e muito disso é palavra que você já conhece em inglês.

    Os sinais extras que valem conhecer

    • Dakuten (゛) — duas aspinhas que sonorizam: カ ka vira ガ ga, サ sa vira ザ za, タ ta vira ダ da.
    • Handakuten (゜) — bolinha que transforma a série H em P: ハ ha vira パ pa.
    • O kana pequeno — ャ, ュ, ョ escritos em corpo menor grudam na sílaba anterior: キ + ャ = キャ kya. É como se escreve boa parte dos sons que o português tem e o japonês não tinha.
    • O ッ pequeno — dobra a consoante seguinte. ラリッサ é “Larissa” com o ss preservado.
    • O traço ー — alonga a vogal, e existe só em katakana. コーヒー tem duas vogais longas. Em hiragana o alongamento se escreve repetindo a vogal.

    Esse último merece atenção especial de quem tem sobrenome japonês: o alongamento é justamente o que se perdeu quando os nomes foram registrados no alfabeto português. “Ohara” e “Ōhara” viraram a mesma coisa no papel, e são nomes diferentes.

    Por onde começar

    1. Hiragana primeiro, cinco sinais por dia, escrevendo à mão. Escrever fixa muito mais do que reconhecer.
    2. Katakana depois, e mais rápido, porque a estrutura já é conhecida.
    3. Leia rótulo de produto japonês. É o exercício mais eficiente que existe: quase tudo é katakana e quase tudo é palavra estrangeira que você já sabe.
    4. Ordem dos traços desde o primeiro dia. Consertar depois é bem pior do que aprender certo — o motivo está em caligrafia japonesa.
    5. Só então o kanji. E aí o assunto passa a ser por que um kanji tem várias leituras.

    Para ver os dois sistemas funcionando com o seu próprio nome, o caminho curto é seu nome em japonês — e a ferramenta em nome em japonês mostra a divisão silábica sinal por sinal.