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  • Ore, boku, watashi: a personalidade que cabe num pronome

    Em português existe uma palavra para se referir a si mesmo. Uma. O rei diz “eu”, a criança diz “eu”, o bandido diz “eu”. A palavra não informa nada sobre quem fala.

    Em japonês há mais de uma dezena de opções em uso corrente, e escolher uma delas é uma declaração sobre si mesmo. Quando um personagem de anime abre a boca e diz ore em vez de boku, o público japonês já sabe alguma coisa sobre ele — antes do conteúdo da frase.

    Em português, tudo isso vira “eu”. É a perda mais silenciosa de todas as descritas em português vs japonês: o que o personagem realmente disse, porque nem sequer há um lugar onde ela seja visível.

    Os principais

    Pronome Escrita Quem usa O que sugere
    watashi Qualquer pessoa em contexto formal; mulheres também no dia a dia Neutro e educado; num homem em situação informal, soa distante
    watakushi Discurso muito formal, cerimônia Rigidez; em personagem, quase sempre nobreza ou empáfia
    boku Homens, sobretudo jovens Modéstia, suavidade; menino educado ou rapaz não agressivo
    ore Homens, informal Confiança, rudeza, masculinidade tradicional
    atashi あたし Mulheres, informal Feminino e casual; contração de watashi
    washi Homens idosos, fala regional Idade; em anime, é o pronome do velho mestre
    uchi うち Mulheres, sobretudo no Kansai Regional; marca a personagem como de Osaka ou Kyoto
    ware / wareware 我々 Discurso solene, coletivo “Nós” grandiloquente; vilão de organização, líder militar
    o próprio nome Crianças pequenas; personagens infantilizadas Imaturidade deliberada
    Mapa dos pronomes japoneses de primeira pessoa por formalidade e gênero
    Formalidade no eixo vertical, marcação de gênero no horizontal — e tudo isso vira “eu”.

    O que os roteiristas fazem com isso

    Caracterização instantânea

    Um personagem novo diz uma frase. Se ele usou ore, o público já o classificou como direto, informal, provavelmente confiante. Se usou boku, como mais reservado ou mais jovem. Se usou watakushi, como alguém que se acha — ou que foi criado num ambiente muito formal.

    São três segundos de tela e nenhuma linha de exposição. Em português, o mesmo efeito exige que o roteiro adaptado invente outro sinal.

    A troca como arco

    É um recurso clássico: personagem começa com boku e passa a ore conforme amadurece e ganha confiança. Ou o contrário — usa ore na frente dos amigos e boku na frente do pai, revelando que a persona é fachada.

    Quando isso acontece na tela, a legenda escreve “eu” das duas vezes. A cena inteira depende de uma informação que não chegou.

    O pronome como piada

    Personagem que usa washi sendo jovem, ou wareware falando sozinho, é piada — de personagem que se leva a sério demais. Sem o pronome, sobra uma fala pomposa sem motivo aparente.

    Nenhum tradutor pode consertar isso, porque não há erro a consertar. A informação simplesmente não tem onde morar em português.

    Sobre o limite entre tradução ruim e língua incompatível

    E a segunda pessoa é pior

    Se os pronomes de “eu” já são muitos, os de “você” carregam ainda mais risco social — porque em japonês, na dúvida, não se usa pronome nenhum: usa-se o nome da pessoa, ou nada.

    • anata (あなた) — o dicionário traduz por “você”, mas usar com um superior é rude. Entre casais, vira “querido”. É uma palavra armadilha.
    • kimi (君) — de cima para baixo, ou íntimo. Um chefe pode usar com subordinado; o contrário, não.
    • omae (お前) — informal e potencialmente agressivo. Entre amigos homens é normal; com um estranho é provocação.
    • temē (てめえ) e kisama (貴様) — insulto puro. É o “você” dito com raiva, e é o que aparece em cena de briga.
    • Nada. A opção mais comum. Japonês omite o sujeito o tempo todo, e o contexto resolve.

    Detalhe irônico: kisama era tratamento respeitoso séculos atrás e virou insulto com o tempo. Os ideogramas ainda são “nobre” e “senhor”.

    Como um mesmo personagem soa diferente conforme o pronome escolhido
    A frase é idêntica; o que muda é quem parece estar falando.

    Os pronomes arcaicos

    Anime de época tem um arsenal próprio, e ele funciona como o “vós” funcionaria em português — só que vivo o bastante para o público japonês reconhecer sem esforço.

    Pronome Quem usaria Efeito
    sessha 拙者 Samurai, literalmente “o desajeitado” Humildade ritual; marca imediatamente a época
    warawa Mulher de posição elevada, em contexto antigo Nobreza feminina arcaica
    ware Discurso solene Grandiloquência; comum em divindade e vilão
    yo Soberano falando de si O “nós majestático”
    oira おいら Fala rural ou popular antiga Personagem simples, do interior

    Um samurai que diz sessha está usando uma palavra que ninguém usa há mais de um século. A dublagem brasileira costuma compensar com português mais empolado — inversão de ordem, “vós”, vocabulário elevado — e essa é a escolha certa: não é o mesmo mecanismo, mas produz o mesmo efeito de distância temporal.

    O que o tradutor consegue fazer

    Não dá para traduzir o pronome. Dá para recriar o efeito por outros meios, e é isso que separa uma adaptação boa de uma literal.

    1. Registro de vocabulário. Quem diria ore usa gíria, corta palavra, fala em frase curta. Quem diria watakushi usa vocabulário formal e frases completas.
    2. Sintaxe. Fala solene ganha inversão e subordinada; fala informal, ordem direta.
    3. Tratamento. “Você” contra “o senhor” recupera parte da distância que estava no pronome de segunda pessoa.
    4. Bordão. Quando o personagem tem marca sonora no original — e o pronome é uma delas —, criar uma marca equivalente em português é adaptação legítima, não invenção.
    5. Direção de dublagem. Muito do que o pronome dizia, o ator entrega com o tom. É a razão de uma dublagem bem dirigida parecer “mais fiel” do que uma legenda literal.

    Como treinar o ouvido

    Este é fácil de exercitar, porque os pronomes aparecem em quase toda frase e são sonoramente distintos.

    • Escolha um episódio e anote qual pronome cada personagem usa. Cinco minutos bastam para o elenco principal.
    • Compare com o que a legenda entrega. Vai ser “eu” em todos os casos.
    • Fique atento à troca. Personagem que muda de pronome está mudando de estado, e isso quase nunca é sinalizado na tradução.
    • Repare em quem usa uchi ou fala com sotaque de Kansai — é o equivalente japonês de marcar um personagem como nordestino ou gaúcho, e a dublagem brasileira às vezes compensa isso com sotaque regional. Quando faz, acertou.

    Depois dos pronomes, a camada seguinte de invisibilidade é a gramática da polidez, que muda a terminação dos verbos inteiros: keigo e formalidade no anime. E se você quiser ver o problema espelhado — o que acontece quando um nome brasileiro tenta caber no sistema japonês —, o lugar é a ferramenta de nome em japonês.